Domingo, 17 de Maio de 2015

A Virgem da Anunciação é uma das mais intrigantes obras do Museu, pois desconhece-se o seu autor que, por isso, é designado por Mestre dos Túmulos Reais, uma vez que os especialistas identificaram a sua colaboração nos trabalhos de escultura dos túmulos de Afonso Henriques e Sancho I em Santa Cruz. Esta obra é originária da Sé Velha e representa a Virgem ajoelhada com o livro de orações  (davnen), no momento em que o anjo Gabriel anuncia que ela irá conceber o Menino. O anjo é «O Mercúrio dos hebreus», pois tal como este deus romano, também ele é um mensageiro. Há quem diga que esta peça fazia parte de um conjunto que teria o anjo. O Salvador leu o poema relativo a esta escultura.

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VIRGEM DA ANUNCIAÇÃO

Poeira branca desfaz-se sobre a erva.

No escavado do corpo a oração. À sua frente, Gabriel, o anjo, é uma

pagela de pedra. Círculo de

laço que prende Gabriel, Mercúrio dos hebreus, ao davnen matinal de Maria

anúncio de maculada presença

sorvo a sorvo, no oco do corpo, no fosso

da pureza da pedra. Erguia-se a

alba. A mensagem golpeia, dissolve-se no vento.

 

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O André declamou o poema dedicado à Lactação de S. Bernardo. É um conjunto escultórico da autoria de João de Ruão que narra a cena em que S. Bernardo de Claraval é beneficiado com um jacto de leite da Virgem que amamentava o Menino. Esta lenda procurava explicar o carisma e a inteligência brilhantes de S. Bernardo que beneficiava dos favores e da proteção da Virgem. No Museu existe, na secção de pintura, um quadro alusivo a esta mesma cena, da autoria de Josefa de Óbidos. Bernardo foi o fundador da abadia de Clairvaux (Claraval), em França, e da Ordem de Cister. Esta ordem foi muito importante na história de Portugal, estabelecendo-se desde a fundação no território. Alcobaça foi o seu mosteiro mais importante.

 

LACTAÇÃO DE S. BERNARDO

Bernardo, ausente em meia morte como se dormisse.

Ao redor dos olhos

desenhavam-se círculos,

tornavam-no estranho, em Clairvaux, junto dos monges.

De fadiga, passou as mãos entre os cabelos

esfregou os olhos, para arregoar desperto - Tenho

fome. E a Virgem, enquanto o Menino lhe

puxa uma trança, a Virgem,

com modéstia e rubor

calava o que dava

o peito lhe oferece.

 

A gota de água dilui-se no vinho e

toma do vinho o gosto e a cor

a ferro que ruge em fogo se parece e

a forma primeira perdeu.

O ar na claridade cintila -

  também o leite que bebeu foi vermelho sangue E o

Menino pulava agora por todos os lados

feroz animal, da África e das

Índias, para abreviar o

instante, escondia-se na distância do pensamento.

 

Em Clairvaux, rezadas as vésperas, apurava-se, vindo

do claustro, um chinfrim de pássaros.

 

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O poema lido pela Ana Margarida evoca-nos S. João Batista, primo de Jesus, eremita do deserto, que O batizou no rio Jordão. A escultura é da autoria de João de Ruão e apresenta o santo vestido com uma pele de animal, com um livro e uma ovelha ao colo, seus símbolos iconográficos frequentes. S. João foi decapitado a mando do rei Herodes para satisfazer um pedido de Salomé, uma bela bailarina que o encantou com as suas danças e pediu a cabeça do santo numa bandeja, como recompensa pelo momento propiciado ao rei. 

 

SÃO JOÃO BAPTISTA

Como a princesa está bela esta noite

ela dança, desliza

quando o estio se perde no fruto maduro

ela dança, branca num espelho de

prata e desce

no desvairo do seu fulgor, pródiga, pelos

campos onde o homem não habita

 

Vejam Salomé - a

palidez, parece mulher morta -

  como embeleza a noite, ela dança para

o tetrarca, ela dança para João

para que seja seu o corpo branco de

João -

  nem o lírio dos prados cegado p'la

foice nem a neve dos montes nem os

seios da lua sobre as vagas do mar, coisa

alguma é tão branca como o corpo de

João

 

A princesa da Judeia dança. Quer

a voz de João, junco

sobre negras cavernas e num

instante retoma o fruros de dragões - a

sua carne deve ser de frio marfim

e os cabelos de João, bagos de uva

que pendem das vinhas dos vales de

 

Edom. Ela dança. P'los

seus lábios, granada que

uma faca de ouro

cortou, bago de romã dos jardins de Tiro

 

  Dança para mim Salomé

tudo o que me pedires, metade do meu reino

 

  Dêem-me neve a comer

esse fogo. Quero que me

tragam o mês mor de orvalho

a cabeça de João

 

Tem sabor a sangue o amor

 



publicado por CP às 09:16
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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