Domingo, 19 de Novembro de 2017

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   O Convento de Santa Clara-a-Nova é um dos melhores exemplos da arquitetura religiosa do período da Restauração. O projeto deste convento das Clarissas é atribuído ao matemático e engenheiro da Ordem de S. Bento Frei João Turriano (1610-1679). As paredes do começaram a ser lançadas em 1649 e têm uma espessura superior a 3 metros! O convento instalou-se em 1677, embora só ficasse concluído em 1696.

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   Situado no alto da colina de Santa Clara, na margem sul do rio Mondego, oposto à Alta da cidade, daí se podendo usufruir de umas vistas magníficas.

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   Em 1834, com a extinção das Ordens Religiosas, não foram admitidas mais noviças. Por isso, quando morreu a última freira, em 1886, as instalações ficaram desocupadas, sendo entregues ao cuidado da Confraria da Rainha Santa Isabel e a uma congregação religiosa que aqui pretendia instituir um colégio missionário.  

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   Em 1910, com a proclamação da República, algumas partes do complexo foram declaradas monumento nacional, enquanto as restantes dependências, nomeadamente na ala virada a norte, foram ocupadas pelo Exército - Batalhão de Serviços de Saúde - e pelo Museu Militar. Até há bem poucos anos, os mancebos da cidade e da região vinham aqui fazer as inspeções militares.

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   Em 2006, o Exército devolveu as instalações ao Estado, no decurso de uma reestruturação profunda. Desde então, esta Ala Norte tem estado ao abandono, pelo que o Estado manifestou recentemente a intenção de concessionar o edifício à iniciativa de privados. Muito se tem falado sobre a possibilidade de aqui se instalar uma unidade hoteleira, mas até agora nenhuma iniciativa se concretizou, pelo que o monumento se vai degradando a um ritmo acelerado.

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   Neste sentido, a curadoria da Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, decidiu criar aqui o núcleo mais importante da 2ª edição deste evento. Sob o tema geral Curar e Reparar, o curador-geral Delfim Sardo criou um percurso que partindo da Baixa até à Alta, atravessa depois o rio, revelando este Mosteiro de Santa Clara, tão desconhecido do público. No mesmo lance, oferece-se o usufruto de um novo olhar sobre Coimbra, reparando na cidade de um outro ângulo e numa outra distância.

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 AnoZero’17 é a continuação de uma aventura iniciada em 2015, sob a inspiração do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC). Pretende-se criar uma mostra de arte contemporânea na nossa cidade, numa relação com o património, a cidade construída e imaterial e os seus cidadãos. 

 

   Esta edição da Bienal distribui-se por uma série de espaços, que convidamos os nossos leitores a visitar. Além de Santa Clara-a-Nova, há exposições, conferências, eventos e outras manifestações artísticas, no Convento de S. Francisco, na Sala da Cidade, Colégio das Artes, Galeria de História Natural do Museu da Ciência, nas salas do CAPC, entre outros locais onde decorrem outros eventos numa programação convergente.   

 

   Neste núcleo que visitámos, o mais relevante desta edição, há instalações e obras de artistas nacionais e estrangeiros tão importantes como Louise Bourgeois, Jimmie Durham, Julião Sarmento ou Pedro Barateiro entre tantos outros. Como o nosso tempo era escasso e não podíamos visitar tudo, concebemos um percurso que contemplou alguns artistas apenas. Convidamos assim os nossos sócios a desafiarem os seus amigos a familiares a visitarem este núcleo da Bienal.

 

 

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   Iniciámos o nosso itinerário num enorme corredor do piso térreo. Aqui, confrontámo-nos com uma instalação de luz concebida por Julião Sarmento. À medida que avançamos, no meio de uma escuridão total, o nosso movimento vai despertando uma série de sensores que ativam luzes colocadas no teto. Ritmadamente, as luzes vão-se tornando cada vez mais intensas, até culminarem num clarão final, imediatamente antes de retormarmos a realidade no final do corredor, com a sua luminosidade natural. É como se fosse um percurso iniciático, gradual e progressivo, no termo do qual adquirimos um novo estatuto e se nos revela um mundo novo. É fácil e tentador estabelecer uma analogia com o percurso da nossa vida, desde a infância até à morte, mas isso fica para a imaginação de cada um.

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   Depois, já no exterior, deliciámo-nos com as vistas sobre a cidade, antes de entrarmos uma airosa capela exterior onde conhecemos uma pintura de um jovem artista brasileiro, Lucas Arruda, que apresenta ainda outros trabalhos neste pólo da Bienal.

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   Reentrando no Convento, subimos até ao corredor do piso superior e fomos deambulando pelo enormíssimo corredor – 200 metros! – entando e saindo das antigas celas das freiras, depois adaptadas a escritórios e camaratas militares antes de serem abandonadas, e onde agora se alojam as obras de arte dos artistas desta exposição.

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   São muitos os trabalhos expostos. Nós destacámos os trabalhos de José Maçãs de Carvalho. Trata-se de um artista da nossa cidade, docente na Universidade, que tem dedicado a sua carreira artística ao filme e à fotografia. O artista produziu uma série de fotografias, projetadas em diapositivos, onde nos mostra crianças a dormir cobertas por um lençol branco, intercaladas com imagens de uma selva vegetal. Segundo o catálogo da exposição, as imagens captadas no Jardim Infantil da Maternidade Bissaya Barreto pretendem observar «o processo do sono reparador das crianças e do seu acordar.»

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   No final, a marcar o termo do nosso passeio, subimos à sala do Torreão Sul onde assistimos a uma instalação de video e audio do consagrado artista sul-africano William Kentridge. Durante 15 minutos, um conjunto de 8 projetores e 4 megafones oferecem-nos um extraordinário filme. Trata-se de uma parada, ou uma procissão, que narra a história do continente africano a partir de silhuetas que desfilam ao som de uma fanfarra. Ficamos tão atraídos, quase hipnotizados, que, no final, apetece continuar a assistir ao filme, projetado continuamente. Mas não podia ser, estava na hora de partir!

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publicado por CP às 11:15
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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