Sexta-feira, 22 de Abril de 2016

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Ana Hatherly morreu em agosto do ano passado, com 86 anos. Por isso, de certo modo, esta exposição promovida na sua sede da rua Castro Matoso pelo Círculo de Artes Plásticas de Coimbra é uma espécie de homenagem. Nasceu no Porto em 1929 e destacou-se como professora, escritora e artista plástica. Depois de se licenciar na Faculdade de Letras de Lisboa, estudou cinema em Londres, doutorando-se a seguir em Literatura na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos da América.

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   A sua obra literária caracteriza-se pelo desejo de experimentar novos rumos, nomeadamente através da exploração do cruzamento da comunicação escrita e da linguagem visual. Na verdade, pode dizer-se que o seu percurso se iniciou a partir do estudo da poesia barroca portuguesa do século XVIII, altura em que eram muito populares certas habilidades poéticas como os calígrafos, em que os autores exibiam a sua destreza no desenho das letras; os enigmas, versos que continham elementos para o leitor decifrar; versos em pirâmide, em que as palavras se sobrepõem de modo a formar um triângulo; ou, entre outros, os labirintos, em que os versos desenham formas visualmente identificáveis, confundindo-se o desenho e a escrita, como estes: 

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   A sua obra foi muito marcada pelos acontecimentos históricos que, em 1974, ditaram profundas transformações em todos os domínios da vida nacional. Na sequência da revolução de 25 de abril e da agitação revolucionária que se seguiu, Ana Hatherly, que só por acaso se encontrava em Portugal nesse dia, pois vinha de Londres de passagem para prosseguir viagem, encontrou uma oportunidade única para registar em filme os momentos de euforia e esperança que então se viveram. Data dessa época o filme Revolução, que regista os graffitis e os murais então pintados nas paredes das ruas de Lisboa.

 

   Além dos filmes, conserva-se a memória desses tempos numa série de nove cartazes, intitulada As ruas de Lisboa,  onde, utilizando fragmentos de cartazes colados nas paredes, procedeu a colagens sobrepostas, confundindo as mensagens de propaganda política e partidária com os anúncios a espetáculos de circo, por exemplo. A cor e as letras de formatos diferentes parecem colidir, produzindo uma amálgama de formas e mensagens fragmentadas que produz um fortíssimo efeito estético, marcado pela originalidade e pela capacidade de fixar e transmitir a agitação revolucionária vivida naquela época.

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   O reconhecimento alcançado, bem como o envolvimento político e social da sua obra, fez com que fosse selecionada para representar Portugal na Bienal de Veneza, nos anos de 1976 e 1978. Este evento é um dos mais importantes e prestigiantes certames de arte contemporânea que se realizam em todo o mundo. Em 1977, Ana Hatherly participou também na Bienal de São Paulo, no Brasil, outro importante acontecimento, pelo que se pode afirmar que adquiriu uma projeção e um reconhecimento internacionais.

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   Ao mesmo tempo, foi-se dedicando à produção poética, aos ensaios literários e ao romance, merecendo referência livros como Um Ritmo Perdido, a sua obra de estreia, em 1958. Em 1963, publica o romance O Mestre e em 1969, 39 Tisanas, o primeiro de quatro livros dedicados "à escrita como pintura e filtro da vida". Reconhece assim "que o seu trabalho começou com a escrita e daí deriva para a pintura, através da experimentação da caligrafia e da palavra", revelando uma clara influência das culturas orientais, onde o desenho caligráfico se insere numa cultura que ritualiza a escrita, sacralizando-a e conferindo-lhe um valor plástico que o utilitarismo ocidental não considera.

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   Deve referir-se ainda o trabalho de divulgadora da arte de vanguarda desenvolvido por Ana Hatherly, nomeadamente através da publicação de muitos artigos na imprensa, bem como a produção de programas radiofónicos e televisivos. Obrigatório não Ver foi o título, provocador e contraditório, do programa da sua responsabilidade que foi emitido na RTP2 entre 1978 e 1979 e que serviu para intitular esta exposição. Infelizmente, os arquivos televisivos não preservaram essas emissões, pelo que resta o livro com o mesmo título, publicado em 2009, e que tenta reconstituir os guiões dessa série.

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   Uma das suas últimas séries artísticas é a fase Neograffitti, onde aplica a técnica de spray sobre papel, recorrendo a formas de expressão típicas dos grupos marginais das periferias urbanas e que ela apreendeu durante a sua experiência muito comprometida nas ruas de Lisboa durante o período subsequente à revolução de 1974. Muito curioso é notar como Ana Hatherly transporta essa expressão de uma identidade coletiva, pública e contestatária, para a intimidade do seu estúdio.

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Este texto foi redigido, quase integralmente, a partir da folha de sala da exposição, da autoria de Jorge Pais de Sousa.

 



publicado por CP às 16:55
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