Sábado, 18 de Outubro de 2014

CIMG5543.JPGÉ isso mesmo: Ahnungslos! Não perceberam nada mas leram bem: Ahnungslos! Vão ao Google Translator e digitem ahnunglos. É uma palavra alemã e pode ser traduzida, conforme o contexto, por «inconsciência», «sem noção», «inadvertido». Ahnungslos é o título da mais recente exposição do artista plástico João Queiroz, que visitámos nas instalações do Círculo de Artes Plásticas (CAPC) no piso térreo da Casa Municipal da Cultura.

CIMG5540.JPGEsta visita visita culminou um ciclo que o nosso clube dedicou ao CAPC, à sua história e aos diversos pólos e exposições que promove na cidade. Para terminar esta nossa deambulação, nada melhor do que uma visita orientada pelo próprio diretor do CAPC, Carlos Antunes, que amavelmente acedeu ao nosso convite e se dispôs a guiar-nos por este pólo designado Círculo Sereia. O Carlos começou por nos recordar a história do CAPC, que já conta 60 anos de existência. Ao longo destas décadas, o Círculo foi crescendo e acumulando uma coleção cada vez maior, o que levou à necessidade de procurar novas instalações. Por isso, há uns anos atrás, graças a uma decisão da Câmara Municipal, foi cedido ao CAPC este piso da Casa da Cultura, no Jardim da Sereia.

CIMG5545.JPGJoão Queiroz é um dos mais consagrados artistas portugueses contemporâneos. Nós já o conhecíamos de uma exposição conjunta que realizou com Pedro Vaz no edifício sede do CAPC, na rua Castro Matoso, ao fundo das Escadas Monumentais, no início deste ano letivo. Anteriormente, Pedro Vaz inaugurara uma exposição que, a partir das ideias de um filósofo chamado Georg Simmel (1858-1918), intitulou Stimmung, outra palavra alemã que pode ser traduzida por «estado de espírito» ou «ânimo».

CIMG5553.JPGAo Stimmung de Vaz respondeu Queiroz com Ahnungslos! Pelo meio deste diálogo muito estimulante entre os dois paisagistas, revelador de diferentes conceções estéticas sobre a Natureza, surgiu aquela exposição RauKoon, que nós visitámos. Por isso, o traço de Queiroz já não nos pareceu estranho. Pelo contrário, notámos uma óbvia continuidade e ligação, formal e temática, entre as duas exposições.

CIMG5568.JPGDurante o nosso percurso tivemos a inesperada companhia do António Vilhena, um escritor local que alguns de nós já conhecíamos, pois é visita habitual das escolas da nossa cidade. Vilhena colaborou com o nosso anfitrião, lançando comentários que complementavam a apresentação do Carlos Antunes e abriam novas pistas de leitura. Um dos pormenores que ficámos a saber foi que João Queiroz pinta com uma aguarela de grafite com que obtém aquele traço negro aguado tão característico. Esta aguarela é um produto exclusivo da Viarco, uma fábrica portuguesa de lápis.

CIMG5544.JPGAo longo da exposição, fomo-nos apercebendo, sempre sob a orientação do Carlos Antunes, da filiação da obra de Queiroz no paisagismo chinês e mesmo no desenho caligráfico dos mestres dessa civilização milenar, cujos signos são quase desenhos, o que o traço e o gesto pictórico do artista sugerem explicitamente. Outro aspeto para o qual o nosso guia nos chamou a atenção foi para a ausência da figura humana. Na verdade, se por acaso estas paisagens integrassem pessoas a nossa abordagem seria completamente diferente. Seguramente, logo nos interrogaríamos acerca da presença de uma figura naqueles enquadramentos, e a nossa atenção prender-se-ia com questões sociais: quem é? O que faz? Em que pensa? Qual o seu passado? Tem família? E amigos? Qual o seu estado de alma? Ora, isto seria desviar a Natureza e a Paisagem do centro da reflexão. Não é isso que Queiroz pretende. A Natureza é o protagonista exclusivo da sua obra.

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Do ponto de vista da conceção e da composição, o Carlos Antunes esclareceu-nos também sobre as coordenadas teóricas do processo criativo de Queiroz. Ele não procura uma representação fiel da paisagem, não busca uma fotografia com pincel. Pelo contrário, encontra tipos nos diversos elementos da paisagem e utiliza-os, tal e qual como os compositores usam as notas musicais nas suas partituras, para obter um efeito estético. Pode preencher espaços, alterar o traço, carregá-lo, definir linhas e volumes de acordo com a sua imaginação e o seu impulso criativo.

CIMG5564.JPGAssim chegámos ao fim da nossa visita. Claro que ainda tivemos tempo para circular pela exposição, para fotografar, apreciar e comentar. Resta-nos agradecer ao CAPC, especialmente ao Carlos Antunes, o excelente momento que nos propiciaram. Obrigado e até à próxima!

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publicado por CP às 10:10
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