Sábado, 10 de Maio de 2014

 No início do ano letivo, no já distante mês de setembro, iniciámos as atividades do nosso clube com um percurso evocativo do arquiteto Raul Lino, visitando os diversos projetos que assinou na nossa cidade. Agora, no arranque deste terceiro período, aproximando-se já o final do ano, lembramos um outro arquiteto português, Adães Bermudes. Não são muitos os seus projetos em Coimbra, apenas três, mas merecem um olhar mais atento: o Hotel Astoria, a sede do Banco de Portugal e a Escola de Santa Cruz.

 

Arnaldo Adães Bermudes nasceu no Porto, em 1864, filho de uma família galega. Frequentou a Academia das Belas Artes, concluindo depois os estudos em Lisboa na Escola de Belas-Artes. Em 1888, ganhou uma bolsa de estudos em Paris, aí permanecendo durante cinco anos, estudando na École Nationale des Beaux-Artes. Foram vários os bolseiros portugueses que aí se formaram, contribuindo para a renovação do gosto e da arquitetura portugueses, num movimento a que alguns historiadores chamam mesmo de Beauxartismo. Quando Adães Bermudes regressou a Portugal, nos meados da década de 90 do séc. XIX, iniciou a sua longa carreira como arquiteto, desempenhando vários cargos, todos importantes, em diversos organismos e departamentos governamentais.

 

 O nosso passeio começou então no Hotel Astoria. Quem quiser conhecer a história deste hotel e ver fotografias antigas do edifício, quer do exterior quer do interior, só tem que seguir a ligação deste excelente blogue: "Restos de Coleção." O hotel foi mandado construir por uma companhia seguradora, tendo as obras decorrido entre 1915 e 1919, sob projeto do nosso Adães Bermudes. Em 1925, ainda segundo o texto do blogue que estamos a seguir, o prédio foi arrendado ao empresário hoteleiro Alexandre Almeida, que concluiu as obras no interior, adaptando-o a hotel, sob projeto de outro arquiteto, chamado Francisco de Oliveira Ferreira.

 

 

 Além desta unidade, aquele empresário geria outros hotéis no seu grupo, como o Palace Hotel da Curia ou o Palace Hotel do Buçaco. Era, portanto, uma rede de unidades de luxo, que incluía ainda outros estabelecimentos na capital. Na verdade, o Astoria, quando foi inaugurado em 1926, foi igualmente considerado um dos melhores hotéis da região, senão mesmo do país. Tinha 62 quartos e equipamentos modernos, como um elevador, uma central telefónica e aquecimento central! Tudo isto, hoje, na era do telemóvel e do ar condicionado, nos parece banal, mas na época eram novidades que indiciavam luxo e conforto.

 O Astoria dispunha ainda de uma restaurante de excelente qualidade, com esmerado serviço de cozinha e uma garrafeira famosíssima, uma vez que servia aos seus hóspedes os reputadíssimos vinhos que Alexandre Almeida produzia nas suas propriedades das regiões da Bairrada e do Dão e que tornaram a adega do Palace Hotel do Buçaco uma das melhores de Portugal, com renome em todo o mundo, mesmo nos tempos atuais.

 O hotel foi edificado num lote muito estreito, um gaveto entalado entre duas artérias movimentadas, o que certamente levantou problemas ao arquiteto, já que não deve ter sido fácil implantar o prédio num espaço tão exíguo. A solução encontrada é muito engenhosa e equilibrada, como se pode observar na fotografia. As fachadas foram estreitando até se unirem numa esquina arredondada e adornada com varandins e janelas, encimada por uma bela cúpula que, ao que parece, não foi fácil de construir. Foi numa destas varandas que, em 1958, durante a ditadura do Estado Novo, o general sem medo, Humberto Delgado, o candidato da oposição democrática às eleições presidenciais, discursou à multidão que encheu o Largo da Portagem e o aplaudiu entusiasticamente. Atualmente, uma lápide assinala esse importante momento da história da resistência à ditadura.

 Logo ao lado do Hotel Astoria encontramos outro edifício com a assinatura de Adães Bermudes. Trata-se do Banco de Portugal. Mais uma vez, aconselhamos uma visita ao blogue "Restos de Coleção", para ler a entrada que o autor dedicou à sede desta instituição em Coimbra. Em 1887, o governo da monarquia e o Banco de Portugal assinaram um acordo, nos termos do qual este se tornaria o banco estatal, comprometendo-se a criar agências em todas as cidades capital de distrito. À época, o Banco de Portugal era simultaneamente um banco comercial e um banco emissor de moeda, para além de, claro está, se assumir como um símbolo do poder central do Estado nas cidades da província.

Coimbra já tinha, desde 1891, uma agência do Banco. No entanto, o governo entendeu dignificá-la, à semelhança do que fez em muitas outras cidades do país, lançandoi encomendas e concursos públicos para a construção das sedes distritais. Além desta sede de Coimbra, Adães Bermudes foi o arquiteto responsável pelas sedes de Bragança, Viseu, Évora, Vila Real, Faro e Ponta Delgada. Convidamos os nossos leitores a explorarem a internet em busca de fotografias dessas agências, para melhor se aperceberem da qualidade da obra deste arquiteto, ainda que alguns desses edifícios estejam atualmente reconvertidos a outras funções.

 

As obras iniciaram-se em 1910 e concluiram-se dois anos após. Na cave, por razões de segurança, localizavam-se os cofres blindados para depósito de valores e armazenamento do dinheiro, uma vez que competia às agências distritais garantir o abastecimento de notas e moedas das agências bancárias. No rés-do-chão ficavam os balcões de atendimento ao público, sendo de destacar os vitrais de Cláudio Martins, um artista muito conhecido na época pelos seus trabalho ao gosto Arte Nova. Por último, no 1º andar, além dos gabinetes da direção, estavam instalados os serviços da Caixa Económica Postal e a repartição de Finanças. Este prédio era verdadeiramente o símbolo distrital do poder financeiro do Estado que aqui concentrava todos os serviços.

 

No exterior, destacam-se as decorações em pedra que foram sntregues à firma Francisco dos Santos & Filho, bem como os gradeamentos em ferros que dão um ar muito peculiar ao banco. O prédio foi restaurado no ano 2000, estando por isso em boas condições e contribuindo para a dignificação deste Largo da Portagem que continua a ser o átrio de entrada da cidade, embora atualmente já não cumpra nenhuma das missões, posto que, com o euro, o Banco de Portugal já não é um banco emissor, para além do que não desenvolve atividade comercial.

Seguimos depois pelas ruas da Baixa, rumo à Escola do 1º Ciclo de Santa Cruz, aproveitando o dia primaveril muito agradável. Pelo caminho, não pudemos deixar de reparar numa montra da Foto Gaspar, reputada casa de fotografia da cidade, que  exibia algumas fotografias da passagem do general Humberto Delgado por Coimbra e do comício efetuado da varanda do Hotel Astoria.

 

 A Escola Primária Central de Santa Cruz, hoje escola do 1º ciclo incluída no Agrupamento Martim de Freitas, foi inaugurada no dia 19 de maio de 1910 e foi a última obra de vulto da responsabilidade dos poderes monárquicos na nossa cidade. De facto, poucos meses após estalou a revolução republicana, pelo que não deixa de ser irónico o escudo real português, encimado pela coroa, esculpido em pedra e colocado no cimo da fachada da escola, no cruzamento da avenida Sá da Bandeira com a rua de Saragoça. Mais curioso é lembrar que o arquiteto Adães Bermudes era maçon e republicano.

Atualmente, decorrem obras de restauro e modernização da escola, pelo que não é possível admirá-la, dado estar envolta em tapumes. No entanto, pode dizer-se, e admirar-se mais tarde quando se concluirem os trabalhos, que a obra corresponde a um plano de Adães Bermudes que concebeu diferentes tipologias de escolas primárias, cuidando especialmente da higiene, do arejamento e das condições de iluminação, para que a aprendizagem das crianças se desenvolvesse nas melhores. Os governos constitucionais da Monarquia, bem como depois os da República, viram na instrução das crianças uma prioridade urgente, dadas as elevadíssimas taxas de analfabetismo, que ultrapassavam os 70% da população e comprometiam o desenvolvimento do país.

Como não foi possível tirar uma fotografia desta escola centenária, deixamos uma captura retirada a partir do Google Earth e depedimo-nos até ao próximo passeio, esperando que, quando as obras se concluirem, possamos admirar a arquitetura desta derradeira construção monárquica em Coimbra.

 

Nota: depois de concluído este post, um amigo lembrou-me que a escola de S. Bartolomeu também é um projeto de Adães Bermudes. Foi um esquecimento imperdoável, fica feita a correção e prometida uma visita.



publicado por CP às 21:32
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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