Sábado, 25 de Outubro de 2014

WP_20141024_001.jpgO castelo de Coimbra já não existe, erguia-se no sítio atual do edifício das Matemáticas e do Largo D. Dinis. Foi destruído no século XVIII pelo Marquês de Pombal que projetou para o local um observatório astronómico. É uma pena, pois era um excelente castelo, com uma planta irregular e duas enormes torres. Uma, robusta e de base quadrada, construída no tempo de Afonso Henriques, era a Torre de Menagem. Esta torre dominava todo o planalto da Alta, tinha 22 metros de altura e avistava-se em todo o redor a léguas de distância, sendo bem o símbolo da importância estratégica da cidade. A outra, igualmente imponente e até mais alta, era chamadaTorre de Hércules, tinha uma planta pentagonal e foi mandada construir por D. Sancho I, em 1198. Havia ainda uma terceira torre, citada nos documentos medievais como Torre das Mulheres, por ser a residência da mulher do alcaide, das filhas, crianças e criadas. No interior do castelo havia uma cisterna e um picadeiro, sendo possível que aí se guardasse o tesouro régio, pois a fortaleza era praticamente inexpugnável. O castelo começou a ser demolido em 1773, mas como era tão sólido e os trabalhos de construção do Observatório acabaram por ser suspensos, só nos meados do século XX, quando da construção da atual Cidade Universitária, é que os últimos vestígios despareceram definitivamente. Resta-nos uma planta traçada por Guilherme Elsden, engenheiro militar inglês do tempo do Marquês de Pombal.

planta elsden.jpgPlanta levantada por Guilherme Elsden

 

Recentemente, o professor Jorge de Alarcão publicou um livro muito interessante sobre a fundação e a evolução da cidade desde o tempo dos romanos, dedicando um capítulo à muralha e ao castelo. Aí, surge uma ilustração da autoria de José Luís Madeira, que reproduzimos abaixo, e que reconstitui o castelo desaparecido. Com um pouco de imaginação, tomando como referência o aqueduto que ainda subsiste, podemos fazer uma ideia de como seria o castelo e lamentar a sua destruição. Foi aqui que iniciámos o nosso passeio desta semana.

castelo reconst..jpgJunto do castelo sobre a escarpa que hoje é vencida pelas Escadas Monumentais, levantava-se a chamada Porta do Sol, assim designada pois se orientava a nascente. Era ladeada por dois sólidos torreões e era um dos principais pontos de entrada na cidade. Desta porta já não resta qualquer vestígio, pois foi demolida na mesma altura do castelo, assim como uma capela que parece ter sido construída sobre ela nos inícios do séc. XVIII e que era referida como capela do Senhor do Castelo.

porta do castelo.png

 

Fotografia tirada do local onde existiu a Porta do Castelo, junto às Escadas Monumentais e reconstituição hipotética baseada em documentos medievais num desenho de Alfredo Fernandes Martins, em 1951 

 

Seguimos depois pelo recinto do antigo Colégio de S. Jerónimo, tentando acompanhar o traçado da antiga muralha que passava no limite exterior do Colégio das Artes e do Laboratório Químico, que é hoje o Museu da Ciência. Nas traseiras deste último edifício, ainda hoje são identificáveis duas torres que seriam postos de vigia. Ao logo de todo o percurso muralhado eram construídas torres onde as sentinelas vigiavam permanentemente  movimentos suspeitos nos arrabaldes, detetando a aproximação de tropas inimigas para assim dar o alerta, tal como aconteceu no tempo de D. Teresa, quando a cidade esteve cercada durante vinte dias. 

WP_20141024_017.jpgDaqui, a muralha descia acompanhando as atuais rua Padre António Vieira e a avenida Sá da Bandeira que podemos avistar, cá do alto, na base da falésia. Mas nós invertemos a marcha e rumámos à rua do Arco da Traição. Esta rua ainda conserva o nome antigo, a única memória que resta da antiga Porta da Traição, também chamada da Genicoca ou de Ibn Bodron. Esta porta foi demolida em 1836 e os últimos blocos de pedra foram removidos quando se construiram os atuais prédios universitários. O nome de Porta da Traição deve-se ao facto de não ter torres, ou então eram muito discretas, de forma a ficar oculta para quem avistasse as muralhas do exterior, permitindo apenas a passagem a pé. Diz-se que podia ser utilizada, em caso de necessidade, para saídas de emergência.

WP_20141025_002.jpgReconstituição da Porta da Genicoca segundo José Pinto Loureiro 

 

 

WP_20141024_023.jpgDa Porta da Genicoca a muralha descia, acompanhando o atual curso da Couraça de Lisboa, até à Estrela, local onde hoje está o edifício do extinto Governo Civil e onde ainda existem vestígios da Torre de Belcouce, que o arquiteto Raul Lino, já no século XX, aproveitou para, sobre ela, construir um miradouro panorâmico com vistas lançadas sobre o Mondego e os campos envolventes. 

Todo este itinerário das muralhas medievais de Coimbra se encontra assinalado com marcas embutidas no chão, permitindo aos turistas acompanhar o traçado das muralhas desaparecidas, percorrendo um um caminho com mais de 2 km. Nos locais mais importantes foram colocados painéis informativos muito esclarecedores.

WP_20141024_028.jpgNa descida até à Estrela, pela Couraça de Lisboa, existiam várias torres de vigia, hoje desaparecidas. Uma terá sido incorporada no atual Instituto Justiça e Paz, enquanto outra foi recentemente identificada como um mirante. É provável que tenham existido outras.

WP_20141024_030.jpg A Porta de Belcouce também já não existe, pois terá sido demolida nos inícios do séc. XVIII para dar lugar ao Colégio de Santo António da Estrela. Aí existiria um arco que, segundo uns, seria do tempo dos romanos, mas que o professor Jorge de Alarcão propõe ser o que restava da tal Porta de Belcouce. De qualquer modo, neste ponto da cidade conserva-se um dos segmentos da muralha ainda facilmente reconhecível, como podemos ver na imagem.

WP_20141024_032.jpgSe a Porta de Belcouce já desapareceu, a Torre com o mesmo nome ainda subsiste, poderosa e pentagonal, facilmente contemplável a partir do Largo da Portagem. Nós tínhamos planeado entrar pelos jardins e desfrutar das belas vistas que daí se podem gozar, mas o portão estava fechado, pelo que nos contentámos em apreciar a paisagem debruçados sobre o parapeito de um antigo fragmento da cerca medieval.

Belcouce.jpgDaqui seguimos pela atual rua Fernandes Tomás, antiga rua das Fangas, até à Torre de Almedina. Do lado esquerdo, as casas foram construídas aproveitando a linha da muralha, pelo que não é possível vê-la, já que as paredes estão integradas nas habitações. Aproximadamente a meio desta rua, uma placa informativa assinala a localização de outras torres: a Torre de D. Joana e Torre do Engenho ou do Trabuquete. É  hoje muito difícil identificar estas torres, sendo até provável que existissem outras. Trabuquete era  uma espécie de catapulta que permitia lançar sobre os soldados inimigos mortíferos projéteis.

WP_20141024_041.jpgA Porta de Almedina ou Porta da cidade era a entrada principal em Coimbra e já existia desde o tempo da cerca muçulmana, sendo muito alterada nos séculos posteriores. Por aqui se acedia à parte Alta da cidade, a medina, daí retirando a porta o seu nome. Sobre a porta e o Arco de Almedina ergue-se a poderosa Torre de Almedina, onde hoje se instala um núcleo museológico dedicado à muralha da cidade e que, até ao séc. XIX, acolheu a Câmara Municipal.

torre e arco de almedina.jpgTorre e Arco de Almedina

 Neste ponto do nosso passeio, havia dois rumos possíveis: ou subíamos pela Escadaria do Quebra-Costas, antigamente chamada Rua das Tendas, por aí se desenvolver intensa atividade comercial, seguindo em direção à Torre da Contenda e à Torre de Anto onde é possível identificar o adarve e um troço bem conservado da muralha, ou descíamos pela Porta da Barbacã. Descemos, pois o cansaço acumulado era já muito. Por outro lado, as torres citadas merecerão, brevemente, uma visita autónoma.

WP_20141024_056.jpgPorta da Barbacã

 Ao longo da muralha principal, desde Belcouce até Almedina e continuando até à atual rua do Corpo de Deus, foi erguida uma segunda cerca defensiva no tempo do rei D. Fernando, chamada barbacã, daí advindo o nome de Porta da Barbacã. Esta porta tem um arco quebrado, típico das construções do tempo do rei D. Manuel I. Próximo da cabeceira amputada da igreja de S. Tiago, infletimos pela direita, subindo a rua do Corpo de Deus, onde se localizava a judiaria medieval, já fora das muralhas. Na verdade, os judeus viviam nos arrabaldes da cidade.

WP_20141024_057.jpg

No final desta rua localizava-se a Porta Nova. Aí, para facilitar o acesso dos frades do Mosteiro de Santa Cruz ao Colégio Novo de Santo Agostinho, onde na atualidade está instalada a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, foi aberta no muro defensivo uma nova porta, da qual já não resta qualquer vestígio. Há ainda notícia da existência de duas torres de vigia: a de S. Nicolau e a de Precónio.

WP_20141024_058.jpgLocal aproximado onde a muralha foi cortada para abrir a Porta Nova

 

Daqui, a muralha seguia pela Couraça dos Apóstolos até ao cimo da rua Padre António Vieira, onde existiria outra sentinela. Depois, prolongava-se até ao atual edifício do Museu da Ciência onde rematámos o nosso itinerário. 



publicado por CP às 11:53
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