Sábado, 14 de Dezembro de 2013

 

O Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), fundado em 1958, é um organismo autónomo da Universidade de Coimbra que tem como objetivo sensibilizar o público para a Arte Contemporânea. Neste âmito, o CAPC promove regularmente exposições de artistas plásticos contemporâneos nas suas instalações, quer na sua sede original, ao fundo das Escadarias Monumentais, quer no edifício da Casa Municipal da Cultura, no piso térreo com entrada pelo Jardim da Sereia. Foi aqui que visitámos a exposição de Valdemar Santos intitulada «Há Água em Marte.»


  


Valdemar Santos é um artista plástico natural de Coimbra. Estudou Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, realizando vários estudos posteriores, incluindo o Doutoramento em Arte Contemporânea na Universidade de Coimbra. Já o conhecíamos precisamente da exposição Motel Coimbra, no Colégio das Artes, que visitámos há uns tempos e que exibia os trabalhos dos alunos desse curso. Agora, esta mostra é uma exibição individual dos seus trabalhos.



Realizámos alguns contactos pessoais com o Valdemar Santos para que nos conduzisse pelo percurso da exposição. Ele mostrou-se muito amável e recetivo, no entanto, como é professor e trabalhava na tarde de sexta-feira, não nos pôde acompanhar, mas deu-nos algumas indicações que nos facilitaram a visita, fornecendo-nos pistas de leitura e interpretação. Além disso, na própria galeria do CAPC, forneceram-nos dados importantes sobre o autor, a sua formação, a sua obra e a exposição, incluindo uma folha de sala assinada por António Olaio.

 

 

A exposição está dividida em três partes, cada uma em sua sala, formando um circuito coerente. Logo à partida, a obra que dá título à exposição, uma frase recortada em letras de alumínio coladas na parede junto ao solo: «HÁ ÁGUA EM MARTE». É uma «frase que tudo parece contaminar - escreve António Olaio - parecendo ser o grande título do qual todas as outras obras serão subtítulos.» Na verdade, a relação entre a palavra e a representação plástica prossegue nas duas pinturas sobre tela que representam capas de livros. Ao fundo, na mesma sala, uma capa de um livro de Alberto Pimenta e outra de uma célebre obra de George Orwell. O autor interessa-se pelas primeiras edições de livros, como os representados nestas telas, cruzando assim o discurso literário com a representação pictórica.

 

 

Uma constante de todo o itinerário é a cor. Aquela cor azul anil, ou azul pastel com laivos indefinidos e com muitas matizes e gradações, constitui um dos elementos permanentes no nosso olhar. A ambiguidade da cor manifesta-se também nas figuras representadas. Um rosto humano com uma máscara de pássaro, um super-herói recuperado da BD, um rosto meio humano e meio animal, com um olhar muito expressivo, que saberemos depois tratar-se de um homem de Neandertal. Tudo nos remete para um universo estranho (Marte?), ficcionado, de sonho, etéreo e sugestivo. O díptico que abaixo se reproduz é muito enigmático e intrigante. O João Tiago sugeriu que o lêssemos como uma figura mirando-se ao espelho. Realmente, quando nós, na atualidade, olhamos o nosso antepassado neandertalense, até que ponto vemos o nosso reflexo? E quando os primeiros hominídeos, cujo lugar na cadeia evolutiva é indefinido e ambíguo, imaginavam o futuro, será que nos viam? Como o nosso reflexo no espelho, ou o olhar do espetador numa tela, há sempre dois  mundos, duas imagens - uma real e outra suposta -, dois universos que nos suscitaram estas reflexões.

 

 

Na sala seguinte, mantêm-se os tons azuis, ainda que em matizes diferentes e em temas muito distintos. Um conjunto de três quadros emoldurados, de grandes dimensões, representando uma grua e um prédio em construção, inacabado, que o artista nos confessou serem tomados a partir daqueles edifícios junto ao Parque Verde do Mondego.

 

 

Ao fundo, nesta última sala, destaca-se a única pintura que não é dominada pelos tons azulados. Trata-se de uma pintura que amplia para grandes dimensões uma aguarela do séc. XIX, projeto para um jardim romântico na zona do Buçaco. Uma pequena casa, que mais parece uma maqueta, revestida a azulejos, que assinalam a permanência do azul, intrigam o observador, não apenas por estar colocada no meio do chão sem qualquer proteção, como por estar rodeada de uma mancha de terra que mais parece a sombra projetada da própria casa. No telhado, um pneu de borracha torna-se intrigante, por estar fora da escala e porque está completamente deslocado. O Eduardo parece ter gostado desta instalação.


 


Para concluir a exposição, como se fosse um ponto final simbólico, num corredor afastado e quase impercetível, encontrámos o trabalho que serviu de apresentação e que se reproduz no cartaz de divulgação. Numa folha protegida por um vidro, uma crosta de tinta seca recortada em forma de círculo, parecendo um sol negro ou um planeta misterioso. Olhando atentamente, constatamos que os bordos clareiam, como se houvesse uma espécie de atmosfera. O Valdemar explicou-nos que todas as mostras do CAPC têm um cartaz com um símbolo em forma circular, já que o próprio logotipo do Círculo de Artes Plásticas é um círculo negro. O artista respondeu a essa solicitação, cumprindo a tradição e fechando a mostra com este ponto negro-azul, o resquício seco da tinta usada para produzir os trabalhos da exposição, a matéria através da qual a ideia se corporizou na tela e sem o que a arte não seria possível. O João Aveiro sugeriu que esta obra, numa escala muito distinta dos restantes trabalhos, marca não apenas o final da  exposição, mas evoca igualmente o ponto onde se iniciou todo o processo criativo. «Como se fosse um círculo, em que o príncipio toca o fim», rematou a professora Fernanda!



Resta agora divulgar a exposição, levar os pais, os irmãos, os avós, os tios, os primos, os amigos e os vizinhos ao CAPC durante as férias do Natal. Há um artista para conhecer e uma sala de exposições que deve entrar nos hábitos de todos os conimbricenses. E não se paga nada! Boas férias, bom Natal e Bom Ano a todos! Em janeiro cá nos reencontraremos para mais passeios!



 

 

 

 



publicado por CP às 19:18
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