Sábado, 23 de Novembro de 2013

 

Provavelmente, nenhum dos nossos leitores entende o título deste texto, o que é estranho, pois trata-se do nome da nossa cidade em hebraico. Tanto mais estranho é o desconhecimento quanto a presença documentada de judeus em Coimbra remonta ao séc. X, pelo que o normal seria que todos identificássemos o nome da nossa cidade nesta língua tão antiga. Por outras palavras, os judeus não nos deviam ser estranhos, a nós, conimbricenses. Mas são, porque, ao longo dos séculos, os perseguimos, matámos e expulsámos do nosso convívio.

 

 

Claro que este desconhecimento é explicável com o pior dos argumentos: a intolerância! Não a de agora, pois que na atualidade a comunidade judaica já não existe, mas a de outrora, desde o séc. XIV até ao seu desparecimento da vida coimbrã, nos finais do séc. XVIII. É certo que não vamos nós hoje assumir a culpa dos nossos ancestrais. Mas temos um dever de memória, isto é, a obrigação de resgatar das profundezas do esquecimento a importância que a comunidade judaica teve na história da nossa cidade e, desta forma, fazer alguma justiça à memória dos judeus desaparecidos. Há ainda vestígios documentais, urbanísticos e imateriais, que comprovam largamente a antiguidade e importância deste povo em Coimbra.

 

 

Foi esta a tarefa a que nos propusemos: conhecer a Coimbra Judaica. Tal é o título deste texto, acima escrito em hebraico. Para isso, servimo-nos da publicação das atas de um colóquio que, em 2008, o Departamento de Cultura da Câmara Municipal promoveu sob a orientação científica do professor Saul Gomes. Nesse evento, vários académicos proferiram intervenções sobre a presença e a atividade dos judeus em Coimbra e na Península Ibérica. Os participantes nesse encontro científico realizaram um percurso pedonal, visitando os locais mais importantes da cidade onde é possível assinalar a antiga ocupação judaica. Foi esse percurso que retomámos na nossa visita.

 

 

 

Iniciámos o trajeto na rua do Corpo de Deus, pois era aqui que se localizava a Judiaria velha. Este bairro judeu, implantado fora das muralhas, tinha uma sinagoga (nome dado ao templo dos judeus) e um cemitério próprio, na extremidade oriental e completamente desaparecido. A sinagoga ficava onde na atualidade está instalada uma casa de fados e que antigamente era a ermida do Corpo de Deus, de onde provém o célebre retábulo exibido atualmente no Museu Machado de Castro, datado do séc. XV e da autoria do mestre escultor João Afonso. Nos finais do séc. XVII e inícios do seguinte, este templo também foi conhecido como Capela de Nossa Senhora da Vitória.

 

 

 

 

Os judeus viviam em bairros isolados da restante comunidade urbana, com jurisdição própria e sujeitos a obrigações especiais, como por exemplo impostos especiais e o uso de sinais distintivos. Algumas judiarias estavam cercadas por muros altos e portas que, à noite, se fechavam para impedir o contacto com os restantes habitantes. Esta minoria vivia apartada e submetida a regras próprias. Há até um exemplo ilustrativo desta realidade quando, em 1357, o prior da igreja de Santiago entrou na Judiaria a pedir o pagamento de alguns tributos. O rabi (nome dado ao sacerdote judaico), chamado Salomão Catalão, e o procurador Isaac Passacom recusaram o pagamento, argumentando que viviam fora das muralhas, não pertenciam à freguesia da igreja e tinham a aprovação do rei.

 

 

A comunidade judaica era muito diversificada, pois os seus membros dedicavam-se quer aos ofícios mecânicos (sapateiros, ferreiros, alfaiates, tintureiros), quer ao comércio e a atividades financeiras. Muitos judeus eram médicos, advogados e letrados, frequentemente abastados e prestigiados. Mas havia famílias que se dedicavam à agricultura, presumivelmente na encosta de Montarroio, no local onde hoje está situada a Escola Jaime Cortesão. Essa encosta foi em tempos conhecida como Lapa Grande dos Judeus, tendo uma fonte que se designava dos Judeus, no local aproximado onde, em 1986, foi recolocado o atual fontanário.

 

 

Em 1372, no reinado de D. Fernando, os castelhanos atacaram a cidade e o bairro, porque desprotegido no exterior, foi severamente danificado. O rei, sentindo a necessidade de reforçar a muralha, aproveitou para expulsar os judeus deste local, facto que reflete a animosidade crescente que a população cristã sentia nestes tempos contra a minoria israelita, que alguns responsabilizavam pelos tempos difíceis que se viviam, nomeadamente as pestes e as guerras.

 

 

 

Os judeus, talvez não na totalidade, abandonaram este local e transferiram-se para a zona baixa da cidade, no cruzamento da Rua Nova com a Rua Direita. Aqui existiu também uma sinagoga.

 

Este local passou a ser conhecido como a Judiaria Nova (ou Judiaria de Sansão, nome antigo da atual Praça 8 de Maio), por oposição à anterior, da rua Corpo de Deus, que era a Judiaria Velha, havendo ainda uma outra judiaria, da Pedreira, na Alta da cidade, cuja localização não se conhece com exatidão. Na zona dos Olivais, é provável que tenha existido igualmente outro núcleo judaico.

 

 

 

Em 1503, depois de em 1496 ter dado ordem geral de expulsão de todos os judeus do Reino de Portugal, o rei D. Manuel I mandou destruir o cemitério e autorizou a venda de todas as pedras a dois irmãos, provavelmente cristãos-novos. Foi a época das grandes perseguições que culminaram em 1506 com a Matança dos Judeus em Lisboa. Nesse ano, por alturas da Páscoa, de 19 a 21 de abril, milhares de judeus foram chacinados, incluindo mulheres e crianças, acusados de serem responsáveis pela fome e pela peste que assolava o Reino.

 

 

 

Para fugirem destas perseguições, os judeus mais abastados exilaram-se noutros países mais tolerantes, principalmente no norte da Europa e na Holanda. Outros foram obrigados à conversão, mesmo que continuassem a praticar a sua fé às escondidas, sendo muito frequentemente descobertos, acusados, torturados e condenados à morte. Outros ainda, procuraram ambientes menos hostis nas aldeias do interior beirão e alentejano, praticando secretamente a sua fé durante várias gerações. Estes ficaram conhecidos como Marranos.

Muitas crianças judaicas foram retiradas à família e batizadas à força. Estes eram os cristãos-novos, que foram um dos alvos preferidos da Inquisição.

 

 

À custa das perseguições, foram-se apagando as tradições judaicas da memória da cidade. Curiosamente, durante muitos anos, persistiu ainda uma curiosa tradição de origem judaica. A procissão do Corpo de Deus era a mais importante festividade cívica e religiosa do séc. XVI e era costume desfilar pelas ruas da cidade, com a assistência de toda a população que desfilava pelas ruas enfeitadas. Destacavam-se os representantes das confrarias e dos ofícios, com os seus estandartes, as imagens dos seus santos protetores e os membros em trajes de gala. O desfile era aberto  pela chamada "Judenga com sua toura" que era, nada mais, do que uma representação de uma cabeça de uma bezerra posta sobre o corpo de um homem, a toura, forma de ridicularizar a Torah, o livro sagrado dos judeus. Assim os cristãos-velhos celebravam a subjugação da crença israelita à sua fé. Parece que esta tradição se iniciou em Guimarães, difundidndo-se depois por outras regiões, tendo sido praticada em Coimbra.

 

 

 

Com o batismo forçado, muitos judeus adotaram nomes cristãos, apesar de persistirem na prática dos seus rituais, casando uns com os outros e evitando diluir a sua fé e a sua cultura na religião e nos costumes maioritários. Por isso, a Inquisição elegeu-os com um dos seus alvos preferenciais, movendo-lhes uma feroz perseguição, que se prolongou durante século, no que constituiu uma das páginas mais tristes da nossa história.

Visitámos o Pátio da Inquisição onde, em tempos, se sediou o dito Tribunal. Aqui se realizaram muitas execuções, bem como em outros locais da cidade. Os cárceres inquisitoriais aproveitaram as instalações do Colégio das Artes, quando este foi deslocado para a Alta da cidade. Hoje, está aqui instalado o CAV (Centro de Artes Visuais), preservando-se uma das celas, que nós visitámos.

 

 

Conluimos o nosso percurso na Praça do Comércio, também conhecida como Praça Velha, pois foi aqui que se realizaram muitos autos-de-fé, mais exatamente 208, entre 1567 e o dia 2 de outubro de 1762, quando se realizou aqui a última dessas horríveis cerimónias. Ao todo, aqui foram mortas, queimadas vivas na fogueira, mais de quatro centenas de vítimas, a maior parte acusadas de serem cristãos-novos, isto é, judeus obrigados à conversão que eram acusados de persistir na prática da sua fé e dos seus rituais. Foi, sem dúvida, uma das páginas mais tristes e vergonhosas da nossa história, pelo que aqui deixamos, no final da nossa visita, a nossa homenagem a todas essas vítimas injustiçadas.

 



publicado por CP às 09:43
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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