Sábado, 02 de Novembro de 2013

 

Álvaro Cunhal nasceu no dia 10 de novembro de 1913, em Coimbra. Se fosse vivo estaria quase a completar 100 anos. Para assinalar a efeméride, o Museu Municipal acolheu uma exposição comemorativa promovida pelo Partido Comunista Português que lançou um vasto programa comemorativo que inclui mostras documentais, exposições, um congresso, publicações diversas e uma série de eventos que podem ser consultados na página da internet dedicada ao centenário do nascimento do seu antigo secretário-geral: alvarocunhal.pcp.pt Nós associámo-nos a esta homenagem e decidimos visitar a exposição.

 

 

A família de Álvaro Cunhal era originária de Seia. O pai, Avelino Cunhal, era advogado, liberal e republicano, e a mãe, Mercedes Barreirinhas Cunhal, era muito católica. Álvaro teve dois irmãos mais velhos que faleceram ainda jovens, e uma irmã 14 anos mais nova, Maria Eugénia Cunhal. Nasceu em Coimbra, na freguesia da Sé Nova, numa casa que ainda hoje se pode ver na junção da ladeira das Alpenduradas com a rua do Brasil. No regresso à escola, através do vidro do autocarro, captámos uma fotografia que mostra a casa onde, há exatamente 100 anos, nasceu esta figura incontornável da política portuguesa do séc. XX.

 

 

Depois de ter passado os primeiros anos da infância em Seia, quando tinha 11 anos a família mudou-se para Lisboa. Aí frequentou o Liceu Pedro Nunes e, mais tarde, o Liceu Camões. Concluídos os estudos secundários, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi aí que se empenhou na vida política, ainda muito jovem, com cerca de 17 anos, militando no Partido Comunista.  Foi eleito representante dos estudantes no Senado da Universidade. Na figura de baixo, podemos observar os rascunhos da intervenção do jovem estudante numa reunião do Senado.

 

Em 1935 é escolhido para secretário-geral da Federação das Juventudes Comunistas e, no ano seguinte, visita a URSS. Ao longo destes anos, colabora em jornais e revistas como a Seara Nova e o O Diabo, bem como nas publicações clandestinas do PCP, como o Avante e O Militante. A exposição mostra alguns exemplares desses orgãos clandestinos.

 

 

 

Concluiu os estudos em 1940, com notas brilhantes, passando a dedicar todos os seus esforços à militância partidária e à vida política, naqueles tempos marcados pela guerra e pela ditadura do Estado Novo. Foi preso em 1949, permanecendo 11 anos nas cadeias como preso político, sendo 8 desses anos em completo isolamento. Detido inicialmente na Penitenciária de Lisboa, foi transferido para o forte de Peniche, de onde se evadiria em 3 de janeiro de 1960, com um grupo de camaradas, numa fuga recheada de coragem e peripécias. Em baixo, podemos ver uma fotografia dos objetos usados por Cunhal na prisão de Peniche, com a curiosidade de os socos de madeira terem sido fabricados pelo próprio.

 

 

Álvaro Cunhal mostrou nesse período de longo sofrimento, em que foi submetido a torturas e maus tratos, um forte carácter, uma determinação e uma solidez de ideais que lhe permitiram resistir e sobreviver. Durante esses anos da prisão, desenvolveu, além da sua reflexão política, a escrita e o desenho. Como escritor, é autor de vários livros, escrevendo sob o pseudónimo Manuel Tiago, facto que só vei a ser revelado poucos anos antes da sua morte. Destaquem-se obras como «Até Amanhã, Camaradas», «Cinco Dias, Cinco Noites», ou «A Estrela de Seis Pontas». Fez ainda traduções de Shakespeare, bem como escreveu inúmeros textos de reflexão política e ideológica.

 

 

São célebres os seus desenhos da prisão, que o sr. João nos mostrou em cópias editadas pelas «Edições Avante», editora oficial do PCP. Estes desenhos da prisão foram publicados pela primeira vez em 1975. Foram executados entre 1951 e 1959 na Penitenciária de Lisboa e em Peniche. Alguns anos depois foi divulgada uma série de desenhos a carvão. Depois de esgotada esta primeira edição, foi lançada recentemente uma segunda edição que pode ser adquirida por quem o desejar.

 

 

  

 

Para Álvaro Cunhal, a arte tem sempre uma finalidade social, deve ser colocada ao serviço de uma ideologia e de um projeto político a concretizar no futuro. O artista tem a obrigação de levar, nos tempos difíceis, uma mensagem de esperança e otimismo aos trabalhadores e ao povo oprimido e sofredor. São suas as palavras transcritas de um seu trabalho de reflexão sobre a arte e o papel do artista na sociedade: «[o artista tem o direito de partir] à descoberta de novos valores formais (da cor, do volume, da musicalidade, da linguagem) com o propósito de os tornar adequados e capazes de levar à sociedade, ao ser humano em geral, uma mensagem de alegria ou tristeza, de solidariedade ou de protesto, de sofrimento ou de revolta, em qualquer caso, como é de desejar, de otimismo e de confiança no ser humano e no seu futuro.»

 

 

Além dos desenhos, estavam patentes na exposição algumas pinturas a óleo sobre madeira, igualmente datadas dos tempos da prisão. Estes trabalhos fazem parte de uma série a que Cunhal chamou «Projectos» e testemunham a intensa atividade do lider comunista do ponto de vista artístico e cultural, a par da sua vida política e empenho cívico.

 

 

Álvaro Cunhal contou um dia, segundo José Carlos de Vasconcelos, que "uma vez deixaram entrar na cadeia, quando estava preso em Peniche, tintas e uma tábua relativamente grande. Foi então a primeira vez que pintou a óleo - e até pintou a tábua dos dois lados.» Quando fugiu da prisão, a tábua claro que ficou lá e só depois do 25 de abril de 1974 e da recuperação da liberdade, os militares encontraram estas pinturas numa arrecadação e foram levá-las a Álvaro Cunhal, quando era ministro. São essas tábuas pintadas a óleo na prisão que podemos admirar na exposição.

 



publicado por CP às 08:20
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