Sábado, 26 de Outubro de 2013

Desta vez, percorremos alguns dos locais da cidade, seguindo os passos de alguns poetas portugueses que, vivendo, estudando ou apenos passando por Coimbra, dedicaram alguns poemas à nossa cidade.

Iniciámos o nosso itinerário no Jardim Botânico e, parando em alguns pontos previamente combinados, fomos andando até ao Largo da Portagem, onde nos aguardava uma surpresa. Em cada paragem, um membro do clube lia um poema relacionado com o local. No final, ficámos a conhecer melhor a cidade e alguns poetas portugueses, com a certeza que muitos outros poetas se inspiraram em Coimbra, e que, naturalmente, este roteiro não passou de um pretexto para aprendermos a gostar e a ler poesia.

 

Resta dizer que o itinerário foi concebido a partir da coletânea de poemas sobre Coimbra, editada por ocasião da Coimbra 2003/Capital Nacional da Cultura, organizada por Adosinda Providência Torgal e Madalena Torgal Ferreira: «EnCantada Coimbra» (Lisboa; Publicações Dom Quixote; 2ª edição 2003). Todos os poemas foram aí coligidos à exceção de «Ai flores, ai flores do verde pinho», de D. Dinis; «Epígrafe», de Eugénio de Castro e «Portugal», de Miguel Torga.

 

  

O Eduardo a ler o poema de Alberto de Oliveira no Jardim Botânico

 

Alberto de Oliveira: Pelo Jardim Botânico… 

Nasceu no Porto em 1873, onde morreria em 1940. Frequentou a Universidade de Coimbra, onde conheceu António Nobre e Eugénio de Castro. Das polémicas literárias desses tempos, nasceram os movimentos simbolista e decadentista. «Palavras Loucas» é a sua obra mais conhecida. É considerado o fundador do Neogarrettismo, defendendo, sob a inspiração literária de Almeida Garrett, o nacionalismo e a recuperação da literatura popular, bem como o abandono de modelos culturais estrangeiros.

 

Pelo Jardim Botânico, à tardinha…

É a hora ritual do sol poente,

Quando as tílias rescendem docemente

Na avenida cismática e sozinha.

 

Quisera ver raiar na minha frente

Alguma namorada Teresinha,

Cruzar no dela o meu olhar ardente,

Ter enlaçada na sua mão a minha.

 

Amam em cada ninho as toutinegras,

Chamejam, ao passar, as capas negras,

Como se a luz do amor as penetrara…

 

Tange um sino suave no convento…

E o sol exausto, em seu ocaso lento,

Acaba de morrer em Santa Clara.

 

 

 

 

O Francisco a ler um Manuel Alegre


Manuel Alegre: Arcos do Jardim

Manuel Alegre: Arcos do Jardim

Nasceu em Águeda em 1936. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, tendo-se distinguido na oposição ao Estado Novo, vivendo exilado em Paris e na Argélia. Após o 25 de abril, regressou a Portugal, militando no PS, distinguindo-se em diversos momentos da vida política. Foi candidato à Presidência da República em 2006. A sua obra é extensa e traduzida em várias línguas. Como poeta, destacam-se as seguintes obras: «Praça da Canção», «O Canto e as Armas» e «Atlântico».

 

Todos os dias sob os Arcos do Jardim

Todos os dias eu passava e nunca via

 

Senão arcos e arcos entre o não e o sim

Senão arcos e ogivas de melancolia.

 

Eram arcos no ritmo e na palavra

Por dentro da sintaxe e em cada imagem.

 

Todos os dias sob os Arcos eu passava

Todos os dias para a outra margem.

 

Eram arcos na rima e não havia

Senão arcos e grades e arquitraves.

 

Mas eu passava sob os Arcos e partia

Todos os dias eu partia com as aves.

 


 

O Salvador lê Manuel Silva-Terra


Manuel Silva-Terra: Coimbra

Manuel Silva-Terra nasceu em Orvalho, localidade do concelho de Oleiros, em 1955. Estudou Filosofia na Universidade de Coimbra. Destacou-se como poeta e editor da Editora Licorne. «Fragmentos», «Campos Magnéticos», «Condomínio», ou «Lira», o seu último livro, são algumas das suas obras. Reside em Évora onde é professor do ensino secundário.


Às 9h da manhã, um homem

Subia as escadas monumentais com uma

Borboleta poisada no ombro.

Nunca vi ciência mais exata.

 

 


O Alberto lê David Mourão-Ferreira: Fala Apócrifa de Dom Dinis

Nasceu em Lisboa em 1926, aí morrendo em 1996. Licenciado pela Universidade de Lisboa, onde foi professor catedrático, foi Secretário de Estado da Cultura e diretor do jornal «A Capital», já desaparecido. Foi um dos responsáveis pelas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi ensaísta, romancista, poeta, crítico literário e tradutor. Vencedor de vários prémios literários, de entre a poesia destacam-se: «A Secreta Viagem», «Do Tempo ao Coração», «Cancioneiro do Natal», «Matura Idade» e «Ode à Música».

 

«Toda a vida cantei.

(Ou foi pedir socorro?)

Jogral,

Em meu pinhal,

O próprio vento canta.

Mas sei, enfim, que morro

Desta fome que é ter

Por mulher

Uma Santa.

 

Jogral,

em meu pinhal,

já só o vento canta.»


 



O David lê um poema de D. Dinis (Ai flores, ai flores do verde pinho) com o João Tiago a espreitar


6º rei de Portugal, filho de D. Afonso III e de D. Beatriz de Castela, nasceu a 9 de outubro de 1261 e faleceu em 1325. Aclamado em1279, foi um dos mais longos reinados da história de Portugal. Deu um grande impulso à cultura, tornando oficial o uso da língua portuguesa, e fundando em Lisboa, em 1290, um Estudo Geral. Mandou traduzir importantes obras e foi, ele próprio, um destacado poeta.

 

Ai, flores, ai, flores do verde pino

 

Ai, flores, ai, flores do verde pino,

se sabedes novas do meu amigo?

           Ai, Deus, e u é?

 

Ai, flores, ai, flores do verde ramo,

se sabedes novas do meu amado?

           Ai, Deus, e u é?

 

Se sabedes novas do meu amigo,

aquel que mentiu do que pôs comigo?

           Ai, Deus, e u é?

 

Se sabedes novas do meu amado,

aquel que mentiu do que mi à jurado?

           Ai, Deus, e u é?

 

Vós me preguntades polo vosso amigo?

E eu ben vos digo que é sano e vivo.

           Ai, Deus, e u é?

 

Vós me preguntades polo vosso amado?

E eu ben vos digo que é vivo e sano.

           Ai, Deus, e u é?

 

E eu ben vos digo que é sano e vivo

e seerá vosco ante o prazo saido.

           Ai, Deus, e u é?

 

E eu ben vos digo que é vivo e sano

e seerá vosco ante o prazo passado.

           Ai, Deus, e u é?

 

Nota: O João Tiago, depois de espreitar e pensar muito, concluiu que D. Dinis, com tanto e u é, foi o inventor da palavra bué.


 



A Rita lê Vitorino Nemésio: Cantigas de Coimbra

Nasceu na Ilha Terceira em 1901 e faleceu em Lisboa, em 1978. Estudou Direito em Coimbra, trabalhando na Imprensa da Universidade, antes de se transferir para a Faculdade de Letras, onde se licenciaria em Românicas. Foi professor universitário em Lisboa. Viajado e irreverente, correspondeu-se com algumas importantes figuras da cultura europeia. Como romancista, o seu trabalho mais notável é «Mau Tempo no Canal». Como poeta, citem-se os seguintes títulos: «Festa Redonda», «Nem Toda a Noite a Vida», «O Pão e a Culpa», «O Verbo e a Morte», «O Cavalo Encantado», ou «Canto da Véspera». Ficou ainda famoso por um programa que apresentava na RTP: «Se bem me lembro!»

 

Rio que corres tão fundo,

Erva e choupos corcovados,

Nem toda a água do mundo

Faz os meus versos lavados!

 

Coimbra, minha madrinha!

Mondego, meu coração!

Ó Alta, a noiva que eu tinha

Morreu e pura paixão!

 

O meu amor que é Letrado,

Mandou-me dizer a mim

Que não me quer (desalmado!)

Com proclames em latim!

 

O meu bem anda em Direito

Aprende para juiz:

Mostra que guarda preceito

Nas sentenças que me diz.

 

O meu amor é estudante,

Caloiro de Medicina:

Já me opera o coração

Com sua lanceta fina.

 

O meu amor é estudante,

Vai-se formar em Ciências:

Não quero que se adiante,

Que as fitas medem ausências.

 

Amor que não quer sarar

Passa com panos de arnica:

Por isso eu quero casar

Com quem me ponha botica.

 

Já me formei em amores,

Tomo capelo em saudades:

Deitei fitinha de cores

Pelas cinco Faculdades.

 

As tricanas são da Alta,

Os futricas de Sansão,

O Mondego deu à malta

Um choupo por coração.



 

A Filipa lê um novo poema de Alberto de Oliveira



Alberto de Oliveira: Entrada nas aulas 

Porta-Férrea! Gerais! Via Latina!

Nomes que só dizê-los é bastante

Para voltar ao tempo de estudante

E trajar outra vez capa e batina!

 

Do claustro dos Gerais a poeira fina,

Que as capas enfarinha, é semelhante

À que mais tarde, pela vida adiante,

Será neve das cãs na fronte em ruína…

 

À porta da aula, limiar do aprisco,

Por nós espera, gótico ou mourisco?

Pedro Penedo, o mítico Doutor.

 

E cada qual de nós, ovelha ou anho,

Acode pressuroso ao seu rebanho,

Chamado pela vara do pastor.

 


 

O Guilherme a ler as «Trovas de Coimbra» com a Lapa dos Esteios ao fundo


António de Sousa: Trovas de Coimbra

Nascido em 1898, no Porto, e falecido em 1981, em Oeiras, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, colaborou em diversas revistas literárias. A sua poesia revela influência de António Nobre. Trabalhos mais importantes: «Caminhos», «Sete Luas», «O Náufrago Perfeito», «Jangada», «Livro de Bordo», «Linha de Terra», «Terra ao Mar».

 

Meu destino de estudante,                                       

que hei de ser por toda a vida,                                 

foi ir passando adiante                                             

duma Coimbra perdida.                                            

 

Fui às aulas nos Gerais

- a Cabra a chamar por mim. -

Lá me formei por demais,

mas só Deus sabe o meu fim.

 

Minha Coimbra, quem prova

como eu provei teu sabor?

António da Lua Nova,

menino do teu amor.

 

Só tu, meu Anto moreno,

Lá da Torre a vigiar

Se o luar voga sereno,

Se já passou o luar.

 

Coimbra - Santa Isabel,

como tu, linda e doente!

De manhã - favo de mel;

cravo roxo ao sol poente.

 

Ó Coimbra do Mondego

e dos amores que lá tive!

Quem te não viu anda cego;

quem te não ama, não vive.

 

Do Choupal até à Lapa

foi Coimbra os meus amores.

A sombra da minha capa

deu no chão, abriu em flores.


 

A Matilde presta homenagem ao patrono da nossa escola

 

Eugénio de Castro: Palácios Confusos

Nasceu e morreu em Coimbra (março de 1869 - agosto de 1944). Licenciado na Faculdade de Letras, foi seu professor e diretor. Considerado o fundador do Simbolismo na literatura portuguesa, polemizou com António Nobre e Alberto de Oliveira. «Oaristos» é o seu livro mais famoso.

 

Na minha doce Coimbra, a sul virado,

Dominando o Mondego e os seus salgueiros,

Há um bairro de humildes pardieiros,

Que Palácios Confusos é chamado.

 

Tão belo nome evoca no passado

Rica chusma de paços altaneiros

Com torres, grimpas, varandins ligeiros

E flâmulas a arder no céu lavado.

 

O tempo voador, que tudo come,

De tais riquezas só poupou o nome;

Tudo ali hoje é pobre, velho e estreito,

 

Sem um vislumbre do esplendor extinto!

Ó Palácios Confusos, também sinto

Uns palácios confusos no meu peito!

 

 

A Carolina, defronte da casa habitada por José Afonso enquanto estudante, lê um poema dedicado ao cantor pela poetisa Natália Correia


Natália Correia: Zeca Afonso: Trovador da Voz D’Ouro Insubmisso

Poetisa, ficcionista, autora dramática e ensaísta, nascida em 1923 nos Açores e falecida em 1993. Conhecida pela sua irreverência, distinguiu-se igualmente na vida política, tendo sido deputada. Assinou uma série de programas televisivos («Mátria») que a projetaram junto do grande público.

A sua obra poética completa foi publicada em 1999, num volume com mais de 600 páginas.

 

É de murta e de mar a tua voz

Com algas de canção estrangulada.

Aberta a concha da trova malsofrida

Saíste como sai a madrugada

Da noite, virginal e humedecida.

 

É de vinho e de pinho a tua voz

Com pranto de insofríveis flores banidas.

Mas é pela tua garganta que soltamos

As eriçadas aves proibida

Que no muro do medo desenhamos.

 

O João Tiago prepara-se para maravilhar os seus colegas com a declamação de um poema nas escadarias da Sé

 

Mário Saa: Ali à Sé Velha

Nasceu nas Caldas da Rainha em 1893, vindo a falecer em Avis, no Alentejo, de onde era originária a sua família, em 1971. Foi aqui que viveu a maior parte da sua vida, numa grande propriedade familiar. Frequentou vários cursos que nunca concluiu, desenvolvendo a sua atividade cultural em muitos domínios, desde a arqueologia à poesia. O anti-semitismo é uma das facetas menos divulgadas do seu pensamento. Como poeta, frequentou as principais tertúlias do seu tempo, publicando nas revistas mais famosas, entre elas a «Presença».


Bocas e violas, num rojar de rondas,

Timbram de outrora o luar duma cantiga;

Mulheres formosas da cidade antiga

Estendem-se mortas, rígidas de lua!

                                                                 

Ergue-se a abóbada da arcaria às ondas,

Tangem violas os chorões da rua;

É a hora em que a saudade se insinua

Como um vislumbre num canal de gôndolas.

 

Amainaram as violas, na noite alta.

Quem assobia assobiadelas de ópera.

Quem passa, agora, nos desvãos da rua?...

 

Vão-se apagando as luzes da ribalta,

Sobre o pano de boca o vento sopra,

Pintada e trémula a Catedral flutua…


 


Manuel Alegre: Torre de Anto

 

Uma torre constrói-se com palavras

com lembranças com vírgulas

com desastres

como um corpo despido devagar

como vida virada do avesso

poisada sobre o vento e sobre a chuva

uma torre constrói-se com mãos nuas

uma torre com versos hemoptises [1]

e com tudo o que fica depois

de tudo:

as cartas os retratos restos

pó.

Uma torre com duas letras

só.

 

[1] Expetoração de sangue.

 

 

 A Raquel e a Inês leram Manuel Alegre e António Nobre junto à Torre de Anto

 

António Nobre

Nasceu no Porto em 1867. Estudou Direito em Coimbra, onde conheceu Alberto de Oliveira, sendo um dos fundadores do movimento Simbolista.

Em 1890 vai para Paris, onde a tuberculose o impediu de exercer o cargo de cônsul. Viajou entre Lisboa, Porto, Suíça e Madeira, procurando uma cura para a doença. Morreu na Foz do Douro em 1900, com 32 anos de idade. É autor do livro «Só», «o mais triste que há em Portugal», segundo as suas próprias palavras.

Habitou uma torre da muralha medieval da cidade, que assim ficou conhecida como «Torre de Anto».

 

Todas as tardes, vou Léman [2] acima

(E leve o tempo passa nessas tardes)

A pensar em Coimbra. Que saudades!

Diogo Bernardes deste meigo Lima.

 

Na solidão, pensar em ti, anima,

Oh Coimbra sem par, flor das Cidades!

Os rapazes tão bons nessas idades

(Antes que a vida ponha a mão em cima)

 

Alegres cantam nos teus arrabaldes.

Por mais que tire vêm cheios os baldes,

Mar de recordações, poço sem fundo!

 

Freirinhas de Tentúgal, passos lentos!

E o chá com bolos, dentro dos conventos!

Meu Deus! meu Deus! E eu sempre a errar no Mundo!

 

[2] Lago suíço.

 

 

A Maria, que não queria ler, evoca o assassinato de Maria Teles num poema de Luz Videira

 

Luz Videira: Palácio de Sub-Ripas

Nasceu em Coimbra, no ano de 1939 e faleceu, também em Coimbra, em 2003. Licenciou-se em Germânicas na Universidade de Coimbra. Foi Leitora de Português em universidades alemãs e professora em escolas secundárias da cidade, concluindo a carreira como docente na Faculdade de Letras. Publicou livros didáticos de Alemão, contos e poesias, como por exemplo: «Maré Cheia», «As 4 Estações», «Variações sobre um Tema», «Abril Desencantado», «Coimbra Mágica», entre outros.

 

Mino-lhe o porte nobre,

As portas e janelas trabalhadas,

Os relevos de fino lavor.

Vejo, porém, sem ver.

Oiço um grito de dor

Ecoando no tempo.

Por inveja, ciúme

E sinistros interesses,

Maria Teles acaba de morrer.[5]

 

[5] Referência ao assassinato de Maria Teles, irmã de D. Leonor Teles, presumivelmente assassinada neste local, em 1379, pelo seu próprio esposo, o infante D. João, meio-irmão do rei D. Fernando com quem casara em segundas núpcias, depois de enviuvar. Conta Fernão Lopes que Leonor Teles, temendo a popularidade do infante, concebeu o plano de o casar com a infanta D. Beatriz, sendo para isso necessário eliminar Maria Teles, o que ele fez, cego pela ambição. Foi depois perseguido pela justiça, acabando refugiado em Castela.

 



O João com o Arco de Almedina ao fundo

 

Manuel Alegre: Arco de Almedina

 

Sob o Arco de Almedina entre o ditongo e o til

lá onde cheira a nardo e a jasmim

no interior dos pátios entre a cedilha e o trema

do outro lado da língua onde de súbito

o poema.

 

Sob o Arco da Almedina sob o Arco

entre azulejo e álgebra

lá onde mora aquela que não vem

sob o Arco de Almedina onde de súbito

ninguém.

 

Sol e sombra no canto e no silêncio

sob o Arco de Almedina onde o alaúde

canta um amor perdido entre o salgueiro e o barco.

Sob o Arco de Almedina. Sob

o Arco.

  

  Em frente à casa onde nasceu o poeta Eugénio de Castro, em 1869, na rua Ferreira Borges, o Eduardo lê um poema.


Eugénio de Castro: Epígrafe

 

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,

Lentas gotas de som no relógio da torre,

Fio de areia na ampulheta vigilante,

Leve sombra azulando a pedra do quadrante,

Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

 

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,

Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?

Procuremos somente a Beleza, que a vida

É um punhado infantil de areia ressequida,

Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...

 


 

A Filipa no Largo da Portagem

 

Vasco Pereira da Costa: Largo da Portagem

Natural de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, Vasco Pereira da Costa viveu em Coimbra desde 1966, onde se licenciou na Faculdade de Letras em Filologia Românica.

Publicou «Nas Escadas do Império», «Amanhece a Cidade», «Venho cá mandado do Senhor Espírito Santo», «Memória Breve», «Riscos de Marear», «Sobre-Ripas/Sobre-Rimas», «Terras» e «My Californian Friends». Em 1984, recebeu o Prémio Literário Miguel Torga.

 

Desperta o rio

Ao lado da cidade quieta

 

Esvai-se a noite em amor

Em quimera e desafio

Numa balada do Zeca

 

Uma vela de sol moço

Acorda

E repõe o alvoroço

Na barca da rebeldia

 

Trás da janela do Torga

Portugal parte à poesia.


 

 

Miguel Torga e castanhas na Portagem


Miguel Torga: Portugal

Pseudónimo de Adolfo Rocha. Nasceu em S. Martinho de Anta em 1907. Viveu no Brasil durante a infância, vindo a licenciar-se em Medicina, em Coimbra, onde passou a viver e onde veio a falecer em 1995. Foi autor de peças dramáticas e ficcionista, além de poeta.  Estreou-se com «Ansiedades», destacando-se no domínio da poesia com «Orfeu Rebelde», «Cântico do Homem», bem como através de muitos poemas dispersos pelos dezasseis volumes do seu «Diário». Recebeu o Prémio Camões em 1989 e o prémio Vida Literária (atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores) em 1992.

O poema é lido defronte do local onde o poeta mantinha o seu consultório médico, no Largo da Portagem.

 

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,

E torno mais real o rosto que te dou.

Mostro aos olhos que não te desfigura

Quem te desfigurou.

Criatura da tua criatura,

Serás sempre o que sou.

 

E eu sou a liberdade dum perfil

Desenhado no mar.

Ondulo e permaneço.

Cavo, remo, imagino,

E descubro na bruma o meu destino

Que de antemão conheço:

 

Teimoso aventureiro da ilusão,

Surdo às razões do tempo e da fortuna,

Achar sem nunca achar o que procuro,

Exilado

Na gávea do futuro,

Mais alta ainda do que no passado.

 

 



José Ribeiro Ferreira: Chegam e logo partem

Natural de Santo Tirso, é professor catedrático jubilado na Faculdade de Letras de Coimbra. Tem mais de centena e meia de trabalhos publicados - entre livros, artigos em revistas e enciclopédias. No domínio da poesia é autor de «Ulisses sem Feaces», «Os Olhos no Presente», «Pesa o Momento a Eternidade», «Telhas de Outro Alpendre», «A Outra Face do Labirinto».

O poema selecionado é dedicado aos quartanistas de Línguas e Literaturas Clássicas, 1988.

 

Povoam-nos a vida de sonhos ano a ano

E a luz conforta os olhos.

 

Um dia os vê chegar, no outro partem.

Algo de nós se vai, ou nos fica deles parte?

 

Sobre cada um o silêncio cai fecundo

E sem espera a partida erma nossos passos.

 

Dos sonhos que trouxeram crescem sonhos?

Dentro de alma livre voa o pensamento?

Alongue-se o tempo,

Esfumem-se as imagens,

Diluam-se as palavras…

 

Não é ermo,

Não limita o silêncio que se cria.

 

 

 

Quando já pensávamos que o nosso passeio tinha chegado ao fim, tivemos uma agradável surpresa: nada menos que o professor Ribeiro Ferreira em pessoa! Este professor catedrático da Faculdade de Letras, especialista em história, língua e cultura gregas, foi professor dos nossos professores e, muito amavelmente, aceitou o convite para estar presente no final do final do nosso percurso. Além de professor catedrático, Ribeiro Ferreira é um poeta com vários livros publicados. Foi assim, neste cenário sugestivo, junto ao Mondego, que concluímos o nosso itinerário, escutando alguns dos seus poemas, lidos pelo próprio. E ainda levámos alguns livros para a biblioteca da escola!

 



publicado por CP às 10:29
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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