Sábado, 19 de Outubro de 2013

 

O boletim meteorológico anunciava chuva para a tarde de sexta-feira, mas a malta do Clube do Património não acredita em boletins meteorológicos e, por isso, quase ninguém levou guarda-chuva. Alguns acharam até que o professor e o João Aveiro eram uns tótós, pois eram os únicos que, à saída da escola, com um sol ainda radioso e um céu limpo, iam devidamente equipados para a chuva. No entanto, não tardou que, a caminho do mosteiro de Santa Clara-a-Nova, junto ao Portugal dos Pequenitos, o tempo mudasse, começando a chover copiosamente. Foi quando muitos procuraram resguardar-se sob o chapéu-de-chuva do professor, insuficiente para tantos amigos súbitos. A molha foi  pois inevitável, e tão molhados ficaram os nossos sócios que até pensamos mudar o nome do clube para Clube dos Tótós Molhados (menos 2)

 

 

Depois de na semana passada termos visitado o Museu Machado de Castro e conhecido a obra de Mestre Pêro, o objetivo da nossa deslocação a Santa Clara era conhecer o túmulo de pedra que o escultor produziu para a rainha Isabel de Aragão e que foi para aqui deslocado quando o mosteiro velho, junto à margem do Mondego, foi abandonado. No entanto, ainda não foi desta que pudemos conhecer o túmulo, pois decorrem trabalhos de restauro. Fica para a próxima.

Mas não pensem que a visita foi em vão, pois são muitos os motivos de interesse. A professora Conceição guiou-nos pela igreja do mosteiro e pelo claustro.

 

 

O edifício da igreja é um dos exemplos mais notáveis da arquitetura do período da Restauração, isto é, da segunda metade do séc. XVII. O projeto deste mosteiro das clarissas, variante feminina da ordem franciscana, deve-se ao monge beneditino frei João Turriano (1610-1679), engenheiro-mor das obras do reino. As obras foram conduzidas pelos mestres Domingos e Pedro de Freitas. As paredes começaram a ser construídas em 1649 e têm uma espessura superior a 3 metros, o que confere à construção um aspeto muito sólido. Ainda que o convento se tenha instalado em 1677, os trabalhos só se concluiram em 1696, já sob a direção de Mateus do Couto, no reinado de D. Pedro II.  O claustro, que visitamos de seguida, é posterior, data do séc. XVIII, do tempo de D. João V.

 

 

 

A igreja tem um comprimento de 27,5 metros, por 14 de largura. Uma imponente abóbada cobre a nave a 25 metros de altura. No altar-mor destaca-se o belíssimo trabalho em talha dourada com as colunas torcidas. Notámos ainda os gradeamentos em madeira exótica, da responsabilidade dos carpinteiros António Azevedo Fernandes e Domingos Nunes. Ao centro, dentro de uma redoma envidraçada, está o túmulo de prata que aloja os restos mortais de Isabel de Aragão, padroeira da cidade de Coimbra, canonizada em 1625, sendo conhecida por Rainha Santa. Este túmulo foi mandado fazer por D. Afonso de Castelo Branco, ainda antes da canonização, quando foi aberto o túmulo de pedra e, com autorização do Papa, o corpo começou a ser venerado nos altares.

Na outra extremidade da nave, avulta uma imagem esculpida por Teixeira Lopes que é transportada no andor na famosa procissão entre esta igreja e a igreja da Graça, na rua da Sofia. A imagem está guardada atrás de uma grade de ferro que, antigamente, separava a nave da igreja do espaço de clausura reservado às freiras. 

 

 

É certo que não pudemos aceder ao túmulo da rainha, mas a professora Conceição não desperdiçou a chance de nos dar uma lição junto a um dos dois túmulos de pedra que se encontram nas zonas laterais da igreja, justamente o da infanta D. Isabel, neta da Rainha Santa, falecida por volta de 1326, com apenas 2 anos de idade. É uma miniatura do túmulo da avó, esculpido pelo tal Mestre Pêro, pelo que ficamos com uma ideia! A arca é em calcário, exibindo a estátua jacente coroada e acompanhada por quatro anjos com a missão de conduzirem a alma da criança para o Paraíso. Aos pés, estão dois leões, recordando o texto bíblico: «Poderás caminhar em cima de serpentes e víboras, calcar aos pés leões e dragões.» (Salmos 91:13)

 

 

Daqui, passamos para o magnífico claustro, muito pouco conhecido, mesmo dos conimbricenses, apesar da sua grande qualidade arquitetónica e das suas grandes dimensões. O desenho deve-se ao arquiteto de origem húngara Carlos Mardel, que trabalhava normalmente para a corte de D. João V, contratado para as obras do aqueduto das Águas Livres, vindo posteriormente a distinguir-se nos trabalhos de reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755. 

 

 

O claustro tem uma planta quadrada definida pelo comprimento da nave da igreja a que está anexo. Os corredores são muito largos e robustos, sugerindo um ambiente militar. Cada uma das quatro galerias abre sete arcos virados para o interior, tendo de permeio pares de colunas dóricas. No piso superior, os arcos são encimados por janelas e varandins, enquando que as colunas dóricas são continuadas por nichos que deveriam alojar esculturas que nunca foram executadas. Esses nichos são ladeados por colunas jónicas que sustentam frontões triangulares.

 

 

Os cantos do claustro são curvos com tanques na base, os jardins estão cuidados, apesar de alguns troços do claustro apresentarem alguns sinais de degradação. Como a chuva era muita, não pudemos andar a pular pelos canteiros, mas corremos pelos corredores até nos cansarmos.

Aproveitamos para agradecer ao Professor Doutor António Manuel Ribeiro Rebelo,  Presidente da Mesa Administrativa da Confraria da Rainha Santa Isabel, que nos autorizou a visita. Recordamos que é esta confraria que tem à sua guarda todos estes espaços, bem como o importantíssimo espólio. Como não conseguimos visitar o túmulo de pedra, sendo esta a segunda tentativa, fica prometido um regresso a Santa Clara-a-Nova! 

 



publicado por CP às 22:21
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