Sábado, 05 de Outubro de 2013

 

 

Raul Lino foi um dos mais importantes arquitetos portugueses do século XX. Nascido ainda em 1879, teve uma longa vida, falecendo em 1974. A sua carreira profissional foi igualmente longa. Iniciou a sua formação muito jovem, em Inglaterra, tendo depois estudado na Alemanha com Albrecht Haupt, um importante arquiteto e estudioso da história da arquitetura portuguesa, de quem Raul Lino se fez discípulo e amigo.

 

Regressado a Portugal ainda antes do final do século, Raul Lino iniciou uma intensa atividade profissional, projetando uma série de edifícios que logo se distinguiram pela sua originalidade. Foi o responsável pelo projeto do pavilhão português na Exposição Universal de Paris de 1900, mas foi como autor de desenhos de moradias familiares da burguesia endinheirada da capital que Lino se celebrizou. As suas vivendas, familiares e tradicionais, com uma preocupação de envolvimento na paisagem e respeito pelas técnicas artesanais, reagiam à arquitetura e ao urbanismo modernistas que enchiam as cidades de blocos de apartamentos, fabricados com materias industriais e numa estética uniformizada. 

 

 

 

 

Raul Lino procurou sempre, nos seus projetos e nos seus escritos teóricos, encontrar um modelo do que chamava «a casa portuguesa», isto é, um tipo de construção de vivendas unifamiliares, adaptadas às condições naturais envolventes, nomeadamente climatéricas, à tradição histórica e ao enraizamento popular, recorrendo às técnicas tradicionais e aos ofícios artesanais, bem como aos materiais locais. Para isso, estudou a arquitetura tradicional portuguesa, viajando por todo o território e estudando a história do país e das regiões que percorria.

 

Os jardins eram sempre uma preocupação nos seus projetos, ainda que as suas casas fossem concebidas a partir do interior. Mais do que as fachadas ou o exibicionismo, Raul Lino pretendia que os espaços domésticos fossem confortáveis e que servissem o modo de vida dos seus ocupantes. Outra preocupação era que as moradias perdurassem como um legado para as gerações posteriores. Por outras palavras, que a casa de família unisse as gerações presentes às vindouras, criando um laço entre as gerações.

 

 

 

 

 

 

 

Apesar de Lisboa e os seus arredores terem sido o palco das mais importantes construções de Raul Lino, os seus serviços também foram solicitados em Coimbra. Nas primeiras décadas do século XX, a nossa cidade, como outras do país, conheceu um período de crescimento. Alguns burgueses da cidade contrataram então o arquiteto Raul Lino, que se desloca pela primeira vez a Coimbra em 1902, para traçar as suas residências familiares.

 

 

 

Começámos o nosso itinerário no Jardim-escola João de Deus, junto ao Jardim Botânico, que foi a primeira instituição de educação infantil do nosso país fiel aos princípios pedagógicos preconizados pelo poeta João de Deus. Este edifício escolar foi inaugurado em 1911, pelo que comemorou recentemente o seu centenário. O terreno foi cedido pela Câmara Municipal e os fundos para a sua construção foram angariados com as receitas dos espetáculos do Orfeão Académico.

O interior, que não visitámos, caracteriza-se pela luminosidade, dado que foi preocupação do arquiteto que a luz solar, por razões higiénicas e pedagógicas, penatrasse nas salas de aula, onde existem pinturas de António Carneiro.

 

 

 

 

 

No exterior, já muito acrescentado relativamente ao projeto original, reparámos nos beirais dos telhados, que constituem uma característica identificadora do trabalho de Raul Lino, bem como no contraste resultante do branco das paredes caiadas com o vermelho das tijoleiras.

 

 

Daqui, seguimos, através do Jardim Botânico e da Rua de Tomar, para a Rua Venâncio Rodrigues, onde admirámos um outro projeto de Raul Lino. Trata-se de uma vivenda familiar que pertenceu ao sr. António Maria Pimenta, provavelmente datado de 1902. Reparámos no telhado rematado com suaves arrebiques e encimado por uma clarabóia.

 

  

 

 

Na fachada, a silharia de tijolo atesta mais uma vez a preferência de Lino por este material. No alpendre, recuperado da arquitetura tradicional, destacam-se as colunas de capitéis cúbicos. A fachada da casa está decorada com belos painéis de azulejos, enquanto que a intimidade e segurança estão garantidas pela cerca de ferro forjado, separando muito bem o espaço privado da via pública.

 

 

Descendo a rua Venâncio Rodrigues até à Rua Alexandre Herculano, encontramos aqui outras duas construções devidas ao nosso arquiteto. Notemos, primeiramente, o edifício sede da Associação Cristã da Mocidade (ACM).

 

 

Antes de se designar ACM, esta organização internacional que visa a educação física e moral da juventude, chamava-se Federação Mundial de Académicos e pretendia conciliar a militância religiosa com a formação desportiva e a atividade física dos estudantes. O projeto data provavelmente de 1916, ainda que a inauguração seja posterior e siga o mesmo modelo do jardim-escola. A fachada é sóbria e discreta, notando-se mais uma vez o recurso ao tijolo. Na esquina do prédio, reparámos no emblema da ACM.

 

 

 

 

Um pouco mais adiante, no mesmo lado da rua Alexandre Herculano, no sentido da Praça da República, encontramos a vivenda Caetano da Silva, onde há pouco funcionava o Centro de Recuperação Mental Infantil. É uma grande moradia com dois pisos, com um sótão largo e uma cave espaçosa. Na fachada, destaca-se como principal elemento decorativo um painel corrido de azulejos, atestando mais uma vez a preferência dada aos materiais e às técnicas tradicionais. RAtentámos ainda no trabalho do ferro forjado, arte muito implantada na nossa cidade.

 

 

É possível, dada a dimensão deste prédio e a sua conceção espacial, que o edifício tenha sido projetado para residência de mais do que uma família. Embora não possamos ver da rua, nas traseiras da casa existiu em tempos um recolhido, íntimo e acolhedor jardim interior, o que é muito típico das ideias de Raul Lino.

 

 

Para visitarmos a próxima obra de Raul Lino em Coimbra, tivemos que andar bastante. O nosso clube não é para mariquinhas, nem meninos da mamã. Por isso, pusemos à prova os nossos novos sócios e subimos as Escadas Monumentais. Os mais velhos recordam ainda aquele já longínquo ano, em fevereiro de 2010, em que o João Tiago e o Raul, então dois jovens caloiros, subiram a interminável escadaria. Agora, foi a vez dos caloiros do quinto ano, a quem aproveitamos para dar as boas-vindas.

 

 

Descendo a Couraça de Lisboa, chegamos ao antigo edifício do Governo Civil de Coimbra. Este prédio começou por ser pensado para ser um hotel, o Palace Hotel Estrela, tendo-se iniciado as obras em 1923, seguindo projeto de Raul Lino. Situado sobre a linha das muralhas medievais da cidade, e alcandorado sobre o Mondego, beneficia de uma excelente posição, com belíssimas vistas sobre o rio e a cidade. À época, existiam no local as ruínas de um antigo colégio, o Colégio de Santo António da Estrela.

 

 

O hotel pretendia ser um importante fator de desenvolvimento de Coimbra, prevendo-se 90 quartos! A verdade porém é que não chegou a ser construído, dada a falência da empresa construtora. Após uma fase de indefinição, as obras arrancaram outra vez em 1925, depois de  o edifício ter sido adquirido pelo professor Ângelo da Fonseca, conhecido médico e famoso professor catedrático da Universidade. Raul Lino foi chamado para proceder às obras de adaptação às novas funções residenciais. Aqui morou o Dr. Ângelo da Fonseca até à sua morte. Em 1952, aqui se instalou, até há poucos meses, o Governo Civil.

 

 

Mais uma vez, destaca-se o jardim exterior com um belíssimo miradouro, muito semelhante à pérgola que Lino projetará para a vila de Penacova. Muito interessante é o espaço claustral que foi construído sobre as ruínas do antigo claustro do colégio universitário e que preserva uma evidente reminiscência dos tempos medievais. Como não pudemos entrar nos jardins, descemos até ao Largo da Portagem, admirando a localização sobranceira da residência que aguarda uma nova utilização já que, desde que foi extinto o governo civil, tem estado desocupado. Esperamos todos que em breve se encontre um fim para tão belo edifício, com uma posição tão privilegiada, e que se evite o seu abandono e degradação.

 

 

Antes de nos despedirmos, há ainda que referir que o arquiteto Raul Lino deixou na nossa cidade uma outra construção que, por ser deslocada do centro de Coimbra não conseguimos visitar mas que deixamos o desafio para que a conheçam. Trata-se de uma moradia de uma quinta mandada construir pelo sr. Francisco França Amado, na freguesia de Castelo Viegas. Datada dos finais da década de 20, ou inícios da seguinte, do século XX, a quinta atualmente conhecida como da Urgeiriça, era antes chamada Quinta da Lapa. Localiza-se sobre um penhasco sobranceiro ao belíssimo vale da Conraria e merece bem uma visita.

 

 

Este texto foi redigido a partir do artigo de Lurdes Craveiro intitulado «Raul Lino em Coimbra» e publicado na revista «Mundo da Arte» (nº 15, setembro de 1983; pp. 31 - 44)



publicado por CP às 06:48
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