Sábado, 08 de Junho de 2013

 

As pontes de Coimbra que se afogaram no rio é o título de uma exposição que inaugurou no Museu Municipal de Coimbra (Edifício Chiado) no dia 18 de maio, dia internacional dos museus, baseada numa pesquisa do professor Jorge de Alarcão. A exposição estará aberta ao público até ao mês de setembro e estende-se ao Museu da Água. Este núcleo da mostra, que estará aberto apenas até ao dia 1 de julho, trata do assoreamento do rio Mondego ao longo dos séculos. Foi precisamente por aqui que iniciámos o nosso percurso.

 

 

 

Fomos acolhidos simpaticamente pela Amanda e pelo Joel, tanto mais quanto não tínhamos marcação. Apesar disso, a Amanda esclareceu-nos sobre o espaço onde decorre a exposição. Este local foi, em tempos, a antiga estação de captação de águas da cidade. Quando esta estação foi desativada e transferida para outro local, o espaço ficou sem função alguma até que, em 2007,  foi aproveitado para este projeto museológico.

 

 

 

Este núcleo da exposição trata do assoreamento do rio. Ao longo dos séculos, o Mondego foi-se entulhando com sedimentos do seu leito. A bacia foi gradualmente entupindo, de modo que as cheias, pelo menos desde o século XIII, se tornaram frequentes e por vezes catastróficas, tais eram os prejuízos causados. Isto sucedia porque as águas corriam pelas margens, alagando tudo em redor, uma vez que não podiam correr pelo leito entulhado de areias. Os estudiosos calculam que, por causa da acumulação de areias, o leito do rio subiu 80 centímetros por século, somando um total de 5 metros em 600 anos!

 

 

Por esta razão, a zona ribeirinha da cidade teve que ser desocupada e abandonada. O caso do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha é o exemplo mais evidente, pois teve que ser transferido para o alto do monte de Santa Clara, quando ficou submerso. Muitas outras casas, igrejas e conventos tiveram que ser abandonados. Em 1790, o padre Estêvão Cabral foi encarregado, pela primeira vez, de estudar o problema e apresentar soluções que resolvessem os danos causados pelo assoreamento. Foi então apresentada a proposta de encanamento do Mondego, isto é, construir paredões nas margens que comprimissem o caudal e aumentassem a força da corrente, para assim as areias serem empurradas no sentido da foz.

 

 

A verdade é que, já no século XX, os conimbricenses chamavam carinhosamente ao seu rio Bazófias, brincando assim com o Mondego que, sendo o mais extenso do país, ao atravessar a nossa cidade não era mais do que um fio de água a correr no meio de um enorme areal, chegando mesmo a secar nos verões mais secos. Bazófias é um nome que se dá aos fanfarrões que apregoam qualidades que não possuem. 

 

 

Concluída esta parte da nossa visita, o Joel ainda nos conduziu à esplanada do Museu, construída sobre a plataforma onde assentavam antigamente as bombas de captação de água para abastecimento da cidade. Aqui, desfrutámos de umas vistas privilegiadas sobre o rio, pois estamos ao nível do lençol de água. Apreciámos bem a ponte de Santa Clara, inaugurada nos inícios da década de 50 do século passado e da autoria do eng. Edgar Cardoso e, no sentido nascente, a bela ponte pedonal Pedro e Inês, projetada pelo engenheiro Adão da Fonseca e pelo arquiteto Cecil Balmonde e inaugurada em 2007. Ao fundo, avistámos ainda o tabuleiro da ponte Rainha Santa Isabel.


   


Partimos de seguida para o edifício do Chiado, não sem antes nos despedirmos do Joel que nos agraciou com uma surpresa: ofereceu a todos um pequeno cantil como lembrança da nossa visita. No Chiado, concluímos as nossas atividades deste ano letivo, o que não deixa de ser engraçado, pois foi exatamente aqui que, em setembro de 2012, iniciámos os nossos passeios, visitando uma exposição de pintura. Na verdade, este museu já é quase a nossa segunda casa.



A primeira ponte que terá existido em Coimbra, unindo as margens do rio Mondego, terá sido construída pelos romanos. No entanto, não há provas materiais, nem documentais, que provem a existência dessa ponte. Sabemos sim que, por volta de 1131, o rei D. Afonso Henriques edificou uma ponte, provavelmente aproveitando estruturas da antiga travessia romana. Esta ponte teria, à entrada da cidade, uma torre, cujos vestígios foram escavados pelos arqueólogos em 1981.



No século XV, surgem várias referências ao estado de degradação da travessia e à necessidade de a reparar. Foi assim que, no reinado de D. Manuel, foi construída a célebre ponte do O. A ponte manuelina ficou assim conhecida porque, ao meio do rio, tinha uma rotunda que dava acesso ao leito através de umas rampas inclinadas que permitiam a atracagem das barcas para carregar e descarregar mercadorias. Neste O, a rotunda central, as pessoas paravam igualmente para descansar e apreciar a bela paisagem, as lavadeiras desciam até ao leito carregadas e aqui existiu mesmo um cruzeiro que foi removido no século XVI.


 


Os mais atentos devem recordar-se da nossa visita ao Museu Nacional Machado de Castro, onde admirámos o célebre padrão da ponte. Originalmente, este padrão, esculpido pelo célebre Diogo Pires-o-Moço, estava colocado no acesso a esta ponte manuelina.

 

 

No século XIX, mais precisamente em 1856, um engenheiro da companhia do caminho-de-ferro apresentou um projeto de construção de uma ponte metálica, uma vez que a velha travessia manuelina não só não satisfazia as necessidades da época como as areias já haviam subido muito e a ponte servia até como uma barreira que contribuía para a acumulação dos depósitos e sedimentos. Foi assim que, entre 1873 e 1875, aproveitando os velhos pilares manuelinos, foi construída a ponte metálica, sob a responsabilidade do engenheiro Matias Heitor de Macedo.

 

 

Quando esta ponte foi desmontada para a construção da atual, alguns módulos da estrutura metálica foram reaproveitados para uma ponte em Ceira, nos arredores da cidade de Coimbra.

 

 

Claro que ainda ficou muito para ver e dizer sobre as pontes de Coimbra. Mas o nosso objetivo era apenas lembrar as que se afogaram no rio. As outras, aí estão para serem atravessadas.


Este texto baseia-se nas legendas dos painéis expositivos e no livro do professor Jorge de Alarcão que serviu de base à exposição, com ilustrações de José Luis Madeira: As pontes de Coimbra que se afogaram no rio; Coimbra; Ordem dos Engenheiro / Região Centro; 2012.



publicado por CP às 08:31
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