Sexta-feira, 10 de Maio de 2013

 

 

A Casa da Escrita, tradicionalmente conhecida como Casa do Arco, situa-se no coração da Alta de Coimbra, na rua Doutor João Jacinto. A casa foi adquirida em 1883 aos Viscondes do Espinhal, cujo brasão ainda permanece na fachada principal, justamente pelo professor João Jacinto da Silva Correia, lente da Faculdade de Medicina. O famoso poeta João José Cochofel (1912 - 1982), bisneto do comprador, foi o último morador da Casa que foi adquirida pela Câmara Municipal em 2003.

 

 

João José Cochofel nasceu e estudou em Coimbra, concluindo os seus estudos na Faculdade de Letras. Destacou-se na vida literária como importante vulto do chamado movimento neo-realista, fundando várias revistas, especialmente a Vértice. Colaborou ainda em muitas outras publicações periódicas, escrevendo igualmente muitos ensaios, críticas literárias, textos de intervenção, além de, claro está, muitos e bons poemas.


Na parede podem ver-se caricaturas e retratos de João José Cochofel. À direita, numa vitrina, a borla e o capelo do bisavô do poeta

 

Dois anos após a aquisição pela Câmara, a reabilitação do imóvel foi entregue ao arquiteto João Mendes Ribeiro. Em novembro de 2010, a Casa foi finalmente inaugurada pela ministra da Educação à época, Isabel Alçada, recebendo agora uma série de iniciativas ligadas à escrita, como por exemplo, o acolhimento de escritores, lançamento de livros, ações de formação, colóquios, sessões de poesia, etc.

 

 

 

Esta Casa já era conhecida como Casa do Arco em 1810, e as referências mais antigas remontam ao século XVI. Na verdade, não é só uma casa, mas um conjunto de três casas associadas, sendo ainda visíveis vestígios quinhentistas, como um arco apontado no piso inferior ou uma bela janela manuelina que se pode apreciar na fotografia.

 

 

Hoje, o edifício exibe uma bela fachada apalaçada virada para a rua, destacando-se  as varandas de ferro forjado e a balaustrada interrompida ao centro com um frontão triangular contendo o já referido brasão de armas.

 

 

Esta Casa do Arco é sem dúvida um marco do património cultural da cidade, pois é um testemunho importantíssimo de uma fase especialmente marcante da cultura coimbrã. Na verdade, o poeta João José Cochofel recebeu aqui, em animadas tertúlias, um vasto grupo de amigos que foram figuras marcantes das artes, das letras, da cultura, da vida académica e da política.

 

A biblioteca onde o poeta se reunia com os seus amigos

 

Por aqui passaram muitos intelectuais e artistas, como Joaquim Namorado, Paulo Quintela, Miguel Torga, Vitorino Nemésio, Fernando Lopes Graça, Michael Giacometti, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Alves Redol, Bissaya Barreto, ou Mário Soares, apenas para citar alguns.

 

 

A sala de jantar onde, entre animadas conversas, se serviram boas refeições

 

 Na nossa visita, fomos amavelmente recebidos pelo programador e animador cultural deste espaço, o Filipe Carvalho, acompanhado por dois jovens e simpáticos estagiários que nos prepararam algumas agradáveis surpresas. A visita começou no átrio da casa, onde tivemos oportunidade de conhecer a história do edifício, incluindo algumas curiosidades, como por exemplo que no rés-do-chão funcionou um consultório de veterinária durante muitos anos.

 

 

No primeiro andar, deslumbrámo-nos com a excelência do trabalho do arquiteto Mendes Ribeiro que, no enorme e belíssimo salão que agora serve de auditório, rasgou na parede do topo uma janela com uma vista panorâmica para o jardim da casa que cria um ambiente muito bonito e repousante que se conjuga muito bem com a brancura imaculada das paredes e dos tetos ornamentados com os estuques originais.

 

 

 

 

Durante a visita, claro que não deixámos de reparar no mobiliário moderno espalhado pelas divisões. São móveis de design moderno e minimalista, da autoria dos arquitetos Mendes Ribeiro e Siza Vieira. É, sem dúvida, mais um motivo de atração e interesse.

 

 

O projeto de reabilitação da casa recebeu o prémio municipal de arquitetura Diogo de Castilho, em 2011. Do arquiteto Mendes Ribeiro já nós admirámos o seu trabalho na reabilitação do Pátio da Inquisição, incluindo o Centro de Artes Visuais, bem como o edifício da Casa das Caldeiras. Os sócios mais antigos do clube recordam certamente essas visitas, enquanto os mais jovens fixarão o nome deste arquiteto conimbricense, um dos mais importantes nomes da arquitetura contemporânea e que marcou já, com a sua obra, a nossa cidade. 

 

 

A cozinha (cima) e uma lindíssima clarabóia que o arquiteto abriu no telhado

 

Após um rápido percurso pelo interior da casa, escutando sempre as palavras cativantes do Filipe, saímos depois para o jardim. O espaço é muito agradável e está muito bem recuperado. Da rua, ninguém imagina que nas traseiras do prédio existe este recanto tão bonito e sossegado. Ficam todos a saber que está aberto ao público todos os dias úteis. Podem vir para aqui ler, estudar, escrever ou simplesmente descansar.

 

 

 

Foi aqui que nos reservaram uma surpresa. Por todo o espaço exterior, esconderam-nos  vinte papéis enrolados contendo poemas de João José Cochofel, lançando-nos um desafio: tínhamos dez minutos para os encontrar. Cada um de nós devia depois decorar o seu poema e reescrevê-lo numa outra folha. No final, acabámos com um recital de poesia no jardim da Casa da Escrita. Nada mais adequado a tão belo cenário!

 

 

  

 

A hora do regresso à escola aproximava-se, mas o Filipe insistiu que visitássemos o sótão da casa. Não deixou mesmo que nos ausentássemos sem subir ao último andar. Em boa hora o fez, pois este é um dos espaços emblemáticos da casa. É aqui, neste enorme, belo e iluminado salão, que a casa se abre a todos os visitantes que queiram vir estudar, ler ou trabalhar, podendo trazer os seus computadores portáteis, pois a casa dispõe de uma rede de internet sem fios gratuita.

 

 

Fica então o convite: venham à Casa da Escrita, tragam os vossos pais, os vossos familiares e os vossos amigos. Tragam livros e leiam, tragam papel e caneta e escrevam, tragam o computador e naveguem, tragam um amigo e conversem no jardim, mas não deixem de conhecer este espaço e usá-lo, pois é um dos mais convidativos e acolhedores da nossa cidade.

 

 

 

 



publicado por CP às 22:16
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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