Sábado, 27 de Abril de 2013

 

 

A palavra salatina refere-se aos antigos habitantes da velha Alta de Coimbra, destruída para a construção da cidade universitária durante o período do Estado Novo. Segundo o professor Azevedo e Silva, o vocábulo tem origens obscuras e difíceis de apurar. Uma hipótese fascinante propõe que a palavra se aplicou aos habitantes da cidade de Coimbra que, no reinado de Afonso IV, participaram com o rei na batalha do Salado, travada em 1340, junto a uma ribeira com o mesmo nome, próximo de Cádis, no sul da Península Ibérica, opondo os reis de Portugal e Castela aos mouros.

 

De Coimbra terá partido o exército português que incluía então um grupo de soldados que ficaria conhecido como a hoste salatina, ou seja, os soldados que combateram no Salado e que, no regresso, retornaram à Alta da cidade. Outra interpretação, sugere que as crianças da Alta alimentavam uma rivalidade muito acesa com outros grupos de miúdos da Baixa, simulando pequenos confrontos entre bandos. Tão grandes foram os ecos da vitória do Salado que os da Alta reclamavam, no decurso dessas disputas, o legado dos combatentes, intulando-se a si próprios, orgulhosamente, como salatinas.

 

 

A D. Maria, mais conhecida como Maria do Bairro de Celas, é uma autêntica salatina. Nascida e criada na Alta desaparecida, veio para este bairro em 1948, com apenas 9 anos! Desde então, reside aqui neste bairro social, mas conserva viva a memória e a identidade dos salatinas. É certo que o bairro está muito envelhecido, são raras as crianças, ou mesmo inexistentes, algumas casas estão degradadas, mas a memória da Alta ainda não morreu como nos mostrou a D. Maria ao contar-nos a sua história que nós escutámos com muita atenção.

 

 

Em 1940, enquanto a Europa se destruía no decurso da 2ª Grande Guerra, os camartelos iniciaram a demolição da Alta da cidade, dando início à edificação das novas instalações da Universidade. Enquanto isso, começava a construção do Bairro de Celas, projetado para realojar os salatinas expropriados das suas casas na Alta.

 

Vista aérea do Bairro de Celas em 1948

 

 

Nem todos os salatinas seguiram para Celas. Alguns, com recursos mais abastados, construiram novas habitações noutros bairros da cidade, enquanto outros se reinstalaram no Calhabé e no Bairro do Loreto. Porém, os mais humildes foram realojados em pequenos bairros no Alto de Santa Clara, na Arregaça e em Celas. Hoje o Bairro está cercado pelo gigantesco edifício dos Hospitais da Universidade de Coimbra, pela Escola de Enfermagem e pelo Instituto Português de Oncologia, além de outros prédios altos e recentes que escondem o recanto onde, nos finais da década de 40 do século passado, foram construídas as casas para os expropriados da Alta.

 

 

O Bairro é constituído por cem moradias de piso térreo, todas geminadas, cada uma com o seu pequeno jardim e todas dispostas ao longo de seis arruamentos, irradiando em torno de uma praceta central e designadas com os nomes antigos da Alta: Rua dos Estudos, Rua das Cozinhas,  Rua do Marco da Feira, Rua do Borralho, Rua Larga e Rua do Castelo.

 

 

 

 

A praceta central é o Largo de S. João, no meio da qual está colocada uma estátua de S. João Evangelista, também ela trazida da Alta, onde enfeitava a frontaria do antigo Colégio do Loios, destruído também na ocasião. É aqui que ainda hoje, prosseguindo uma tradição muito antiga e também ela trazida da Alta, os habitantes saltam as fogueiras de S. João.

 

 

Desconhece-se o nome do projetista que traçou este bairro, mas sabe-se que a construção ficou a cargo da empresa António Moreira & Cª. Atualmente, muitas das pequenas casas originais sofreram já obras de restauro, mas outras estão necessitadas de intervenção urgente. Há já alguns anos que a Câmara Municipal prometeu recuperar as casas. Os trabalhos parecem atrasados, mas os moradores continuam esperançados. Esperemos que sim, para que os salatinas possam viver com um pouco mais de conforto, lembrando sempre a memória da velha Alta desaparecida.

 

 

 

 

Para a redação deste texto, consultei o artigo do professor José Manuel Azevedo, comunicação proferida no congresso sobre a Alta de Coimbra, realizado em outubro de 1987, cujas atas foram publicadas pela Livraria Minerva (Coimbra; 1988). O artigo intitula-se «Os Salatinas da Alta, Fundadores Forçados do Bairro de Celas» (pp. 135 - 142). A foto a preto e branco é digitalizada deste artigo, embora tirada em 1948 pelo eng. Costa Maia, antigo comandante dos Bombeiros Municipais. 



publicado por CP às 00:15
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
mais sobre mim
Abril 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12

14
15
16
17
18
19

21
22
23
24
25
26

28
29
30


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO