Sábado, 13 de Abril de 2013

 

 

Desde a Idade Média, pelo menos, e até tempos bem recentes, havia uma tradição de colocar cruzeiros no cruzamento dos caminhos mais frequentados pelos viajantes. Nos Olivais, no adro fronteiro à igreja de Santo António, ainda hoje se conserva um dos mais belos cruzeiros de Portugal, preservado no interior de um pequeno templete, datado de 1536 e da autoria do famosíssimo escultor João de Ruão, um dos mais importantes artistas do Renascimento português que, sendo natural da Normandia (França), se fixou em Coimbra onde deixou vasta obra e muitos discípulos.

 

 

No adro da igreja de Santo António, próximo da sede da Junta de Feguesia, cruzavam-se antigamente dois importantes caminhos neste pequeno povoado dos Olivais que hoje é o centro da maior e mais importante freguesia do concelho, e uma das mais populosas do país, mas que, no século XVI, não passava de uma aldeia isolada e afastada de Coimbra. Aqui se intersetavam a estrada que vinha do Tovim e a calçada do Gato. Apesar das alterações na circulação e dos arranjos urbanísticos, estas vias ainda existem atualmente, embora o cruzamento já esteja desnivelado, por causa da construção recente do viaduto dos Olivais. No entanto, no adro da igreja, ainda se conserva o fontanário, junto ao cruzeiro, onde os caminhantes descansavam e se refrescavam. Foi aí que iniciámos a nossa visita.

 

 

 

O chafariz dos Olivais é composto por três tanques, sendo o central maior do que os outros. Aqui se abastecia de água potável a população, bem como se refrescavam os viajantes e os animais que por aqui passavam. Não está documentada a data da sua construção, embora se possa situar no do séc. XVIII. Certo é que, já anteriormente, aqui existia outro fontanário. O atual arranjo do adro, criando a escadaria em volta do chafariz, data do ano de 1996. 

 

 

 

Na parte posterior do chafariz, existe um painel de azulejos produzido, segundo se pode ler num dos cantos, na fábrica Aleluia de Aveiro, onde podemos admirar uma cena com um frade, talvez Santo António que aqui se iniciou na ordem franciscana, conversando com uma camponesa que se apresta para encher a bilha de água fresca na bica do chafariz.

 

 

 

Existe um documento, datado de 12 de maio de 1536, que testemunha um contrato estabelecido entre os cónegos do cabido da Sé de Coimbra e o escultor João de Ruão, nos termos do qual o artista receberia 1800 reais para esculpir o cruzeiro dos Olivais. O escultor cumpriu os termos do contrato, lavrando o crucifixo com a imagem de Cristo, bem como o pequeno templo de planta quadrangular e cobertura piramidal, decorado nos pilares com motivos renascentistas alusivos à Paixão de Cristo.

 

 

 No interior do cubelo, apreciámos uma das mais belas e ignoradas obras da escultura renascentista portuguesa que merece, por si só, uma visita ao adro da igreja dos Olivais. Sobre uma coluna que ostenta na base a data de 1536, está a figura de Jesus Cristo crucificado. A imagem está tratada com grande realismo, à maneira renascentista, mostrando o virtuosismo técnico do escultor, bem como o seu perfeito conhecimento da anatomia humana. Vale a pena comparar esta representação com aqueloutra, tipicamente gótica, que nós já conhecemos do Museu Machado de Castro, o Cristo Negro, para nos apercebermos das diferenças estéticas entre o período gótico e a Renascença.

 

 

Para concluir o nosso passeio, abancámos junto à fonte colocada sob o depósito de água dos Olivais, na rua Flávio Rodrigues, nome de um destacado executante da guitarra de Coimbra da primeira metade do século passado que era, imagine-se, barbeiro!

Este chafariz é de construção muito recente, tendo no entanto incorporado alguns baixos-relevos em pedra, aproveitados da demolição de uma residência apalaçada que existia neste local. As esculturas exibem motivos mitológicos e heráldicos que hoje estão desenquadrados da sua posição original e cuja leitura se torna, por esse motivo, mais difícil.

 

Este texto foi redigido a partir das seguintes publicações:

- DIAS, Pedro:  «100 obras de arte de Coimbra»; Coimbra Fundação Bissaya Barreto; 2008; p. 78.

- LEMOS, José Maria de Oliveira: «Fontes e chafarizes de Coimbra»; Coimbra; edição da Câmara Municipal; 2005.

A imagem da obra de João de Ruão foi retirada do seguinte endereço eletrónico, dado que a colocação de um vidro protetor na porta do templete impede que se tirem fotografias:httpwww.portugalnotavel.comwp-contentuploads201109cruzeiro-olivais-1.jpg 



publicado por CP às 11:25
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