Sábado, 16 de Março de 2013


Esta semana aceitámos a sugestão dos serviços pedagógicos do Museu Municipal de Coimbra e fomos conduzidos pela Paula Moura Relvas num percurso através dos arrabaldes do antigo burgo medieval, ou seja, a cidade construída fora das muralhas. A designada Baixinha cresceu numa relação estreita com o rio Mondego, sendo também na zona extramuros que se instalaram os artesãos dedicados aos mais variados mesteres, facto que ainda hoje é visível na toponímia das ruas estreitas, bem como em muitos outros vestígios. Na verdade, e apesar da desertificação e abondono, os prédios a ameaçar ruína conservam ainda alguma memória dos tempos medievais em que estas ruelas fervilhavam de intensa atividade artesanal e comercial.

 

(Rua Visconde da Luz, antiga rua do Coruche)

 

Partimos então à descoberta da Baixinha, com olhos bem abertos para os pormenores e os recantos quase ignorados desta zona muito degradada da nossa cidade. O passeio iniciou-se no antigo edifício do Chiado, na rua Ferreira Borges, próximo da junção com a rua Visconde da Luz, antiga rua do Coruche. A artéria formada por estas duas ruas já foi a mais importante da cidade, por aqui passando todo o trânsito que atravessava a urbe. O atual traçado ficou a dever-se à renovação urbanística tomada pelas autoridades municipais em 1858. Pretendia-se modernizar a cidade para os novos tempos, alargando-se para o efeito esta artéria, um verdadeiro caminho aberto para os novos tempos que se aguardavam com otimismo e esperança.

 

(Rua Ferreira Borges, antiga rua dos Francos)

 

Era aqui o centro político e administrativo da cidade, aqui estavam igualmente as mais importantes dependências bancárias, os escritórios e muitas residências de gente ilustre. Nós seguimos na direção da Portagem, destacando desde logo uma lápide na varanda de um prédio onde, em 1869, nasceu o poeta Eugénio de Castro. Este memorial foi colocado em 1995 pelos responsáveis de então da nossa escola em homenagem ao nosso patrono.

 

 

 

Nos vários cafés que por aqui havia, e até há relativamente poucos anos, a vida era animada pelos intelectuais, jornalistas, escritores e estudantes, passeando e conversando em alegres tertúlias. Hoje, infelizmente, essas tertúlias desapareceram, parece mesmo que se perdeu o hábito da conversa. Restam algumas pastelarias já descaraterizadas e onde já não se ouvem as gargalhadas e as discussões de antigamente quando, por vezes de forma exaltada, se falava sobre os mais variados assuntos, desde o futebol à política. Um dos mais famosos cafés da Baixa era A Brasileira que reabriu portas há pouco tempo.



Defronte, não pudemos deixar de reparar na fachada da Farmácia Nazareth, talvez a mais antiga montra da cidade, uma vez que esta farmácia foi fundada no ano de 1815. É o único estabelecimento da Baixa que chegou aos nossos dias mantendo a traça original.



No interior, admirámos os móveis originais bem como os frescos no teto do estabelecimento e claro que lamentámos os inúmeros atentados urbanísticos e arquitetónicos que, ao longo das décadas, foram descaracterizando as montras e as fachadas dos estabelecimentos comerciais.


  


Regressados à rua, fomos reparando nos gradeamentos de ferro, ora forjado ora fundido, bem como nas varandas e nos beirais dos telhados. Quando andamos apressados pelas ruas da cidade, raramente reparamos nestes pormenores. Agora, guiados pela Paula, lá fomos direcionando o nosso olhar, sempre de cabeça no ar, descobrindo pequenos detalhes encantadores, como os gradeamentos de ferro ou os beirais com telhas fabricadas em louça de Delft:

 

  

 

Chegados ao Largo da Portagem, a Paula chamou-nos a atenção para a personagem do Mata-Frades, Joaquim António de Aguiar (1792-1884), importante político nosso conterrâneo que por várias vezes exerceu funções governativas, tendo-se destacado por, em 1834, ter publicado um célebre decreto que extinguiu as ordens religiosas, nacionalizando os seus bens.

A atual configuração do Largo da Portagem data do séc. XIX, altura em que se procederam a várias obras para estabilizar o caudal do rio Mondego, emparedando as margens e assim mantendo as águas no seu leito, evitando as cheias que, durante séculos, nos invernos mais rigorosos, alagavam as ruelas da Baixinha.

 

 

 

Nesses tempos antigos, o rio era a principal via de comunicação e transporte das mercadorias trazidas pelos barqueiros que, ao comando das suas barcas impulsionadas pelo vento, percorriam o Mondego de Penacova até à Figueira da Foz, em ambos os sentidos, descarregando as mais diversas mercadorias nos cais fluviais desta margem direita. Era este então o local dos negócios, onde afluíam os armazenistas, os almocreves, os feirantes e compradores vindos das aldeias e vilas mais próximas.

 

 

 Descendo a rua dos Gatos (assim chamada porque no séc. XVIII aqui viveram dois irmãos de apelido Gato, um dos quais, José dos Santos Gato, foi professor de cirurgia na Universidade), entrámos então na Baixinha propriamente dita, confrontando-nos logo, na rua do Sargento-Mor, com uma das mais antigas habitações comuns da nossa cidade. Na verdade, nos números 4 e 6 desta rua, conforme assinala uma placa aí colocada, está uma casa «com ressaltos desnivelados em madeira» e com paredes de enxaimel, antiga técnica de construção em que as paredes eram feitas com ripas de madeira entrançada e rebocadas a argila e cal. Esta casa de sobrado tinha no piso térreo a oficina do artesão e, nos pisos superiores, a habitação.

 

 

Seguindo para a Praça do Comércio, que em tempos teve as designações de Praça Velha e Praça de S. Bartolomeu, assinalámos a presença de um pelourinho que, além de não ser o original, não estava aqui localizado. Em tempos, esta praça era formada por dois adros que se viriam a juntar, correspondentes a duas paróquias que constituiram os pólos de organização do espaço urbano localizado fora das muralhas. Na atual igreja de S. Bartolomeu, reconstruída sobre outra muito mais antiga e já desaparecida, existiam anteriormente, no séc. X, outros templos primitivos consagrados a S. Cristóvão e a S. Cucufate. Era neste adro de S. Bartolomeu, ou Adro de Cima, que se procediam aos enterramentos.

 

 

 

Nesta praça localizavam-se os açougues, ou seja, os locais onde se matavam os animais e vendia a carne, aquilo a que atualmente chamamos talhos. Nesta praça se realizavam igualmente os autos de fé, tendo sido aqui queimados muitas pessoas condenadas pela Inquisição.

 Ainda nesta praça, prestámos especial atenção ao local onde se situou o Hospital Real, do século XVI ao século XVIII, no edifício onde hoje está uma grande loja de artigos chineses. O hospital, antecessor dos Hospitais da Universidade, foi fundado pelo rei D. Manuel I, sendo a sua administração entregue aos cónegos de S. João Evangelista. No século XVIII, durante o governo do Marquês de Pombal, o Hospital foi transferido para a Alta da cidade, para instalações de edifícios que tinham pertencido aos jesuítas, expulsos pelo todo poderoso marquês.


Fachada exterior do antigo Hospital Real

 

Vista do interior

 

 De novo em marcha, passámos ao largo da igreja de Santiago, que já conhecemos de passeios anteriores, e entrámos na rua Adelino Veiga (antiga Rua das Solas), uma das muitas ruas que albergava os muitos oficiais mecânicos da cidade, desde os oleiros, aos sapateiros, passando pelos esteireiros, os louceiros, padeiros, tanoeiros, peliteiros, pintores, caldeireiros, saboeiros, etc. Nos inícios do século XX, a pedido dos moradores, a Câmara Municipal renomeou a rua, homenageando este famoso poeta-operário da nossa cidade (1848-1887). Mais tarde, foi colocada na frontaria da casa onde nasceu uma lápide, que nós lemos. Na casa fronteira, no outro lado da estreita ruela, apreciámos uma magnífica casa com duas belas janelas manuelinas, nas quais muito pouca gente repara, pois é preciso estar avisado e andar de nariz no ar.

 

 

Da Praça do Comércio continuámos pela rua do Almoxarife, não podendo deixar de reparar, mais uma vez, nos efeitos da profunda crise económica que o nosso país vive e que se reflete no encerramento de muitos espaços comerciais, bem como na consequente deserficação da Baixinha e degradação dos prédios:

 

  

Lojas fechadas, lojas fechadas e mais lojas fechadas

 

No Largo do Almoxarife, nome dado ao antigo cobrador dos impostos devidos ao rei, reparámos nalguns belos prédios com janelas de avental, que já havíamos notado em outros locais, bem como num painel de azulejos que serviu para lembrar que em tempos, não muito recuados, Coimbra era conhecida pela excelência das suas oficinas de cerâmica e azulejaria. Desta rua, seguimos pela rua Eduardo Coelho (antiga Rua dos Sapateiros), o fundador do «Diário de Notícias», cujo nascimento, em 1835 numa casa desta rua, se encontra assinalado numa lápide.

 

 

Fizémos depois um pequeno desvio pela Travessa da Rua Velha para observarmos um portal manuelino de uma velha casa medieval recentemente recuperada pela Câmara Municipal para aí se instalar um centro de noite para acolhimento de idosos.

 

 

Por fim, concluímos o nosso passeio no Largo da Freiria, onde em tempos existiu uma capela, chamada de S. João da Freiria, que foi demolida nos anos 60 do século XVIII. Hoje, apesar de se notarem alguns prédios em ruína, o local tem ainda um certo encanto, podendo visitar-se uma pitoresca casa de velharias e antiguidades, tal como um restaurante instalado num prédio onde antes funcionou uma padaria, cujos azulejos da fachada ainda se conservam.

 

 

Como a hora já ia adiantada e havia ainda muito para percorrer, combinámos com a Paula suspender aqui o nosso passeio e retomá-lo no próximo período. Por isso, prometemos desde já a continuação deste relato para breve, iniciando a visita neste ponto e concluindo no mosteiro de Santa Cruz, percorrendo as antigas artérias medievais e renascentistas da nossa cidade. Até lá!



publicado por CP às 13:36
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