Sexta-feira, 08 de Fevereiro de 2013

 

 

Hoje regressámos ao Museu Nacional Machado de Castro com um duplo objetivo: apreciar a Última Ceia de Odart e conhecer a obra do grande escultor do séc. XVII Frei Cipriano da Cruz.

 

 

Sobre Odart (ou Hodart) há ainda muitas incertezas. Os historiadores sabem muito pouco sobre este artista que foi um dos mais importantes que trabalhou em Portugal e na Espanha no período renascentista. Não se sabe onde nasceu nem onde aprendeu a sua arte antes de chegar à Península Ibérica, nem se sabe o rumo que tomou depois de concluir os trabalhos que lhe foram encomendados em Coimbra. Sabe-se que era francês e a sua obra prova que era um grande artista.

 

 

 

No dia 7 de outubro de 1530, o prior e reformador de Santa Cruz, frei Brás Braga, encomendou a Odart uma Ceia com 13 imagens em tamanho natural, modeladas em terracota. O artista chegara a Coimbra proveniente da cidade de Toledo, em cuja catedral tinha concluído algumas encomendas. 

 

 

     

 

«Na Última Ceia, Cristo está com os Apóstolos (...) ceando e,  a dado momento revela que um dos presentes o taríu. Onze dos seus companheiros ficam incédulos, perplexos, com dificuldade em acreditar que isso fosse possível. Um deles, pelo contrário, retrai-se, sentindo-se descoberto. (...) Odart representou cada um dos Apóstolos com as suas personalidades (...). Não há um único que repita a expressão do seu companheiro, todos estão individualizados (...)» (Pedro Dias)

 

 

 

Admirado o conjunto concebido para o refeitório do mosteiro de Santa Cruz, tivemos ainda oportunidade de observar o extraordinário trabalho de restauro. Na verdade, as peças foram-se deteriorando ao longo dos tempos, ficando gravemente danificadas, quer porque são moldadas em barro, e por isso mais frágeis, quer porque foram sendo transportadas de um lado para o outro e guardadas em condições muito más. Faltam muitos pedaços das figuras de terracota que se perderam irremediavelmente. Existem outros fragmentos que não se conseguem aplicar a nenhuma das figuras, como se fossem peças de um puzzle incompleto. Mas, ainda assim, o conjunto que chegou aos nossos dias merece ser considerado uma obra-prima da escultura renascentista.

 

 

 

Manuel de Sousa nasceu em Braga entre 1645 e 1650. Por volta dos 30 anos ingressou  no mosteiro de Tibães, a casa mãe dos beneditinos, adoptando o nome de Frei Cipriano da Cruz. Em Coimbra, Frei Cipriano produziu muitas obras de Santos, nomeadamente para a igreja do Colégio de S. Bento, destruída em 1932.

 

A Pietá mostra-nos a Virgem com o seu filho morto no regaço depois de descido da cruz. A composição adota uma esquema triangular e exibe uma grande intensidade dramática, pois é enorme a dor da mãe de Cristo que olha para o Céu em busca de consolo. Destaque igualmente para o trabalho de Manuel da Costa Pereira, o artista que pintou a escultura, feita em madeira de carvalho, e que merece partilhar a autoria com Frei Cipriano da Cruz.

 

 

 

O estilo de Frei Cipriano pode identificar-se através dos olhos amendoados, pálpebras pesadas olhando para baixo, sobrancelhas altas e simétricas, lábios pequenos e um tufo de cabelo na testa. O corpo é coberto e as partes deixadas à vista são tratadas muito sumariamente. O pregueado das vestes cai verticalmente e as mangas  (3) deixando ver os botões dos punhos, caem em V e, por fim, desabam longamente. Ao fundo, na fotografia, podemos observar uma das obras mais conhecidas do escultor bracarense, a Sagrada Família, originalmente do mosteiro de Tibães.

 

 

 

Demos ainda atenção a outras obras e escultores barrocos, nomeadamente os trabalhos do portuense Manuel da Rocha que, depois de se ter formado em Espanha, chegou a Coimbra à procura de trabalho, dado que na nossa cidade abundavam os colégios universitários, grandes encomendantes de escultura de temática religiosa.

 

 

 

A devoção ao Menino Jesus foi introduzida pelos frades franciscanos e, no séc. XVII, essa adoração propagou-se enormemente, sendo comuns as obras representando a infância de Jesus, como, por exemplo, e além da Sagrada Família, o Menino como Salvador do Mundo. O Menino aparece nu, carnudo e rosadinho à maneira barroca, para ser vestido pelos crentes com diversos fatos conforme o momento do calendário litúrgico. Uma espécie de Nenuco só que sem ser para brincar, explicou o João Tiago.



Podíamos ainda falar de outras obras que nos impressionaram, como a coleção de relicários ou o altar em talha dourada de Nossa Senhora da Conceição, mas o texto já vai longo. Fica a promessa que regressaremos em breve ao Museu pois ainda ficaram muitos tesouros para conhecer.


Agnés Le Gac e Ana Alcoforado: Frei Cipriano da Cruz em Coimbra; Coimbra; Catálogo da Exposição; 2003.

Pedro Dias [texto]: A escultura de Coimbra do Gótico ao Maneirismo; Catálogo da exposição; Coimbra; Câmara Municipal de Coimbra; 2003; pp. 111 e ss.



publicado por CP às 19:00
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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