Sexta-feira, 01 de Fevereiro de 2013

 

 

O Hospital Militar de Coimbra localiza-se num dos mais belos e desconhecidos sítios de Coimbra, entre o Seminário Maior e o Jardim Botânico, na rua Domingos Vandelli, atrás do Jardim-escola João de Deus, desfrutando de umas magníficas vistas panorâmicas.

 

O Hospital instalou-se inicialmente, após a revolução republicana de 1910 e até 1918, no Convento de Santa Teresa (Convento das Carmelitas), junto ao Penedo da Saudade, expulsando autenticamente as freiras que foram surpreendidas pelas chefias militares no refeitório, enquanto ceavam, no dia 10 de outubro de 1910, apenas cinco dias após a implantação da República!

 

Em 1918, por razões mal conhecidas mas que se podem justificar com a falta de espaço, o Hospital Militar foi transferido para as atuais instalações que sofreram obras de remodelação em 1922.

 

 

O edifício original data dos inícios do séc. XVII e foi mandado erguer pelo bispo D. Afonso de Castelo Branco para aqui se instalarem os estudantes do Colégio Universitário de S. José dos Marianos.

 

Em 1834, com a extinção das ordens religiosas, o colégio ficou vago, passando a acolher os leprosos do hospital dos Lázaros, até que as freiras Ursulinas do Real Colégio das Chagas aqui se instalaram em 1850. Estas freiras vieram da Vila de Pereira (tal como nosso Dani) para o convento de Santa Ana, onde hoje se situa o Quartel-General. No entanto, não se deram bem e passavam a vida a desentender-se com as freiras do novo convento, pelo que pediram para ser transferidas para o desocupado colégio de S. José dos Marianos, o que viria a ocorrer em 1850. Por isso é que este edifício também é  mencionado como antigo Convento das Ursulinas, uma vez que o Real Colégio das Chagas aqui funcionou até 1910.

 

 

 

Começámos a nossa visita pela igreja, modesta e sóbria, onde fomos recebidos pelo capelão militar, o senhor padre Manuel Assunção, que começou por nos contar alguns episódios da sua carreira como assistente espiritual dos militares nas mais diversas paragens, uma vez que já é capelão há mais de cinco décadas, tendo exercido o seu ministério nos territórios africanos onde as tropas portugueses cumpriram missões.

 

 

 

A igreja anexa ao Hospital é dedicada a S. José e foi sagrada em 1612, como se pode comprovar por uma inscrição na pedra. A fachada frontal é enquadrada por duas pilastras toscanas, terminando com um frontão triangular, com um óculo ao meio e  acrotérios com grandes esferas nos extremos. Ao centro, abre-se um janelão, sob o qual está um nicho onde já esteve uma estátua de S. José. O nicho está ladeado por dois colunelos e encimado por um frontão interrompido. De cada um dos lados, estão dois caixilhos com os brasões da Ordem do Carmo. Em baixo, a entrada do templo é antecedida por um átrio com  três arcos de volta perfeita.

 

  

 

 

O interior da igreja é relativamente pequeno e bem iluminado por uma cúpula no cruzeiro, destacando-se o altar em talha dourada. Do lado norte, separada por um gradeamento em ferro, está uma divisão que em tempos funcionou como capela mortuária. Dos dois lados do corpo da igreja, podemos observar um conjunto de pequenas capelas laterais onde se guardam uns belos trípticos esculpidos em madeira.

 

 

Segundo nos informou o capelão, estas esculturas em madeira foram oferecidas ao exército português por um grupo de cidadãos austríacos após a 2ª guerra mundial (1939-1945). Na verdade, ainda há bem poucos dias, na edição do dia 24, o jornal «Público» lembrava que entre 1947 e 1952, 5500 crianças austríacas foram acolhidas por famílias portuguesas. Eram crianças que tinham sofrido com a guerra, vendo os seus lares desfeitos, os pais desaparecidos e as casas destruídas. Foi então desencadeada uma operação com o objetivo de proporcionar a essas crianças um período de férias em Portugal, de modo a que pudessem esquecer os horríveis acontecimentos que testemunharam e beneficiar um pouco da paz e tranquilidade que se vivia no nosso país por termos permanecido neutrais durante a Guerra. Podes ler o relato destes acontecimentos e ver as fotografias, seguindo a ligação: Entre 1947 e 1952, 5500 crianças austríacas foram acolhidas por famílias portuguesas




No interior do templo devemos ainda destacar uma inscrição muito interessante, descoberta na década de 50 do século XX, quando, após as obras de restauro, a igreja foi de novo consagrada pelo bispo de Coimbra. Essa inscrição está nas aduelas do arco de uma das capelas laterias e comprova a homenagem que os estudantes brasileiros, da cidade da Baía, do colégio de S. José dos Marianos fizeram em 1728. Diz o seguinte,  no português da época:

«ESTA CAPELLA MANDARAM FAZER A SUA CUSTA OS ESTUDANTES ULTRAMARINOS DA BAHYA EM O ANNO DE 1728»

 

 

Concluída a visita à igreja, seguimos para o Hospital, agora acompanhados pelo senhor Major Fernando Duarte Rodrigues. Atravessando uma pequena porta, penetrámos no recinto que outrora foi o claustro do Colégio, agora coberto com uma estrutura envidraçada. No entanto, ainda é possível reconhecer o poço de água ao centro, bem como as arcadas do claustro.

 

 

No exterior do edifício, deslumbrámo-nos com as magníficas vistas que se usufruem dos jardins. Na verdade, apreciámos todo o vale do Mondego entre a Lapa dos Esteios e o Choupal, distinguindo claramente as construções da margem esquerda, com destaque para a Quinta das Lágrimas, o convento de Santa Clara-a-Velha, o antigo convento de S. Francisco em obras e, no cume, o perfil do convento de Santa Clara-a-Nova. Dos outrora famosos laranjais do Mondegos, já só restam uns vestígios mal tratados. Confinando com o Hospital, vemos a mata do Jardim Botânico e, mais atrás, uma vista pouco usual da Torre da Universidade.

 

 

 

 

Aproximava-se o final da nossa visita. O tempo ameaçava chuva e, por isso, despedimo-nos do senhor Major Rodrigues, deixando os nossos sinceros agradecimentos pela oportunidade que nos deu de coonhecer este belo recanto da nossa cidade, e apressámos o passo para apanhar o autocarro, antes que começasse a chover.

 

 

 

Este texto foi redigido a partir do livro de Rafael Marques («Hospital Militar de Coimbra. 100 anos ao serviço da saúde militar»; Coimbra; Bookpaper design; 2011), que o senhor Major Fernando Duarte Rodrigues gentilmente ofereceu para a biblioteca da nossa escola. Muito obrigado!

 

 



publicado por CP às 22:37
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