Sábado, 26 de Janeiro de 2013

 

 

Depois de nos maravilharmos com as  vistas que o arquiteto Gonçalo Byrne abriu sobre a cidade através das enormes janelas panorâmicas, destacando-se a cobertura da Sé Velha num primeiro plano e, ao longe, já na margem esquerda do Mondego, os perfis dos conventos de S. Francisco e de Santa Clara-a-Nova, iniciámos a nossa visita concentrando-nos no belíssimo Tríptico da Paixão de Cristo.

 

 

 

A coleção de pintura do Museu Nacional Machado de Castro inclui obras desde o séc. XV até ao séc. XX provenientes dos mosteiros e conventos de Coimbra e dos arredores, pelo que são, naturalmente, obras de carácter religioso. Este tríptico, isto é, um retábulo constituído por três painéis, foi encomendado pelo rei D. Manuel I ao célebre pintor flamengo Quentin Metsys para o Convento de Santa Clara.

 

 

 

 

O painel central mostrava uma cena do Calvário, ou seja, da crucifixação de Jesus Cristo. No entanto, desse painel já só resta um fragmento, justamente o rosto da Virgem. Nos volantes (assim se designam os painéis laterais pois que se fecham sobre o painel central), podemos contemplar duas cenas: a Flagelação e o Ecce Homo.

 

 

Os pintores flamengos dos séculos XV e XVI revolucionaram a arte da pintura, introduzindo a pintura a óleo, primeiro sobre madeira e, mais tarde sobre tela. Por toda a Europa se encomendavam obras na Flandres, principalmente em Antuérpia e em Bruges. Os óleos flamengos eram muito apreciados, quer pelos temas, quer pela qualidade dos desenhos, dos fundos paisagísticos e da perspetiva, das cores vivas e vibrantes, da luz, e dos riquíssimos pormenores dos trajes, bem como dos elementos arquitetónicos e dos adornos das figuras.

 

 

A Senhora da Rosa é a pintura mais antiga do Museu. É assim designada porque Nossa Senhora segura na mão direita uma rosa. Provém do Colégio de S. Jerónimo e testemunha as características arcaicas da pintura portuguesa do séc. XV, em contraste com as obras flamengas: figuras rígidas, uma paleta de cores muito limitada, ausência de perspetiva e um desenho tecnicamente limitado das figuras e roupas.

 

 

O tríptico de Santa Clara provém do mosteiro de Santa Clara-a-Velha e costumava atribuir-se a um tal Mestre Hilário (ou Ylarius), a partir de uma leitura duvidosa no verso das tábuas, onde se lê a data de 1486.

 

Esta obra, a mais importante da pintura portuguesa do séc. XV logo a seguir aos Painéis de S. Vicente, atesta a adaptação dos modelos nórdicos, flamengos e alemães à tradição portuguesa e castelhana, notando-se os elementos paisagísticos e o desenho das casas no fundos.

 

 

 

 

A oficina de pintura de Coimbra no séc. XVI tinha um pendor muito regionalista e arcaico. A identidade da figura principal desta escola de pintura na nossa cidade permaneceu desconhecida durante muito tempo, designando-se o artista como Mestre do Sardoal, uma vez que na igreja desta vila ribatejana existem umas tábuas pintadas deste artista. Hoje sabe tratar-se de Vicente Gil e seu filho Manuel Vicente, naturais de Coimbra e que foram os representantes mais importantes da pintura conimbricense deste período.




Nesta altura, era relativamente frequente os pintores trabalharem em parceria quando as encomendas eram de grande dimensão, tanto mais que, muitas vezes, os artistas estavam ligados por laços familiares. Uma das parcerias mais famosas foi a dos chamados Mestres de Ferreirim, freguesia do concelho de Lamego em cujo mosteiro Gregório Lopes, Cristóvão de Figueiredo e Garcia Fernandes trabalharam em grupo, merecendo assim a designação de Mestres de Ferreirim. O nosso museu guarda algumas importantes obras destes pintores. No nosso percurso destacámos o célebre Tríptico da Aparição à Virgem, atribuído a Garcia Fernandes e que abaixo reproduzimos.



A Lamentação de Cristo data já do último quartel do século XVI e deve-se ao pintor conimbricense Bernardo Manuel, neto de Vicente Gil que há pouco referimos. Esta tábua testemunha a sobrevivência da escola coimbrã, com os seus modelos arcaicos, quase até ao séc. XVII.


 


Não podendo comentar todos os pintores e todas as obras, a verdade é que não podíamos concluir a nossa visita sem mencionar um pequeno óleo sobre cobre proveniente do convento do Louriçal da célebre pintora Josefa de Óbidos. A obra data de meados do séc. XVII e retrata Santa Maria Madalena. É um trabalho muito delicado e pormenorizado, de pequenas dimensões, com cores muito vivas num ambiente de penumbra. A  mulher pecadora parece converter-se à Fé em Deus representada na luz da candeia e no crucifixo.



Josefa de Ayala nasceu em Sevilha em 1630, filha do pintor Baltazar Gomes Figueira e de D. Catarina de Ayala.  Em 1633, o pai fixa-se em Óbidos, sua terra natal. Cerca de uma década após, encontramos a família em Coimbra. Josefa estagia no convento de Sant’Ana, atual Quartel-General que nós já visitámos, passando brevemente pelo convento de Semide, enquanto o pai trabalha para a Sé Nova.

Josefa  não segue a vida religiosa e regressa a Óbidos onde, sob a influência do pai afirmou um estilo próprio facilmente reconhecível, destacando-se as suas célebres naturezas mortas.

 

 

E assim concluímos mais uma visita ao Museu, com a promessa de regressarmos dentro de duas semanas. Entretanto, já para a semana, visitaremos o edifício do antigo Colégio de S. José dos Marianos. Quem sabe onde fica?

 



publicado por CP às 11:14
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