Domingo, 04 de Dezembro de 2011

 

As Misericórdias foram fundadas a partir de 1498, sob o patrocínio da rainha D. Leonor, viúva do rei D. João II. São confrarias de leigos, constituídas por beneméritos que se intitulam irmãos, e que se entregam ao exercício da caridade cristã, através da prática das 14 obras de misericórdia:  dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, acolher os errantes, visitar os doentes, libertar os prisioneiros, sepultar os mortos, dar bom conselho a quem pede, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os que estão tristes, perdoar as injúrias, suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo e rogar a Deus pelos vivos e pelos defuntos.

 

 

A primeira destas instituições a ser criada foi a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em 1498. Logo em 1500, foi fundada a Misericórdia de Coimbra. Não tardou, e graças à proteção do rei D. Manuel, estas irmandades espalharam-se por todas as vilas e cidades do país, incluindo o império. As Misericórdias são confrarias laicas, sob proteção régia. O rei aprovava os  estatutos e doava frequentemente objetos diversos, bem como concedia privilégios, rendas ou isenções. Ao longo dos séculos, os irmãos das Misericórdias foram doando bens móveis e imóveis, desde terras e casas, até jóias, dinheiro, mobiliário e obras de arte, constituindo valiosíssimos fundos usados na prática das 14 obras de misericórdia, na expectativa de contribuirem para a salvação da sua alma.

 

 

 

Fomos recebidos na Sala das Sessões da Mesa ou do Despacho, pelo Luís Miguel que, além de ser irmão da Misericórdia, é historiador de arte. Foi ele que nos guiou pelas instalações da Misericórdia e pelo museu, situado numa ala do Antigo Colégio dos Órfãos, hoje alugado à Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação. Nesta sala, apreciámos o estuque do teto, com o símbolo heráldico da instituição, bem como uma pintura a óleo de 1859, da autoria de António José Gonçalves, representando a ascensão de Nossa Senhora, protegendo sob o seu manto os membros do clero e da nobreza. O Luís Miguel explicou-nos que, apesar da Misericórdia ter por missão a proteção dos pobres e indigentes, nas pinturas, quase sempre aparece a Virgem a proteger os ricos. Só há uma pintura em Portugal, que está aqui no museu, em que o manto da Virgem protege um prisioneiro e uma senhora pobre.

 

 

Antes de passarmos à sala seguinte, vimos um piano de cauda francês, do séc. XIX, e um piano alemão, do mesmo século, muito raro, chamado espineta, um instrumento entre o piano e o cravo. Na Antiga Sala dos Retratos dos Benfeitores, vimos alguma peças muito antigas, como pinturas a óleo, azulejos, retábulos de pedra, paramentos religiosos, salvas de prata e uma curiosa escultura que na parte traseira ocultava um esconderijo. O Luís Miguel contou-nos que, antigamente, os ladrões tinham tanto respeito aos santos que não roubavam as estatuetas de santos, temendo eventuais castigos divinos. Por isso, houve quem se lembrasse de ocultar o dinheiro num pequeno cofre oculto nas costas da estátua de um santo, pensando ter assim o seu dinheiro protegido.

 

 

Galeria dos Retratos da Irmandade situa-se  no corredor. Aqui podemos ver uma série de retratos de benfeitores, em pinturas que não são muito valiosas do ponto de vista artístico mas ainda assim muito interessantes. Os irmãos beneméritos deixavam em testamento os seus bens, sob algumas condições. Alguns fizeram-se pintar em retratos que agora estão expostos nesta galeria. Destacamos um de D. Joaquina Ritta Pugete que aparece com um cofre, enquanto os outros se fizeram representar com símbolos da sua atividade profissional. D. Joaquina juntara ao longo da vida uma larga quantia de dinheiro que doou à Misericórida, após a morte, com a condição que cuidassem de uma sua criada. Por vezes, explicou-nos o Luís Miguel, as criadas viviam tanto tempo que o encargo de as sustentar era maior que o valor da doação!

 

 

 

Passámos depois à capela. É muito pouco conhecida na nossa cidade, pois é a única que não tem saída para a rua. O acesso é interior. Trata-se de uma capela do século XVII. Destaca-se o altar, com uma abóbada muito singualar que tem ao centro a figura de Santo Agostinho, pois este convento pertencia aos frades agostinianos do mosteiro de Santa Cruz, sendo por isso conhecido por Colégio Novo. O Luís Miguel disse-nos que havia túneis subterrâneos que uniam os dois edifícios, mas que não se sabe exatamente onde vinham ter. 

 

 

 

Atrás do altar mor, pudemos espreitar os vestígios de um velho troço da muralha medieval da cidade, cujo trajeto temos vindo a seguir nas visitas que fazemos à Alta da cidade. Além de muitas histórias interessantes, o Luís Miguel contou-nos como se distribuíam os crentes durante as cerimónias religiosas. Nas galerias laterais, situavam-se os meninos órfãos de um lado, e as meninas do outro, assistindo à missa tapadas com uma cortina preta, comungando apenas através de uma portinhola aberta num gradeamento. O Luís contou-nos como se processava a entrega das crianças desamparadas, deixadas na roda dos expostos. Normalmente, as crianças eram abandonadas com uma metade de uma medalhinha. Se, no futuro, os pais se arrependessem do gesto e quisessem resgatar a criança, ou simplesmente conviver com ela, apareciam trazendo a outra metade da medalha, garantindo assim a identificação. Quando não havia dinheiro para uma medalha, deixavam metade de uma carta de jogar!

 

 

 

Prosseguindo para a sacristia, vimos o estado de degradação em que se encontra, devido à ação da chamada salitre da pedra, uma bactéria que ataca o calcário. Esta sacristia ficou incompleta porque havia uma vizinha dos frades, muito teimosa, mas mesmo muito teimosa, que não quis vender os seus terrenos, pelo que a obra ficou a meio.

 

 

 

No coro alto sobressai um órgão alemão do século XVIII, restaurado no ano 2000, depois de ter ficado inutilizado na sequência de um incêndio que destruiu o colégio na década de 60 do século XX. No acesso ao coro alto, tivemos ensejo de admirar um presépio e uma recriação de um scriptorium medieval.

 

Concluímos a nossa visita no claustrim, igualmente chamado Antigo Claustro das Órfãs, também ele inconcluso. Foi aqui que nos despedimos do nosso simpático e sábio anfitrião, agradecendo-lhe a forma amável como nos guiou, acabando assim mais um passeio do nosso clube.

 

 

 

 

 



publicado por CP às 18:01
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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