Sábado, 22 de Outubro de 2011

 

 

Aproxima-se o dia de Finados e, por isso, decidimos visitar o cemitério da Conchada. O objetivo era conhecer algumas das realizações mais importantes dos canteiros conimbricenses dos finais do séc. XIX e das primeiras décadas do séc. XX. Para isso, tivemos que vencer alguns medos e receios. Pretendemos ainda conhecer alguns aspetos históricos associados ao culto dos mortos em Portugal, nomeadamente na época contemporânea quando, nos meados do séc. XIX, por razões higiénicas e não só, foi proibido enterrar os mortos no interior das igrejas. Datam dessa época os cemitérios construídos em todas as freguesias do país.

 

 

Antes disso, temos que dar as boas vindas à Júlia, a nova sócia do Clube do Património. Estamos agora com a lotação completa.

 

 

Logo à entrada, vemos um portão encimado por um magnífico trabalho de ferro forjado onde se destaca um imponente anjo a lembrar que nos aprestamos a entrar num espaço de culto aos mortos onde o respeito e o silêncio são exigidos a todos os visitantes. Os membros do Clube do Património perceberam logo que, embora o motivo da visita fosse de ordem artística e cultural, o cemitério é um espaço de culto, pelo que souberam manter uma atitude exemplar.

 

 

O cemitério de Coimbra foi implantado na antiga Quinta da Conchada e inaugurado a 1 de Outubro de 1860 pelo Presidente da Câmara da época, Venâncio Rodrigues. A partir das décadas de 70 e 80 do séc. XIX, as famílias mais ricas e importantes da cidade começaram a interessar-se pela aquisição e construção de jazigos que transformaram em verdadeiras obras de arte com magníficas demonstrações da excelência dos afamados canteiros conimbricenses. 

 

 

Nas palavras do professor Fernando Catroga, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra que dedica boa parte do seu trabalho ao estudo das atitudes perante a morte na época contemporânea, «todo e qualquer cemitério, e particularmente o cemitério oitocentista, deve ser visto como um lugar por excelência de reprodução simbólica do universo social». Na verdade, as diferenças sociais existentes no mundo dos vivos são refletidas no cemitério contemporâneo que é afinal a cidade dos mortos. Desta forma, os ricos possuem ricos jazigos e os pobres são enterrados em campas rasas. Isto é, a cidade dos mortos prolonga as desigualdades da cidade dos vivos, o que não deixa de ser um bocadinho disparatado, já que a morte tudo nivela e a todos atinge de igual modo.


 


 

Desde as origens, os cristãos sempre inumaram os seus corpos, isto é, procedem ao enterramento dos cadáveres em recintos sagrados, aguardando a ressurreição dos corpos e o dia do Juízo Final. A inumação era aliás tradição comum a judeus e muçulmanos, contrariamente a outros povos e culturas que incineram os corpos, e apesar de se verificar hoje em dia uma tendência cada vez mais visível para  a cremação. Porém, o hábito do enterramento está ainda muito enraízado entre nós.

 

 

Até ao séc. XIX, os enterramentos processavam-se no interior das igrejas, sendo que os mais poderosos eram sepultados próximo do altar e os mais desfavorecidos nas zonas mais afastadas. Quando esgotado o espaço interior, enterravam-se os mortos nos adros exteriores das igrejas, recinto que ainda era considerado sagrado, mesmo que afastado do capela mor.

 

 

Por decreto de 28 de setembro de 1844 assinado pelo ministro António Bernardo da Costa Cabral, e no âmbito de um plano reformista para modernizar os hábitos do país e promover a saúde pública, foram proibidos os enterramentos no interior das igrejas. Tal medida foi considerada  ultrajante pelas populações rurais, principalmente no norte do país, pois acreditavam que, desta forma, enterrando os corpos em terrenos não sagrados, se quebrava uma tradição secular e as almas se veriam impedidas de encontrar o caminho do céu! Sucederam-se violentas revoltas populares que alastraram a várias zonas do país.

 

 

Passados esses tempos de agitação, as populações aceitaram com normalidade a construção dos cemitérios públicos, ainda que outros momentos de violência se tenham vivido com o advento da República, quando verdadeiras batalhas cemiteriais se travaram em todo o país. É que os católicos não queriam que os seus mortos partilhassem o mesmo espaço com os mortos dos ateus. Ergueram, por isso, muros separadores que logo eram derrubados pelos adversários. Viveram-se, mais uma vez, momentos agitados e um bocadinho caricatos.

 

 

O mais imponente e monumental jazigo do cemitério da Conchada é o dos condes do Ameal. Ocupa o lugar central para onde convergem as ruelas mais importantes do cemitério. Tem uma planta poligonal, cujo traçado e trabalho de escultura se devem ao famoso canteiro conimbricense João Machado, célebre artista que se destacou, entre muitas outras obras, pela excelência e exuberância da pedra trabalhada no hotel do Buçaco. O desenho é em estilo revivalista neogótico, muito ao gosto da época onde se recuperaram os gostos artísticos da Idade Média e Renascença, dando a origem a novas correntes ditas revivalistas, pois faziam reviver estilos artísticos antigos. Fala-se então, relativamente ao séc. XIX, em correntes neogóticas, neoromânicas, neomanuelinas, neorenascença ou neomouriscas.

 

 

Admirámos o monumento e os pormenores e ouvimos as explicações do senhor José, trabalhador do cemitério, que nos informou que o jazigo possui uns pisos subterrâneos muito fundos para onde são transportadas as urnas dos membros falecidos desta família.

 

 

Já com os medos e receios iniciais vencidos, explorámos as ruas do cemitério e encontrámos o jazigo do poeta Eugénio de Castro. Claro que prestámos uma sentida e reconhecida homenagem ao patrono da nossa escola:

 

 

Antes de regressarmos à escola, ainda visitámos o talhão dos combatentes. Trata-se de um recinto exclusivo onde são enterrados os soldados portugueses que, ao logo do século XX, combateram nas diversas guerras em que o nosso país esteve envolvido, nomeadamente a primeira guerra mundial e a guerra colonial. Mais uma vez, prestámos a nossa homenagem.

 

 

Para a redação deste texto, consultei as seguintes obras:

Fernando Catroga: «O Céu da Memória»; Coimbra; Edições Minerva; 1999

Vítor Manuel Lopes Dias: «Cemitérios, Jazigos e Sepulturas. Estudo histórico, artístico, sanitario e jurídico»; sem local e sem data; edição do autor.



publicado por CP às 19:35
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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