Sábado, 01 de Outubro de 2011

A Arquitetura ou Fortaleza, Diógenes e a Ásia: três estátuas do séc. XIX colocadas num muro à entrada da Quinta das Canas

 

 

Hoje foi um dia muito especial! Recebemos um sócio novo, o José Afonso, visitámos a bela Quinta das Canas nos arredores da cidade, na margem esquerda do Mondego, e tivémos um momento muito especial. Leiam o texto até ao fim se quiserem saber tudo.

 

 

A Quinta das Canas, onde se situa a Lapa dos Esteios, foi uma quinta senhorial durante muitos séculos. No séc. XIX destacou-se a condessa de Canas, D. Maria Isabel de Melo Freire de Bulhões que transformou o lugar num retiro de poetas e artistas, tornando este espaço um palco do romantismo nacional. Atualmente, a quinta pertence à GNR, ainda que esteja aberta a visitas públicas, mediante autorização do comando. Agradecemos ao comandante Elísio Pinto a autorização concedida e ao cabo Miguel Sousa o acolhimento e a visita guiada.

 

 

 

Claro que a malta do Clube está pouco preocupada com essas coisas do Romantismo e da Condessa. Logo à entrada o que nos entusiasmou mesmo foram os canhões para espreitar e a água para chapinhar!

 

 

No entanto, não podemos deixar de assinalar a existência de uma lápide de homenagem a António Feliciano de Castilho (1800 - 1875) um dos mais famosos poetas do Romantismo do séc. XIX, protegido da Condessa de Canas e que, nesta quinta, instituiu a festa da primavera. Castilho era cego desde a infância e distinguiu-se não apenas na literatura, mas também enquanto pedagogo, tendo criado um método de iniciação à leitura muito divulgado. Foi o símbolo máximo do romantismo, contra quem se revoltou a geração de Antero de Quental, numa polémica que ficou conhecida como a Questão Coimbrã.

 

 

Junto à fonte encontramos um conjunto de quatro esculturas do séc. XVII, já um tanto danificadas, representando a  Fé, a Esperança, a Caridade e a Morte. A Kika e o David (em cima) e a Ana (em baixo) não são de pedra, nem do séc. XVII!

 

 

Percorremos as alamedas e os recantos da quinta, sempre acompanhados pelo cabo Sousa que nos foi prestando algumas informações muito úteis. Fotografámos tudo o que havia para fotografar, corremos e saltámos, rumo às belas margens do Mondego.

 

 

Foram inúmeros os poetas que cantaram a beleza das margens do rio Mondego, mas não podemos deixar de destacar Luís de Camões. A professora Clara Sá, que nos fez a surpresa de aparecer a meio da visita, ofereceu-nos uma cópia de um poema para ser lido na ocasião. Acontece que eu me esqueci do poema na escola e por isso transcrevo-o agora:

 

 

Vão as serenas águas
do Mondego descendo
mansamente, que até o mar não param;
por onde minhas mágoas
pouco a pouco crescendo,
para nunca acabar se começaram.
Ali se juntaram neste lugar ameno,
aonde agora morro, testa de nove e ouro,
riso brando, suave, olhar sereno,
um gesto delicado,
que sempre n'alma m'estará pintado.
Nesta florida terra,
leda, fresca e serena,
ledo e contente para mim vivia,
em paz com minha guerra,
contente com a pena
que de tão belos olhos procedia.
Um dia noutro dia
o esperar m'enganava;
longo tempo passei,
com a vida folguei, só
porque em bem tamanho me empregava.
Mas que me presta já,
que tão formosos olhos não os há?
Ó quem me ali dissera
que de amor tão profundo
o fim pudesse ver ind'algmaa hora!
Ó quem cuidar pudera
que houvesse aí no mundo
apartar-m'eu de vós, minha Senhora,
para que desde agora
perdesse a esperança,
e o vão pensamento,
desfeito em um momento,
sem me poder ficar mais que a lembrança,
que sempre estará firme
até o derradeiro despedir-me.
Mas a maior alegria
que daqui levar posso,
com a qual defender-me triste espero,
é que nunca sentia
no tempo que fui vosso
quereres-me vós quanto vos eu quero;
porque o tormento fero
de vosso apartamento
não vos dará tal pena
como a que me condena:
que mais sentirei vosso sentimento,
que o que minh'alma sente.
Morra eu, Senhora, e vós ficai contente!
Canção, tu estarás
aqui acompanhando
estes campos e estas claras águas,
e por mim ficarás chorando
e suspirando,
e ao mundo mostrando tantas mágoas,
que de tão larga história
minhas lágrimas fiquem por memória.

 

Vale a pena ainda recordar um belo fado em que José Afonso canta as saudades de Coimbra, evocando a paisagem que vai do Choupal até à Lapa, referindo-se justamente a esta Lapa dos Esteios:

 

É verdade que as margens do Mondego já estão muito estragadas pelo abandono dos campos e dos laranjais e pela construção de prédios muito feios que desfiguram a paisagem. No entanto, aqui na Lapa dos Esteios ainda é possível usufruir da paisagem e entender como Camões, José Afonso e tantos outros artistas se deixaram emocionar com a beleza da nossa cidade. Ora apreciem lá as fotografias:
Por fim, dirigimo-nos à Lapa dos Esteios propriamente dita. Trata-se de um rochedo sobranceiro ao rio, com um pequeno ancoradouro e umas vistas idílicas, onde os poetas vinham para se inspirarem, aqui deixando umas lápides marcando a sua passagem.
Destaque para uma lápide que assinala a visita do Imperador D. Pedro II do Brasil que aqui esteve em 1872 e que, segundo parece, terá levado umas folhas de hera para o seu país, num gesto simbólico e emotivo, tão ao gosto da sensibilidade romântica do séc. XIX.
Foi precisamente neste local muito especial que decidimos prestar uma homenagem especial a uma pessoa especial num dia especial! A professora Conceição Fernandes reformou-se e este foi o seu último dia! Claro que a Dr.ª Conceição não nos vai deixar, pois vai continuar a dinamizar o nosso Clube, e por isso não fizemos uma cerimónia lamechas. Mas não pudemos deixar de prestar a nossa homenagem neste momento, expressando a nossa admiração e amizade pela nossa amiga e professora, agradecendo todo o esforço e dedicação ao longo da sua carreira. Ficam as imagens deste momento comovente:
Por fim, resta lembrar que o Clube passou a contar este ano com mais uma professora colaboradora. Além da professora Conceição, contamos agora com a professora Fernanda Santos, pelo que só temos motivos para festejar:


publicado por CP às 11:09
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