Sábado, 26 de Novembro de 2016

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    Esta semana deslocámo-nos ao Centro de Documentação 25 de Abril (CD25A), na Rua da Sofia, onde fomos recebidos pela Drª. Natércia Coimbra e por toda a sua equipa. O CD25A foi fundado há pouco mais de 30 anos por iniciativa do Professor Boaventura de Sousa Santos. A ideia era criar no seio da Universidade de Coimbra uma unidade de investigação que reunisse documentos diversos para auxiliar o estudo sobre o período da Revolução de  25 de Abril de 1974. 

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   O Centro de Documentação está atualmente instalado no Colégio da Graça, num edifício completamente remodelado e adequado às novas funções de arquivo e biblioteca. Construído na década de 40 do séc. XVI como Colégio Universitário, acabaria por ser convertido em quartel militar, após a extinção das ordens religiosas no séc. XIX. Recentemente, no âmbito da classificação da Rua da Sofia como Património da Humanidade, o edifício foi reafetado à sua função académica e cultural, albergando o Centro de Estudos Sociais (CES), alé do CD25A.

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   Depois de ouvirmos algumas explicações sobre a história e as instalações do Centro, fomos conduzidos num breve passeio pelos corredores do edifício, apreciando os corredores revestidos com azulejos quinhentistas, tudo muito bonito e muito bem restaurado.

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   Após esta breve deambulação, descemos até ao piso do r/c, onde a Filomena nos mostrou algum do espólio documental que aqui é tratado e conservado. O arquivo recebe doações de pessoas particulares e de instituições públicas e privadas, ficando com o encargo de catalogar, estudar, preservar e divulgar todos os documentos. E são dos mais variados, como nos mostrou a Filomena:

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livros,

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cartazes e fotografias antigas,

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Uma farda da Mocidade Portuguesa, jogos, caricaturas de políticos da época, e até uma garrafa de vinho de 1974!

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    Mas o que nós gostámos foi foi a coleção de pins. Trata-se uma coleção de dezenas de alfinetes com emblemas  dos mais diversos partidos e organizações políticas criadas nos meses que se seguiram à revolução, crieriosamente alinhados e ordenados em caixas de cartão arquivadas em prateleiras. Isto também são documentos históricos que ajudam a reviver e a compreender esses momentos históricos.

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   Interessante também, como "relíquia revolucionária" é o casaco de cabedal usado por Otelo Saraiva de Carvalho no comando das operações militares do dia da Revolução!

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    Depois descemos à cave, ao arquivo de propriamente dito, onde fomos recebidos por uma outra técnica arquivista que nos explicou o tratamento a que são submetidos os documentos em papel, como cartas, recortes, bilhetes, recibos, etc. Todo o corredor é preenchido com armáros e estantes protegidos por portas blindadas, tudo com um cuidado controlo de temperatura, humidade e luminosidade, para que os papéis se conservem mais tempo.

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   Chamou-nos a atenç\ao o espólio epistolar, isto é, de cartas, do capitão Salgueiro Maia, um dos operacionais da Revolução. Aquelas cartas, todas de caráter pessoal, foram escritas pela mesma mão que, no dia 25 de abril de 1974, ajudaram a construir a Liberdade.

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    Como curiosidade, vimos também um conjunto de recibos emitidos pela polícia política (PIDE) relativos ao pagamento de uma certa quantia em dinheiro paga por um preso político. Quer dizer, os cidadãos eram presos por razões políticas, privados da sua liberdade e maltratados e ainda tinham que pagar as noites passadas na prisão!

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    O Miguel é um voluntário que presta serviço no CD25A, dedicando-se à catalogação de caricaturas. Nos anos que antecederam e sucederam ao 25 de abril, foram produzidos milhares de caricaturas que criticavam e ridicularizavam determinadas situações e personagens. Agora, décadas volvidas, essas caricaturas constituem preciosos documentos históricos que o Miguel se dedica a recortar, arquivar, catalogar e preservar, tendo já uma coleção muito considerável.

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   A quantidade de papéis e documentos que aqui se conservam é incrível. Muitos destes aqrquivos são provenientes de organismos estatais e estariam condenados à destruição, caso o CD25A não se dispusesse a guardá-los. Seria bom que todos compreendessem que a destruição de documentos do presente constitui uma forma de apagamento da memória pelo que, em nome da investigação futura, todos nos devemos empenhar na conservação dos documentos do nosso tempo, sendo certo que não podemos guardar tudo!

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   A Fernanda é a técnica responsável pela parte das publicações periódicas. São muitos os jornais e as revistas doados ao CD25A, alguns produzidos em tipografias clandestinas durante o período da Ditadura que hoje constituem documentos inestimáveis. Como eram produzidos em condições muito rudimentares e em papel de fraca qualidade, é necessário um trabalho especial para garantir a sua preservação, bem como tratar a sua informação de modo a facilitar o acesso e consulta por parte dos investigadores.

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    Prendeu-nos a atenção um pequeno panfleto impresso num papel finíssimo, vulgarmente designado como papel-Bíblia. A razão era que estes textos clandestinos e subversivos eram um perigo se por acaso a PIDE apanhasse um oposicionista com textos destes. Para eliminar a prova e inviabilizar a acusação, os opositores engoliam estes papéis, caso fossem surpreendidos por agentes da polícia política, por isso estes documentos eram impressos neste papel muito fino, para facilitar a "digestão".

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    No final da visita ainda tivemos direito a um presente, com que os nossos anfitriões nos surpreenderam, explicando-nos que o nosso clube ficaria para a história do Centro de Documentação 25 de Abril, pois fomos a primeira escola a visitar estas novas instalações! E assim também vamos fazendo história! Obrigado à Drª. Natércia Coimbra e a toda a equipa do CD25A que tão atenciosamente nos recebeu e guiou num dia inesquecível.



publicado por CP às 12:30
Sábado, 19 de Novembro de 2016

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  «Passage» é o título de uma exposição de Pedro Pascoinho que fomos visitar na sede do Círculo de Artes Plásticas (CAPC), na rua Castro Matoso. Este artista, natural da Figueira da Foz, não tem formação académica, quer dizer, não estudou em nenhuma escola de Belas Artes, é um autodidata, aprendeu por si próprio. Por isso, a qualidade do seu desenho surpreende ainda mais.

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   A exposição inicia-se numa sala escurecida com uma instalação de quatro videos muito curtos projetados continuamente, em cada uma das paredes. A imagem a preto e branco, sem qualquer som, mostra uma senhora, sentada a uma secretária, como se estivesse a trabalhar, com uma série de objetos à sua frente. Os nossos olhos observam incessantemente esta cena, para onde quer que nos viremos. Quando o filme chega ao fim, logo recomeça, numa estranha monotonia que o Salvador associou ao mito de Sísifo.

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  Um pouco à frente, num recanto do corredor, encontramos uma banca de trabalho, onde reconhecemos alguns dos objetos do filme. A mesa parece retirada do ateliê de um pintor. Um placar colocado na parede exibe uma série de  fotografias recortadas de revistas antigas. Viemos a saber que é este o ponto de partida do processo criativo do artista, pois é aí, nessas revistas que coleciona há muitos anos, que Pesdro Pascoinho colhe a inspiração para o seu trabalho. Dois objetos saltam à vista: um fio que atravessa a banca de uma parede à outra e uma tesoura, o instrumento indicado para o cortar. Se o fio, que será uma constante ao longo de toda a exposição, pode ser lido como um símbolo da continuidade e da vida, a tesoura que o corta está fácil de ver o que pode ser!

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   Na sala contígua, onde viríamos a ter uma animada conversa, lá encontramos outra vez o fio, cortando um recanto e atravessando a parede. Este fio acompanhará toda a exposição, tal como o som, uma música monótona permanente, composta pelo próprio artista, é como se fosse um fio sonoro. Ao conversarmos, retomámos a ideia do trabalho de Sísifo. Foi o próprio Salvador que contou a história desse rei mitológica condenado pelos deuses, para toda a eternidade, a transportar um pedregulho até ao cimo de uma montanha, Aí chegado, a pedra soltava-se e tudo se reiniciava, incessantemente. Impôs-se então uma pergunta: é preferível a eternidade repetitiva ou a mortalidade criativa? O João ficou um bocado surpreendido pela questão, mas não hesitou na resposta: prefere ser mortal e ter direito a uma vida livre e criativa!

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  Partimos depois para uma visita às várias salas que constituem o circuito expositivo nos dois pisos da sede do CAPC. Os desenhos são muito realistas e causaram uma grande impressão. Tal como as pinturas a óleo sobre papel. Os modelos estão sempre numa atitude estranha, parece que suspensos no tempo e surpreendidos pelo nosso olhar.

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   Os desenhos feitos a carvão sugerem uma antiguidade que reconhecemos inspirada naquelas fotografias retiradas de revistas antigas. Em todos os trabalhos aparece pintado um fio, o tal fio que nos acompanha desde o início, concretizando a ideia de continuidade. De sala em sala, tal como nas diferentes etapas da vida, o fio, tal como a nossa memória, garante uma continuidade essencial. E, por isso, tornou-se uma espécie de jogo na nossa visita procurar, em cada uma das obras, o desenho, mais ou menos explícito, de um fio. 

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   Encontrado este fio condutor para a nossa visita, foi quase uma confirmação chegar à última sala e confrontarmo-nos com uma estranha instalação: de uma fenda da parede jorrava uma espécie de cinza, um pó de carvão, que se acumulava no chão. Pareceu-nos uma metáfora da morte!

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  Foi sem surpresa que confirmámos esta nossa suspeita numa placa identificativa desta instalação intitulada «continuity», que quer dizer «continuidade», colocada na parede ao lado. Aí se transcreve um excerto de um texto de William Shakespeare, retirado de Hamlet:

 

Morto, César imperial é só barro agora;
Serve p’ra vedar o vento lá de fora.
O que outrora foi do mundo pesadelo
Calafeta muros, poupa-nos do gelo.

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  Se a banca de trabaho do artista marcou o início da nossa visita, esta fenda, evocando a morte e a redução a cinza mesmo dos mais poderosos como Júlio César, assinala o termo óbvio e simbólico do itinerário expositivo. Mas não da nossa visita, pois havia tempo ainda para desanuviar e apreciar simplesmente as pinturas de Pedro Pascoinho.

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publicado por CP às 10:48
Sexta-feira, 11 de Novembro de 2016

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    Coimbra possui, provavelmente, o museu mais pequeno do Mundo! Se é que é um museu, não sabemos lá muito bem! Localiza-se na Praça Cortes de Coimbra, não muito longe da ponte de Santa Clara, na margem esquerda do Mondego. É um ponto central da nossa cidade, diariamente passam ali, a pé ou de carro, milhares de pessoas. Possivelmente alguns nem reparam naquela construção, outros não ligam e, no máximo, acham estranha aquela palavra - «Museu» - pintada nuns vidros colocados sobre as duas portas do edifício. 

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   Este projeto foi pensado em 2001, enquanto projeto de arte pública, por um dos mais consagrados nomes da nova geração de artistas portugueses, Francisco Tropa. Na altura, foi apresentada uma maqueta numa galeria de arte. Era apenas uma ideia para ser executada e instalada numa praça pública. Era um paralelipípedo atravessado por um corredor com duas portas para o exterior, ostentando, por cima, duas janelas envidraçadas com a palavra «Museu» pintada. Lá dentro, de cada um dos lados desse corredor, dois vidros limitavam duas pequenas salas destinadas à exibição de peças e obras de arte.

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   Este Museu foi construído por ocasião da Anozero - Bienal de Arte Contemporânea, que decorreu na nossa cidade nos finais de 2015. Pretende ser uma intervenção artística mas também uma infraestrutura cultural destinada à exibição de obras de arte. Para este efeito, este Museu é gerido por um Diretor, tem um Curador e um Conservador. A novidade é que o Museu terá exposições com objetos sugeridos pelos cidadãos. Na verdade, qualquer cidadão pode sugerir um objeto a expor, basta para o efeito que envie a sua proposta ao diretor do Círculo de Artes Plásticas, acompanhada de um texto justificativo, podendo usar o seguinte endereço eletrónico: capc.geral@gmail.com

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   Cada um pode sugerir o que bem entender, sujeitando-se apenas a uma condição: que a peça possa ser introduzida no espaço expositivo através das aberturas colocadas na cobertura do edificío. Se a proposta for selecionada, a peça, ou peças, será apresentada aos visitantes, de acordo com os critérios do curador e do conservador. De resto, podem exibir-se objetos, instalações, pinturas, esculturas ou até sons, não se impondo qualquer limite à criatividade de cada um, basta que caiba naquela abertura!

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   Para já, nesta primeira exposição, o Museu exibe algumas peças curiosas: um livro de Roberto Bolaño, um famoso escritor chileno já falecido, que aqui é apresentado por proposta de Delfim Sardo. Desta forma, questionamo-nos sobre o modo como o objeto-livro, desenquadrado do seu espaço normal - uma biblioteca, por exemplo - e colocado num espaço museológico, adquire um novo e surpreendente valor simbólico. Temos ainda duas pequenas pedras de xisto pintadas de modo a sugerir duas máscaras e um conjunto de luvas brancas sobrepostas, instalação de Nuno Grande intitulada «Em boas mãos». Há ainda, numa das paredes laterais, uma curiosa fotografia de Jorge das Neves.

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João Maria André: Rostos inscritos na pedra

   Ao fundo, no topo desta vitrina e sob um enigmático título (Quente), um texto explicativo anuncia o tema da próxima Bienal de Arte Contemporânea que se realizará em 2017. Do outro lado, Frio, uma fotografia desoladora de uma floresta queimada, fria portanto, porque despida de vida e tomada pela devastação, embora exibindo os efeitos da passagem destruidora de um incêndio. Por baixo, um número que nos recorda a área ardida e, enrolada no chão, uma mangueira usada pelos bombeiros para combater os fogos florestais. Tudo isto é perturbador, pois o nosso espírito é invadido por uma sucessão de ideias que nos conduzem a uma reflexão sobre um conjunto de temas e problemas muito atuais, ganhando novo alcance o tema da próxima Bienal: Curar e Reparar.

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   Na hora de ir embora, é interessante comparar este pequeno Museu com um museu tradicional, um desses museus nacionais muito grandes, como o Museu Nacional Machado de Castro, por exemplo. Este Museu do Francisco Tropa não tem câmaras de vigilância, nem obras de arte valiosas, nem filas de turistas à porta, não tem sequer portas e não se paga bilhete! Somos então convidados a uma reflexão final: o que é um Museu?

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 A malta do Clube a refletir: O que é um museu?



publicado por CP às 23:28
Sexta-feira, 04 de Novembro de 2016

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   Esta semana fomos visitar uma República. As Repúblicas de estudantes são residências comunitárias típicas da nossa cidade, quase todas fundadas no século passado, embora as suas origens remotíssimas remontem aos tempos medievais e à fixação da própria universidade. Viver numa República é uma forma económica e muito gratificante de viver a vida académica, pois aqui se geram laços de amizade que perduram para toda a vida. As Repúblicas acolhem especialmente os estudantes oriundos das zonas mais recônditas do país. Estas comunidades de estudantes universitários constituem um símbolo da Academia e foram incluídas, enquanto património imaterial, na recente decisão da UNESCO que classificou a Universidade de Coimbra, incluindo os edifícios da Alta e da Rua da Sofia, como Património da Humanidade. 

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    Foi uma destas Repúblicas, a «República da Praça», que nós decidimos visitar esta semana. Embora localizada na Rua João de Deus, que liga as ruas Antero de Quental e Lourenço de Almeida Azevedo, o seu nome indica a sua origem e o local onde foi criada: a Praça da República, um pouco mais abaixo. O trocadilho é muito engraçado, pois a República da Praça foi criada na Praça da República, como residência de estudantes, nos meados do século passado. Só posteriormente, em 1989, a residência foi considerada Solar, classificação prévia à sua constituição como República, em 1996.

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    Fomos recebidos e guiados na nossa visita pelo Rui, pelo Tiago e pela Inês, três dos atuais repúblicos - assim se chamam os residentes - que amavelmente acederam ao nosso pedido e nos contaram a história, já longa e repleta de peripécias, desta comunidade estudantil. Neste momento são sete os residentes, sendo que a Inês é a única rapariga. Além dos repúblicos há que contar com os comensais, isto é, aqueles que aqui tomam as suas refeições, mas não residem. Há ainda os amigos e os antigos moradores. O Tiago contou-nos que todos são bem-vindos e que, mesmo depois de concluirem os estudos e abandonarem a cidade, têm sempre a porta aberta quando quiserem fazer uma visita, levando mesmo uma chave de casa. Na verdade, os laços que aqui se forjam durante o período de vida em comum são tão fortes que nunca se perdem.

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   A «República da Praça» está instalada nesta moradia, que foi uma antiga vivenda particular antes de ser uma clínica médica, há muito pouco tempo, há um ano sensivelmente, depois de terem sido desalojados das suas instalações originais num prédio na Praça da República. Há uns anos atrás, o proprietário decidiu desalojar os estudantes, recorrendo a uma ação judicial de despejo, já que o acordo não foi possível. O processo foi muito agitado e arrastou-se durante muito tempo, gerando-se mesmo alguns conflitos, como numa ocasião que que o proprietário decidiu cortar a água aos estudantes, tentando assim que eles saíssem da casa. Porém, eles resistiram e recusaram-se a abandonar a sua República, daí resultando o lema que orgulhosamente pintaram numa parede da casa atual: «Os que por falta de água nunca passaram sede.»

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    Na sequência desta disputa, os repúblicos, sempre com o auxílio de amigos e antigos residentes mais velhos que os ajudaram na condução deste processo, exigiram uma indemnização compensatória. A decisão do tribunal acabou por lhes ser favorável e os estudantes, para demonstrarem que não estavam interessados numa recompensa material, exigiram 1 € apenas! É essa moeda que exibem numa moldura colocada em local bem visível na sala principal da residência.

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    Depois de debatido o caso nos tribunais, e apesar da indemnização obtida, os estudantes foram obrigados a largar as instalações na Praça da República, tendo necessidade de encontrar um novo espaço. Foi aí que a solidariedade entre  atuais e antigos residentes deu uma prova impressionante de vitalidade, pois todos juntaram esforços para reunir o dinheiro necessário à aquisição desta casa. A Reitoria da Universidade ajudou com uma quantia importante, mas ainda assim foi necessário recorrer a um empréstimo bancário. Muitos antigos repúblicos ofereceram-se como avalistas, outros forneceram apoio jurídicos e todos, cada um conforme as suas possibilidades e disponibilidade, contribuiram para a compra do imóvel. Os nomes de todos eles estão inscritos nas paredes da casa, como sinal de agradecimento e para manter viva a memória deste momento refundador.

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   O brasão da República está presente em todo o lado: no exterior do edifício, pintado na parede da sala principal, ou na placa dedicada aos avalistas. O emblema mostra a Torre da Universidade, uma Sereia e duas máscaras teatrais, aludindo à localização original da República, próximo do Jardim da Sereia e do TAGV (Teatro Académico Gil Vicente). Outro dos objetos simbólicos é uma espécie de corneta, outrora usada pelos comboios para sinalizar a chegada às estações e apeadeiros, e que os estudantes conservam religiosamente na sua sala, saindo apenas nos cortejos académicos. O Rui fez o favor de soprar para exemplificar o ruído ensurdecedor que produz e que assustou alguns de nós!

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    Depois destas explicações, prosseguimos para uma vista aos quartos dos residentes. Vimos o modo como vivem, os locais onde dormem, estudam e convivem, partilhando os espaços e o seu quotidiano, ajudando-se mutuamente. É tão intensa a vida nas Repúblicas que os estudantes consideram que um ano aqui passado corresponde a cem anos de vida no exterior, pelo que, em vez de contarem os aniversários, contabilizam os centenários! Ao longo da visita, os nossos anfitriões contaram-nos histórias antigas e muito divertidas, aproveitando as muitas fotografias afixadas nos corredores e na escadaria, bem como os vários objetos que decoram as instalações. De entre todos, há que destacar o Conde de Aguilar, uma enigmática figura num cartaz, cuja origem todos desconhecem, parece que sempre ali esteve, sendo já um símbolo da casa.

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    O Museu acolhe uma série de objetos, todos estranhos, mas que conservam memórias antigas, histórias divertidas, episódios hilariantes, personagens marcantes e momentos inesquecíveis. Esta divisão interior é, podemos dizer, o santuário da República, o local onde se conservam os objetos que mantêm vivas as memórias que testemunham a história desta comunidade e lhe dão identidade.

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    Depois, vimos ainda o local onde convivem e realizam as festas. Trata-se de uma garagem interior decorada com uma série de objetos "oferecidos" por várias instituições, destacando-se um painel luminoso que os CTT amavelmente "doaram" aos estudantes, bem como um semáforo e muitos outros cartazes e sinais de trânsito. Devem ser muito simpáticos os nossos estudantes, para receberam tantas "prendas"!

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    Por fim, concluimos a nossa visita na sala de jantar. è aqui, à volta de uma pesadíssima e enorme mesa que tanto trabalho deu a transportar desde a antiga morada, que se juntam os repúblicos, os comensais e os convidados para tomarem as refeições. Aqui convivem e comem os pratos preparados por uma cozinheira contratada para confecionar as refeições. Este é o local que melhor demonstra a vida de partilha que aqui levam. Tão forte é a camaradagem aqui construída que, no final da visita, tudo nos parece uma estranha, simpática, acolhedora e enorme família, mais do que uma residência estudantil.

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publicado por CP às 23:31
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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