Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2016

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 Coimbra deve ser a cidade do país com mais património que já não existe. Claro que isto não constitui uma razão de orgulho para os conimbricenses. Pelo contrário, todos sentimos uma profunda indignação pela destruição sistemática dos monumentos da nossa cidade ao longo dos últimos séculos. Para reavivar a memória dos espaços e edifícios destruídos,  delineámos um trajeto que começou na Praça Heróis do Ultramar e acabou junto ao Jardim da Manga, percorrendo algumas zonas da cidade, incidindo especialmente na Alta. Equipados com um computador, o nosso objetivo foi confrontar os espaços atuais com a memória de outros tempos, evocados através de fotografias digitalizadas a partir de livros antigos ou retiradas da internet. Em cada paragem, um dos nossos jovens sócios segura o computador, como se assim se presentificasse um passado esvanecido, trazendo o tempo e os espaços desaparecidos à memória da nova geração.

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2011-01-06 22.13.21.jpg   O nosso objetivo não foi lá muito bem alcançado, pois estava um agradável mas inconveniente dia ensolarado, o que impediu que as fotografias mostrem com clareza a imagem exibida no monitor. De qualquer modo, reproduzimos a fotografia antiga em cima e, em baixo, podemos ver o espaço atual. A Mariana esconde-se atrás do computador, pois pensava que estava a tapar o monumento aos Heróis do Ultramar, enquanto a Ana olha não sei para onde e o estiloso do André impede que se veja  o que queríamos que se visse: o monumento!  Enfim, uma desorganização completa! O nosso percurso iniciou-se pois junto ao monumento aos Heróis do Ultramar, na praça que conserva o mesmo nome. A primeira fotografia mostra a localização do monumento, da autoria de Cabral Antunes, antes das obras de remodelação por ocasião dos trabalhos de construção do novo estádio. Inicialmente estava colocado de costas para a fachada da Escola Infanta D. Maria no meio de um espaço ajardinado com lagos redondos dispostos em socalco até à entrada norte do Estádio. Hoje está tudo muito diferente, foi destruído o jardim, os passeios circundantes do Estádio, bem como os lagos. No meio da Praça foram construídos o pavilhão multiusos e o complexo das piscinas municipais.

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   Foi aí que apanhámos o autocarro até aos Arcos do Jardim. Depois, seguimos a pé até ao Largo D. Dinis. Um pouco antes, a Laura mostrou-nos uma fotografia antiga do Colégio de S. Bento, que acolhe na atualidade as instalações do Instituto Botânico e do Instituto de Antropologia. Está tudo mais ou menos na mesma, apenas com duas alterações. Por um lado, o último dos arcos do aqueduto foi destruído durante a construção da cidade universitária, nos meados do século XX, e, por outro, o postal antigo tem uma legenda curiosa, que poderão ver se clicaram e ampliarem a imagem: «Estudantes do Lyceu». Na verdade, aqui funcionou o Liceu Masculino D. João III até à inauguração do novo edifício que hoje se chama Escola Secundária José Falcão.

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   O castelo de Coimbra erguia-se no sítio atual do edifício das Matemáticas. Foi destruído no século XVIII pelo Marquês de Pombal que projetou para o local um observatório astronómico. É uma pena, pois era um excelente castelo, com uma planta irregular e duas enormes torres. A mais antiga foi construída no tempo de Afonso Henriques e dominava toda a cidade, sendo avistável dos arredores. Tinha 22 metros de altura e era o símbolo da importância da cidade. A outra torre era chamadaTorre de Hércules, tinha uma planta pentagonal e foi mandada construir por D. Sancho I, em 1198. O castelo começou a ser demolido em 1773 para a construção de um Observatório Astronómico. Porém, só nos meados do século XX, quando da construção da atual Cidade Universitária, é que os últimos vestígios despareceram definitivamente. Recentemente, o professor Jorge de Alarcão publicou um livro muito interessante sobre a fundação e a evolução da cidade desde o tempo dos romanos, dedicando um capítulo à muralha e ao castelo. Aí, surge uma ilustração da autoria de José Luís Madeira, que reproduzimos à esquerda, e que reconstitui o castelo desaparecido. A fotografia do lado direito mostra o estiloso do André a olhar para o castelo, exatamente no sítio onde outrora se erguiam as suas torres imponentes. 

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   No Largo D. Dinis, a Ana mostra-nos a imagem superior que infelizmente não se consegue ver no monitor. Trata-se do aspeto geral da praça, ao cimo das Escadas Monumentais, antes do arranjo atual. Como podem ver, havia um arco, designado como Arco do Castelo, que foi destruído durante o Estado Novo quando se edificaram as faculdades da atual cidade universitária. Quando por lá passarem, reparem com atenção na parede do antigo Colégio de S. Jerónimo, pois ainda é visível o arranque do arco e as marcas onde assentava a estrutura. Resta dizer que este antigo colégio alberga atualmente vários departamentos da universidade, incluindo o Museu Académico que um dia visitaremos, depois de aqui se terem localizado, durante muitos anos, os Hospitais da Universidade de Coimbra.

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   A Joana mostra-nos o edifício da antiga Faculdade de Letras. Atualmente, esta Faculdade situa-se no outro lado do Largo da Porta Férrea mas quando foi fundada, em 1911, ocupou as instalações  onde atualmente está a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC). Antigamente, no séc. XVI, estava aí o Real Colégio de S. Paulo que foi extinto em 1834, tendo sido o edifício entregue à Universidade, que instalou aí a Faculdade de Letras.

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   A Bia mostra uma fotografia antiga onde se pode ver a Porta Férrea tal e qual como é na atualidade, pois não houve alterações. No entanto, do lado direito, onde está hoje implantada a Faculdade de Letras, existia um jardim. Se repararem bem, no meio estava um monumento de homenagem a Luís de Camões. Este monumento teve uma história muito agitada, pois foi inaugurado em 1880, por ocasião do tricentenário da morte do poeta. Porém, como essas comemorações ficaram associadas ao nascimento do ideal republicano, este monumento ficou com essa conotação. De tal modo que, quando a Faculdade foi construída e houve necessidade de o remover, ele ficou guardado num armazém, esquecido. Só muito mais tarde é que foi colocado num sítio discreto, junto à atual sede do Instituto Justiça e Paz, num cantinho muito pouco digno. Por isso, alguns anos depois, foi novamente deslocado, desta vez para o separador central ao fundo da avenida Sá da Bandeira, onde o podemos ver hoje e onde captámos a fotografia com que abrimos este texto.  

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   O Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra tem igualmente uma história agitada. De início, durante a reforma pombalina da Universidade, quando pela primeira vez se pensou na construção de um observatório, o local previsto foi, como já vimos, o castelo da cidade, onde é hoje  o Largo D. Dinis. Contudo, surgiram vários problemas na projeção e execução da obra, chegando mesmo a demolir-se o castelo. O facto é que a construção não passou dos alicerces e durante anos o observatório funcionou em instalações improvisadas. Após longos debates, e sentindo-se muito a falta de instalações apropriadas para os estudos científicos, decidiu-se construir um observatório no topo sul do Pátio das Escolas. Aqui funcionou então desde os finais do séc. XVIII até meados do séc. XX, quando foi demolido, passando para a margem esquerda do Mondego, na zona de Santa Clara, onde ainda hoje se encontra. 

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   Do Pátio das Escolas descemos até ao Museu Machado de Castro. Aqui se localizava, como sabemos, o antigo forum da cidade de Aeminium. Durante séculos foi a residência dos bispos de Coimbra, até que, na sequência da revolução republicana de 1910, os bens da Igreja foram nacionalizados, o bispo teve que sair e foi aqui criado o Museu, em grande parte com o espólio nacionalizado nos conventos e casas religiosas da cidade e dos arredores.  Depois de umas longas e profundas obras de remodelação, o Museu reabriu há três ou quatro anos, sendo um dos mais importantes museus nacionais.

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   O nosso amigo Gonçalo saiu um bocado desfocado na fotografia, o que é uma peninha. Por isso não se consegue ver lá muito bem o fundo da rua da Couraça dos Apóstolos para se poder comparar com a fotografia do lado esquerdo. De qualquer modo, quando lá passarem, lembrem-se da imagem antiga e reparem, olhando para a parede lateral da Sé Nova, na falta de reboco no espaço que corresponde ao local onde encaixava um passadiço que ligava a residência episcopal, o atual museu, à Sé, para que o bispo  passasse de casa para a igreja sem sair à rua. Esse arco era conhecido como o Arco do Bispo e dava ao local um aspeto muito pitoresco. Infelizmente foi demolido. Resta a memória das fotografias e a marca nas paredes.

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   Na avenida Sá da Bandeira, chegámos ao local onde nos finais do séc. XIX foi inaugurado o Teatro Avenida, a maior sala de espetáculos de Coimbra durante décadas. Era dos poucos exemplares da designada arquitetura do ferro, pois tinha uma cúpula e um gradeamento neste material tão típico das construções dessa época. Na nossa cidade são raros os exemplares desse estilo. Além do desaparecido Teatro Avenida, refira-se o Edifício Chiado, atual Museu Municipal, ou o Mercado D. Pedro V. Esta sala acolheu, ao longo de quase todo o século XX, inúmeros espetáculos de teatro, cinema, dança, variedades, récitas, saraus e até comícios políticos, como o do general Humberto Delgado, em 1958. Aqui se realizaram igualmente concertos memoráveis e episódios marcantes da vida estudantil, nomeadamente os de José Afonso, na década de 60, que mobilizaram os estudantes para as lutas académicas. Era uma sala enorme, com camarotes e plateia, inspirada no coliseu de Lisboa. Nos meados dos anos 80, o edifíco foi demolido, dando lugar ao atual centro comercial Avenida. É um espaço desinteressante, labiríntico e deserto, sem movimento, nem atividade comercial relevante. A sala de cinema encerrou. 

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   Ao descermos a avenida na direção da Baixa, pudemos comparar a atual artéria com uma fotografia de 1979 retirada da internet. Nota-se ao fundo o mercado D. Pedro V. A principal diferença é o elevador que liga a zona baixa à Alta da cidade. Um pouco mais abaixo, detivemo-nos em frente ao mercado.

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   A Tália mostra-nos a fotografia da esquerda no local aproximado de onde foi captada, há muitos anos atrás, embora os reflexos não deixem ver a imagem. O Mercado Municipal D. Pedro V foi construído na antiga horta do mosteiro de Santa Cruz. Esta localização não foi consensual, pois discutiram-se outros locais para a edificação deste espaço comercial que pretendia reunir diversos mercados que se faziam, muitas vezes em más condições, em várias ruas e praças da cidade, como no Largo da Feira, em frente à Sé Nova, ou na Praça do Comércio. Em 1868 concluiu-se a construção deste mercado, ainda que só mais tarde, já no séc. XX, tenha sido inaugurado o mercado do peixe. Este espaço foi durante décadas um dos principais locais de comércio da cidade, até ao aparecimento dos modernos supermercados e centros comerciais. Desde então, tem-se assistido ao seu declínio, apesar dos esforços da câmara para o modernizar. O atual espaço resulta da remodelação empreendida já nos inícios deste século. Apelamos a todos os conimbricenses para que não deixem morrer este local, adquirindo produtos locais, fazendo as vossas compras no Mercado D. Pedro V.

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      No local onde hoje se encontram as escadarias de Montarroio, existiu até 1935 um dos mais imponentes e grandiosos monumentos da cidade, a torre de Santa Cruz. Fazia parte do complexo de construções anexas ao antigo, rico e importantíssimo mosteiro. Era  maciça, robusta e austera, sendo encimada por um conjunto de sinos imponentes. Ao longo das décadas, por falta de trabalhos de manutenção, a torre foi-se degradando e algumas pedras se foram desprendendo, ameaçando a segurança dos transeuntes. Por isso, em 1935, tomou-se uma decisão simples e radical: demolir a torre! Foi assim que, ao que parece com a ajuda dos bombeiros, foi injetada água nos alicerces de modo a causar a sua derrocada controlada! Convém lembrar que poucos anos antes, em 1933, tinha sido assinada em Atenas a primeira carta internacional para a preservação das cidades e do seu património. Em Coimbra, as autoridades não devem ter ouvido falar disso!

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    Fiquem com a Ana Francisca e com a Joana a prestarem uma homenagem ao património desaparecido de Coimbra. A fotografia, mais uma vez, vê-se mal, ao fundo deveriam ver uma torre medieval, mas veem umas escadas. Para a semana, continuaremos o nosso percurso sobre o património destruído.



publicado por CP às 21:30
Sábado, 13 de Fevereiro de 2016

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   Esta semana fomos ao Centro de Artes Visuais (CAV) visitar uma exposição de um artista australiano chamado Sam Smith, sob a orientação da Catarina. A exposição intitula-se Forma Lenta e é a primeira deste artista em Portugal. Smith nasceu na Austrália em 1980, embora resida e trabalhe em Londres. O seu trabalho incide sobre vários géneros e utiliza diferentes formas para se expressar, como o video, a fotografia, a escultura, a instalação e a performance.

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   Este artista explora, muito especialmente nesta exposição, as relações entre o cinema, a escultura e o espaço arquitetónico. A primeira instalação deste circuito é uma espécie de chave introdutória e explicativa. Uma grelha feita com retângulos que seguram uma fotografia e um aro circular são as formas básicas para abordar a exposição. Deste modo se oferece ao espetador uma ferramenta concetual que lhe vai permitir emoldurar o espaço e os trabalhos que vai visitar, explorando ao mesmo tempo a relação entre a realidade tridimensional e a sua representação fotográfica, naturalmente bidimensional. Afinal, é este mesmo processo que utilizamos quando vemos um filme.

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   Nos filmes, a realidade aparece-nos projetada numa tela bidimensional. Ao longo da história do cinema a moldura da tela não foi sempre a mesma. Ou seja, as proporções entre a altura e a largura do écrã formam diferentes molduras que interferem no modo como o nosso olhar capta a realidade representada no filme. É uma primeira forma de manipulação da realidade. Simplifiquemos: imagina uma fotografia. Se a puseres numa moldura oval dourada ou numa outra moldura retangular com desenhos geométricos berrantes isso não é indiferente pois, ainda que a imagem seja a mesma, o modo como a percebemos é muito distinta, uma vez que as relações que estabelece são diferentes.

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    Ao longo da história do cinema, utilizaram-se telas de projeção (molduras) com diferentes proporções. O primeiro filme que usou atores a desempenhar um papel foi rodado em 1893 por um cineasta chamado Wiiliam Dickinson. Essa cena ficou conhecida como Blacksmith Scene e foi exibida numa tela com uma proporção entre a altura e a largura que foi usada até meados do séc. XX. Esse formato era quase quadrado e tinha a relação de 1.33:1.

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   Desde então até aos nossos dias usaram-se mais três formatos, acentuando sempre o aspeto retangular da tela. Sam Smith apresenta-nos impressões de imagens retiradas dos filmes que pela primeira vez usaram esses diferentes formatos. Aparentemente, elas são totalmente negras mas, quando nos aproximamos e observamos com muita atenção, reparamos em sombras subtis, silhuetas que se descobrem para lá da escuridão. Isto é, há uma realidade não percetível ao primeiro olhar que só se revela quando nos obrigamos a olhar mais detalhadamente. Quer dizer que a nossa vontade manipula o olhar e que os olhos manipulados descobrem realidades ocultas. A realidade muda não só conforme a máquina e a técnica de representação, mas também conforme o enquadramento e, descobrimos agora, conforme o nosso olhar.

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   Na sala seguinte, damos mais um passo nesta viagem proposta pelo artista. Vemos uma máquina que projeta um filme, com aproximadamente 5 minutos de duração, que mostra a máquina que filmou o filme! Confusos? Realmente isto está a ficar um bocado complicado, mas não é mais do que a máquina a filmar-se a si própria, usando para o efeito um espelho colocado à sua frente. A máquina de filmar quase que se personifica, é o protagonista egocêntrico deste filme e nós observamo-la como se ela nos observasse. De vez em quando, aparece um senhor, que deve ser o artista, a manipular a lente da câmara, ajustando a lente e desligando-a.

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   A realidade que nós vemos depende então de uma série de mecanismos e manipulações, não tem existência própria. É como se fosse um jogo de espelhos colocados em frente um do outro e que se refletem permanentemente até ao infinito, construindo novas realidades. Logo o Gonçalo teve uma ideia brilhante: «E se eu fotografar a imagem que a câmara filmou?» É verdade, não fiquem confusos, mas o facto é que a teia se  tornaria ainda mais complexa, pois juntaríamos o Gonçalo, o olho do Gonçalo, a vontade dele e a sua câmara fotográfica a toda esta confusão e, no final, a realidade que obteríamos não seria exatamente aquela que a câmara deveria ter filmado no início disto tudo! Uffff!!

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   Slow Fragmentation é o título de um filme em que o autor manipulou as imagens filmadas de um cenário de um outro filme muito famoso de um importante cineasta francês chamado Alain Resnais. Smith, ao visitar o cenário original do palácio barroco onde esse filme foi rodado constatou que a realidade não correspondia às imagens mostradas na película, ou seja, a realidade tinha sido manipulada. Por isso, utilizando as modernas tecnologias digitais, o artista manipulou as imagens, introduzindo elementos como mãos e um olho gigante, além de uma série de captações por satélite desenhadas sobre uma quadrícula,o  que remete para os processos da cartografia aeroespacial. O olho gigante, sem corpo e colocado no espaço, mostra como é o olhar que produz a paisagem. Na atualidade, as diferentes formas de olhar tecnologicamente, recorrendo ao satélite e já não apenas às máquinas fotográficas e de filmar, produzem realidades e mundos diferentes.

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    Além disso, existe uma estrutura colocada defronte da tela em que o filme é projetado que recorre às mesmas formas básicas daquela instalação inicial, ou seja, um círculo e uma grelha geométrica. Agora podemos ter a experiência real de observar o filme através desta grelha que nos emoldura o olhar e delimita o campo de visão. Demonstramos assim, na prática, que o olhar se submete a muitas circunstâncias e condicionalismos que ajudam a determinar a realidade que olhamos.

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   Negatives 2 é o título de um filme exibido num aparelho de televisão que mostra  um conjunto de estranhas formas escultóricas produzidas apenas para filmar e que foram depois destruídas. Aparentemente simples, este é o processo inverso da escultura clássica. Quer dizer, os escultores, antigamente, representavam uma imagem de uma pessoa em bronze ou em pedra de forma a que a imagem dessa pessoa se tornasse durável, isto é, subsistisse para lá da morte da personagem. Deste modo, na atualidade, conhecemos o rosto dos imperadores romanos de há 2000 anos, por exemplo, uma vez que as suas estátuas em pedra chegaram até nós.

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    Smith faz ao contrário, isto é, produz esculturas não duráveis, uma vez que as destrói, apenas para as filmar, sabendo que o filme digital é imaterial. No entanto, as imagens que ele destruiu perduram no filme que ele filmou e assim penetram na nossa memória de espetadores através do nosso olhar e aí se tornam duráveis. Tal é o poder da fotografia, do cinema e do video!

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   Assim, esta aproximação da fotografia e do video à escultura torna-se muito interessante, tanto mais que no momento seguinte do nosso percurso vemos um conjunto de objetivas de máquinas fotográficas - o tal olho tecnológico que tudo vê e produz novas realidades - que se torna ele próprio durável, ou seja, escultura! É muito engraçado seguir o processo criativo de Sam Smith: eis que temos agora o instrumento usado para olhar feito objeto do nosso olhar! E já repararam no Gonçalo a olhar para a câmara? E lá ao fundo, reparam na grelha sempre presente desde o início?

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   Subimos ao piso superior do CAV para concluir a nossa visita, assistindo a um filme intitulado Form Variations. É um exercício a partir de um plano inicial de um filme de um famoso cineasta italiano chamado Michelangelo Antonioni. Tudo aqui é produzido como se fosse um filme autêntico: tem um realizador, uma banda sonora, um diretor de fotografia, personagens, tudo! Só não há diálogos. E lá nos aparecem os objetos em diferentes situações, emoldurados de maneiras distintas, alguns que vimos na exposição surgem agora colocados em situações novas, as mesmas formas básicas, o círculo, a esfera, as grelhas geométricas como se fossem auxiliares de composição ou linhas organizadoras do nosso olhar. O filme é lento, em câmara lenta, os objetos ganham assim uma forma intrigante, pois que é difícil articular o plano bidimensional do ecrã com a tridimensionalidade que as peças adquirem no jogo de sombras e luz, bem como na combinação dos volumes entre si. Variações da Forma é uma tradução literal do título. Forma Lenta  é o título da exposição. Fiquem com a reportagem da esectv:

 

Nota: este texto foi redigido a partir de um prospeto / guião facultado pelos serviços pedagógicos do CAV. O texto baseou-se ainda na intervenção da Catarina Portelinha que nos guiou e a quem agradecemos a competente preleção. 



publicado por CP às 15:09
Sexta-feira, 05 de Fevereiro de 2016

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   O Instituto Missionário Sagrado Coração localiza-se na rua Padre Manuel da Nóbrega, próximo da escola Martim de Freitas, na zona de Celas. Foi até há bem pouco tempo um seminário dos padres dehonianos. Embora na atualidade ainda pertença a esta ordem missionária, já não é usado como escola. Esta congregação foi fundada por um padre francês chamado Léon Dehon (1843-1925) e dedica-se a várias atividades de teor social e religioso, destacando-se a sua ação missionária de apoio aos mais desfavorecidos nas regiões mais pobres do globo. À entrada da igreja que fomos visitar, inserida no espaço interior do Instituto Missionário, encontrámos um busto do fundador desta congregação.

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   Esta igreja é muito mal conhecida pelos conimbricenses, embora seja avistável de quase todo o perímetro urbano, uma vez que é uma capela privada, localizada, como já se disse, num espaço interior, murado e anexo ao Instituto Missionário. No entanto, tem uma grande importância do ponto de vista arquitetónico e da história das construções religiosas no nosso país, uma vez que foi a primeira igreja a ser edificada de acordo com as conclusões e orientações do concílio de Vaticano II, conforme nos explicou o Padre Eduardo, que muito amavelmente nos acolheu nesta visita.

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   Um concílio é uma reunião de todos os bispos da Igreja, que se encontram para debater questões religiosas que podem estar relacionadas com assuntos de doutrina, da fé ou da organização da Igreja Católica. Ao longo da história, principalmente nos momentos de crise do Catolicismo, têm-se organizado importantes reuniões conciliares. Alguns ainda hoje são estudados pelos estudandes de história, como o concílio de Trento.  O último concílio realizado, e um dos mais importantes, foi o do Vaticano II, que decorreu entre 1962 e 1965. Foi assim designado para se distinguir de um outro, o de Vaticano I, que se realizara no mesmo local na segunda metade do século XIX.

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   Nessa reunião discutiram-se assuntos muito importantes. O mundo vivia uma época de grande transformação e a Igreja não conseguia acompanhar o ritmo dessas transformações. Foi preciso adaptar uma instituição tradicionalista, com quase dois milénios, a um mundo muito diferente. Por outras palavras, abrir o Catolicismo ao mundo moderno. Para isso, reformou-se a liturgia, isto é, o modo de celebrar a missa, abandonando-se o latim na celebração, por exemplo. Por outro lado, o padre passou a oficiar a missa virado de frente para a assembleia dos crentes, valorizando-se assim a presença dos leigos. Estas alterações, apenas algumas de entre as muitas decisões, causaram imensas polémicas. 

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    A nova definição da igreja como uma comunidade de crentes, e não como uma hierarquia de poder, foi a maior novidade deste concílio. O Padre Eduardo lembrou-nos que, na origem, a palavra Igreja significa exatamente isso, uma assembleia de pessoas reunidas com um interesse comum. O Salvador lembrou que temos estado a estudar isso na disciplina de História. Na verdade, Eclesia era o nome dado na Democracia ateniense à assembleia de todos os cidadãos. Ora, este novo conceito exigia uma nova arquitetura que expressasse esta nova ideia. Já não fazia sentido aquele espaço das igrejas antigas, de planta retangular, dividida ou não em naves, como na Sé Velha ou na Sé Nova, em que os crentes estavam todos virados para o altar mor, focados num ponto central. Essas igrejas, tal como numa sala de aula, hierarquizam o espaço, isto é, quanto mais próximo do altar, maior a importância social do crente. Ou seja, não havia uma igualdade entre todos, em rigor, não se tratava de uma comunhão perfeita, pois não existia uma equidistância (quer dizer, uma distância igual) ao ponto central, o sacrário, no altar mor. 

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   Foi então que, por todo o mundo católico, os arquitetos tinham um problema para resolver. Sempre que há um problema há um desafio à criatividade. Em Itália, tal como em outros países de maioria católica, já há alguns anos que se ensaiavam diferentes soluções. Nessa altura, os padres dehonianos, que se tinham instalado em Coimbra com o objetivo de aqui fundarem a sua sede, estavam a pensar construir uma capela para o seu Instituto Missionário, onde formavam os jovens estudantes destinados às missões. Para o efeito, contactaram o arquiteto local Francisco Ramos de Carvalho. Depois de algumas viagens a Itália, onde se inspirou para o traçado deste templo, começaram as obras.

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    O curioso é que as obras decorreram ao mesmo tempo que se desenrolavam os trabalhos conciliares! Por isso, os projetos e as ideias não podiam ser mais atuais e sofreram até algumas alterações, ditadas por discussões que aconselhavam mudanças, ou por causa escassez de meios financeiros. Também por esta razão, esta igreja foi a primeira a ser construída no nosso país seguindo as conclusões e as novas conceções saídas do Concílio de Vaticano II. Tem por isso um grande interesse.

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   Do exterior, observámos logo a sua forma muito peculiar. Trata-se de um cone truncado de onde se projetam até ao topo dez pilares de betão que se unem para suportar uma cruz. O betão, os ladrilhos,  o ferro e o vidro são os materiais modernos usados ao serviço de uma nova espiritualidade para uma Igreja milenar. A convergência dos pilares e a coroação com a cruz têm uma grande carga simbólica, uma vez que apregoam a mensagem universal do catolicismo: a união de todos em Cristo.

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  No interior, confirmamos a planta circular com o altar ao centro. Desta forma, todos se olham em plano de igualdade, e o padre está ao meio, no altar, equidistante de todos e celebrando a missa de frente para todos. É uma nova disposição arquitetónica que reflete as orientações conciliares. Não há altares laterais, nem santos nem elementos distrativos, toda a atenção e todos os olhares se dirigem para o altar, feito de um só bloco de mármore preto e polido. Material raro e valioso, é a peça mais valiosa da igreja e representa a centralidade de Deus, reforçando a ideia monoteísta, como que regressando à essência do Cristianismo.

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   Em redor do círculo, sustentando a cúpula e as paredes, distribuem-se dez colunas revestidas com tijoleira, simbolizando os Dez Mandamentos. Evocam também a Casa de Deus, já que nos tempos primitivos, as tribos nómadas do deserto não tinham templos permanentes, pois andavam sempre de um lado para o outro. Por isso, para adorarem a Deus, montavam uma tenda com umas poucas de estacas e uma cobertura de pano, tal e qual como se fosse uma tenda de campismo. É exatamente esse aspeto de tenda, como se fosse uma Casa de Deus originária e humilde, que o arquiteto quis reproduzir.

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   Quanto à decoração interior, os elementos são reduzidos. Não existem capelas laterais, nem dourados, nem vitrais coloridos, nem pinturas. O que existe é o essencial e disposto ao nível do olhar: um crucifixo atrás do altar, uma escultura da Virgem, ambas em madeira, descoloridas e delicadas, com detalhes muito realistas. Além disso, um conjunto de altos-relevos representando a Via Sacra, dispostos aos pares ao longo da parede. Disse-nos o Padre Eduardo que são da autoria de uma freira italiana, cujo nome não se conseguiu lembrar, e que se caracterizam por uma grande modernidade artística.

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   Já perto do final da nossa visita, tivemos ainda tempo para umas fotografias e para admirar os bastidores da sacristia, bem como o sacrário, que reproduz, em miniatura, o aspeto exterior da igreja. Despedimo-nos do Padre Eduardo, agradecendo a sua hospitalidade, e convidando os nossos leitores a visitar esta igreja. Talvez consigam chamar a atenção para a necessidade de recuperação das paredes exteriores, pois os ladrilhos estão a soltar-se, caídos no chão. Adeus, bom carnaval e até à próxima visita!

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publicado por CP às 22:24
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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