Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2016

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   A Casa da Escrita localiza-se na rua Doutor João Jacinto, na Alta da Cidade. Pertence atualmente à Câmara Municipal, mas tem uma longa história. O palacete foi construído nos finais do séc. XIX para uma família nobre que, no entanto, nunca a chegou a habitar. No frontispício do prédio ainda hoje se exibe o brasão. A casa foi comprada por um professor da Faculdade de Medicina, que foi igualmente médico da Casa Real, chamado Doutor João Jacinto da Silva Correia. A rua onde se localiza a Casa da Escrita ostenta atualmente uma placa toponímica com o nome desta individualidade e, no interior, numa das salas, pode ver-se a borla e o capelo deste lente. Este senhor era o bisavô do poeta João José Cochofel (1912-1982) que herdou a casa e aqui habitou até à sua morte. Em 2003, a Câmara decidiu adquiri-la e colocá-la ao serviço da cidade e da cultura.

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   A partir desse ano, a casa, até então designada popularmente como Casa do Arco, já que existe um arco que passa sobre a rua vizinha, passou a chamar-se Casa da Escrita. O projeto de recuperação foi da autoria do  arquiteto conimbricense João Mendes Ribeiro que tem visto esta sua obra muito elogiada, sendo até frequente a vinda de visitantes que a procuram para admirar o trabalho arquitetónico. Porém, a casa foi pensada para acolher eventos culturais relacionados com a escrita: tem uma biblioteca especializada, aqui se realizam conferências, encontros com escritores, lançam-se livros, debatem-se assuntos literários e há igualmente uma residência para receber escritores, particularmente refugiados que, por serem perseguidos nos seus países de origem, são obrigados a exilar-se. Aqui têm então um abrigo seguro, ainda que temporário, como é lógico.

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   Recentemente, no dia 28 de novembro de 2015, esta instituição recebeu um evento que muito a honra. Na verdade, Eduardo Lourenço, um dos mais importantes pensadores portugueses contemporâneos, doou parte da sua imensa biblioteca, que possui milhares e milhares de livros, à Casa da Escrita que, para este efeito, reservou um espaço no piso térreo que nomeou justamente com o nome desta personalidade. Foi exatamente aqui que iniciámos a nossa visita, guiados pelo João Rasteiro.

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   O João contou-nos uma história muito engraçada a propósito desta grande figura. Eduardo Lourenco, que conta atualmente 92 anos, chegou a frequentar esta casa quando era jovem estudante e quando ainda era habitada pelo poeta e proprietário João José Cochofel. Como era muito jovem e ainda não era um autor consagrado como é na atualidade, os amigos do dono da casa, todos grandes nomes das artes, da literatura e da cultura, mandavam-no brincar para o jardim quando queriam debater assuntos reservados. 

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   João José Cochofel nasceu e estudou em Coimbra, concluindo os seus estudos na Faculdade de Letras. Destacou-se na vida literária como importante vulto do chamado movimento neo-realista, fundando várias revistas, especialmente a Vértice. Colaborou ainda em muitas outras publicações periódicas, escrevendo igualmente muitos ensaios, críticas literárias, textos de intervenção, além de, claro está, muitos e bons poemas. Como era um homem rico e abastado, contrariamente aos seus companheiros, aqui recebia os seus amigos para longos serões literários e culturais. Liam livros proibidos pela ditadura, debatiam ideias, afinavam estratégias políticas, alimentavam longas polémicas literárias que ficaram famosas na história da literatura portuguesa do século XX.

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  Por aqui passaram muitos intelectuais, políticos e artistas, como Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, Paulo Quintela, Miguel Torga, Vitorino Nemésio, Fernando Lopes Graça, Michael Giacometti, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Alves Redol, Bissaya Barreto, ou Mário Soares, apenas para citar alguns. Ah!, é verdade, e o Eduardo Lourenço que estava a brincar no jardim!

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   O jardim é na verdade muito bonito e aprazível. Quem passa na rua não adivinha que, nas traseiras deste palácio, existe um pátio tão agradável. E o melhor é que está aberto ao público para ler, estudar ou simplesmente descansar. Há internet grátis, podem usar o salão no último piso, requisitar os livros da biblioteca ou simplesmente estudar. Também podem namorar, daqui a uns anos e nos intervalos do estudo, claro!

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    Aqui, há uma cisterna que nos chamou a atenção. Aliás, este depósito de água, tal como as laranjeiras, bem como os recantos e os canteiros perfumados do jardim, evocam, ainda que vagamente, a memória mourisca da Alta da Cidade. Um dia, fica prometido, reservaremos um passeio para  reavivar o que resta do património de Coimbra herdado do tempo da ocupação muçulmana. Como estava um pouco chuvoso e a visita se aproximava do fim, regressámos ao interior. Subimos ao último andar e notámos, mais uma vez, as belíssimas peças de mobiliário que se distribuem por toda a casa. Algumas são do traço de Mendes Ribeiro, outras são de fabrico nórdico, adquiridas por sua indicação, e outras foram desenhadas por Siza Vieira, o mais famoso e premiado dos arquitetos portugueses contemporâneos. É o caso desta magnífica cómoda: 

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   O tempo estava mesmo a escoar-se, pois ainda tínhamos que descer até ao Largo da Portagem e apanhar o autocarro. No entanto, ainda subimos até ao sótão, onde foi construída uma bela sala de leitura, bem iluminada e confortável. Passámos pela residência reservada aos escritores e depois descemos de regresso à receção, onde nos despedimos do João, agradecendo a sua amabilidade e simpatia. Vale a pena agora desafiar os nossos pais e familiares para aqui virem. Pode ser na primavera, um sábado de manhã. Os adultos lêem o jornal num dos bancos do jardim e as crianças folheiam um livro. Vale a pena visitar a Casa da Escrita!

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publicado por CP às 17:48
Terça-feira, 19 de Janeiro de 2016

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   Faltam alguns, mas é como se estivessem. Vale a pena guardar esta memória de uma tarde bem passada. 

 

   Adenda no dia 20 de janeiro: Mais uma fotografia, agora com o grupo todo e em plena conversa.

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publicado por CP às 19:18
Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2016

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    Hoje foi aquele dia por que tanto ansiámos! Foi tão falado, foi tão prometido que se tornou desejado. Conhecemos o Rui Chafes! Ou melhor, conversámos longamente com ele. Como sabem, nas últimas semanas, temos andado envolvidos na dinamização de uma visita guiada à exposição de Rui Chafes e Pedro Costa no Museu Machado de Castro. Quem segue o nosso blogue sabe ainda que, na última semana, a Magda nos acompanhou numa visita pelas galerias do criptopórtico onde estes dois artistas contemporâneos montaram a mostra que intitularam Família. Nessa ocasião, ficámos a saber que havia a possibilidade de Rui Chafes se deslocar a Coimbra para se encontrar connosco. Ficámos radiantes! Hoje foi esse dia!

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   Antes do encontro, passeámos pelo Jardim da Sereia, admirando as obras do escultor por aqui dispersas. São muitas e intrigantes: umas, penduradas nas árvores, tanto se confundem como se destacam das ramagens e dos troncos, são objetos indecifráveis que pairam no ar, como se resistissem ao tempo, vindos de outra dimensão; outros, anéis gigantes de ferro, abraçam as árvores, definindo um círculo interior que nos atrai tanto que dá vontade de saltar lá para dentro. Foi o que fizemos e, uma vez no interior do perímetro de ferro, até parece que assumimos uma nova identidade, construída pela inclusão no espaço traçado por aquela estranha cintura metálica.

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    O que mais nos perturbou, no entanto, não foi o mistério criado pelas obras do artista. Essa característica é, como viríamos depois a saber, um dos efeitos intencionais do Rui Chafes. O que mais nos incomodou foi o facto de estas obras de arte estarem tão mal tratadas! Sujas, abandonadas, grafitadas,..... Decidimos logo ali que este seria um dos temas a levar à nossa conversa com o autor. Descobrimos depois que ele guarda uma mágoa grande pelo desleixo a que estão votados os seus trabalhos. Fazemos aqui um apelo às autoridades municipais: olhem pelas obras do Rui Chafes! Ele até recebeu o prémio Pessoa 2015! Que ao menos isso sirva para lhe darem um pouco mais de atenção!

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   Claro que os primeiros responsáveis pela degradação são os autores destes atos de vandalismo. Isto é imperdoável! Só por ignorância é que se pode fazer uma coisa destas. Discutimos longamente este assunto: todos concordámos que o grafito é uma forma de expressão artística, isso não está em causa. No entanto, há que distinguir a arte do grafito - ainda na semana passada nos encantámos com alguns trabalhos de Banksy - desta rabiscada destrutiva, poluidora e desrespeitadora! É preciso educar, punir e preservar. Quem pode fazê-lo que o faça!

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   Já nas instalações do CAPC no Jardim da Sereia, muito bem acompanhados pela Magda, pela Catarina e pelo Carlos Antunes, falámos de muitas coisas com o Rui Chafes. Inicalmente o ambiente estava assim um pouco frio porque a vergonha não nos libertou. Mas, a pouco e pouco, lá fomos colocando as nossas questões. Além dos temas já referidos, conversámos sobre o conceito de património, sobre a importância da educação artística e sobre a exposição Família. O Rui falou-nos do criptopórtico romano, da relação daquele espaço com a exposição. Percebemos que não é indiferente uma peça ser exibida num local com quase dois mil anos de história, carregadinho de memórias, ou num local como a galeria do CAPC, moderno, aberto e iluminado.

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   Conversámos sobre a importância dos títulos nas obras de Rui Chafes. São sempre tão estranhos! Explicou-nos que evita uma correspondência direta entre as formas e os títulos, achando que assim introduz uma carga poética acrescida nos seus trabalhos. O artista não deve, ainda segundo Chafes, explicar a sua arte pois, se o fizer, ela torna-se desnecessária. Cada um tem direito a dialogar à sua maneira com as obras de arte. Ainda discutimos o que é que se deve entender por obra de arte. Bom, é um assunto complicado! Não é fácil estabelecer uma fronteira entre o que é ou não é arte. O Rui Chafes explicou-nos que, antigamente, os académicos faziam uns desenhos e umas estátuas ("nunca fiz uma estátua" - disse) muito direitinhas e bonitinhas. Mas, a modernidade foi demolidora, autênticamente demolidora, para esses critérios, pelo que a questão de saber o que é que define uma obra de arte se tornou central.

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   Quer isto dizer que tudo pode ser arte? Que qualquer um pode ser artista? Não, respondeu o Rui, não vamos tão longe. Arte, em grego, dizia-se techné, o que remete para uma técnica. Ser artista exige trabalho, muito trabalho, estudo, reflexão, um percurso biográfico ("trabalho nisto há mais de 20 anos"), reconhecimento, tentativas, experiências. "Por que é que não somos todos engenheiros civis?" - perguntou provocatoriamente. Ser artista é exercer um ofício com alguma coisa especial mas que também tem exigências comuns a todos os ofícios. Exige estudo, aprendizagem, trabalho, rigor, como todas as profissões. Mesmo quando o artista evita qualquer primor técnico, pondo uns rabiscos numa tela por exemplo, não se deve equiparar esses rabiscos aos de uma criança. Aquelas pessoas que, num museu de arte contemporânea, comentam esse despojamento técnico dizendo que o filho de meia dúzia de meses também era capaz de fazer aquilo, não apenas desprezam o conceito e o caminho que levou o artista até àquela realização como, mais grave, se fecham ao diálogo com a obra de arte e rejeitam o universo simbólico que o autor pretendeu levar até elas!

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   De seguida, falámos do percurso individual do Rui Chafes. Ficámos a saber que na infância queria ser veterinário e que, aí pelos 17 anos, decidiu ser escultor. Inspira-se em tudo. Está sempre atento, observa tudo. Vê, ouve, lê, escuta, olha, anota, fixa, memoriza, repara e regista. É um ladrão, reconheceu. Calma! Antes de chamar a polícia é melhor perceberem o que ele quer dizer com isto de ser um ladrão! O Rui colhe a sua inspiração nas pequenas observações do quotidiano e guarda tudo no seu "armazém dos roubos", disse ele apontando para a cabeça. Lá dentro, guarda todas as memórias e todos os registos que serão depois a matéria-prima dos seus trabalhos.

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   Depois, confidenciou-nos as suas preferências artísticas. Um artista tem que ser um bom conhecedor da história da arte e é natural que possua os seus períodos e autores prediletos. O Rui declarou um favoristismo pela arte gótica, especialmente no espaço germânico, e avançou mesmo o nome de um dos seus escultores preferidos: Tilman Riemenschneider. Vão ao Google, pesquisem e maravilhem-se. Quem quiser conhecer melhor as suas preferências e o seu percurso de formação artística pode ler o texto de uma conferência que, há uns anos, proferiu sobre este assunto. O texto foi publicado e está disponível em qualquer livraria com este belíssimo título: Entre o Céu e a Terra

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   Falámos de outras coisas, nem nos queríamos ir embora. O tempo passou e nós ainda tínhamos perguntas. Mas tínhamos mesmo que ir. Arranjámos ainda uns minutos para uns autógrafos e umas fotografias e despedimo-nos do Rui Chafes. Foi uma conversa excelente. Ele é simpático, inteligente, simples e disponível. Obrigado! 

   Resta lembrar que quem quiser visitar a exposição do Rui Chafes e do Pedro Costa ainda o pode fazer no Museu Machado de Castro. Amanhã de manhã lá estaremos para receber quem nos quiser acompanhar na nossa última visita performativa. Fica o convite: apareçam!



publicado por CP às 18:31
Sábado, 09 de Janeiro de 2016

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   Nesta primeira semana do novo ano de 2016, voltámos ao Museu Machado de Castro para visitar a exposição de Rui Chafes e Pedro Costa intitulada Família. Durante o 1º período ensaiámos e apresentámos uma pequena visita guiada performativa a esta exposição e, no próximo dia 16 de janeiro, faremos ainda uma terceira e última apresentação. Já conhecemos muito bem este espaço mas desta vez, conduzidos pela Magda, tivemos oportunidade de conversar mais demoradamente e visitar a exposição com mais atenção.

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   Começámos o nosso diálogo a partir da projeção de uma imagem do célebre quadro de Théodore Géricault (1791-1824) intitulado A Jangada de Medusa, que está exposto no Museu do Louvre, em Paris. A Magda contou-nos a história que serviu de inspiração a esta famosa tela e, a partir daqui, demos um salto para uns grafítis de um artista contemporâneo muito conhecido e enigmático, pois que não se sabe quem é, que assina os seus trabalhos com o nome de Banksy. De entre os vários trabalhos que o celebrizaram, espalhados um pouco pelas paredes de todo o mundo, analisámos uns que produziu recentemente na cidade francesa de Calais, onde se têm acolhido muitos milhares de refugiados a aguardar autorização de entrada no Reino Unido.

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   O confronto entre as duas obras levou a nossa conversa para rumos surpreendentes. Por um lado, não conseguimos evitar a comparação entre os dois momentos em que os trabalhos foram produzidos, mostrando que o nosso tempo não se pode desligar do passado e que, por isso, a arte contemporânea estabelece pontes com os tempos idos, obrigando-nos a refletir de forma mais aprofundada acerca do nosso mundo e das relações entre o passado e o presente. À medida que a nossa conversa se foi desenrolando, alguns de nós iam selecionando, de entre um monte de cartões contendo diversas palavras, as que se enquadravam com a nossa reflexão: Contemporâneo, Presente, Trabalho, Passado, Vida, Atenção, Ver, Olhar. Vendo bem as coisas, e considerando as palavras escolhidas, a nossa conversa não andou muito desviada das preocupações do nosso tempo e ajudou-nos mesmo a compreendê-lo um bocadinho melhor. Afinal, a arte não é uma coisa inútil, nem é uma relíquia dos museus!

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   Chegados aqui, ainda mais perturbados ficámos quando a Magda nos mostrou outro dos grafítis de Banksy em Calais que retrata o célebre Steve Jobs (1955-2011). Inicialmente ficámos surpresos, tanto mais que alguns de nós nem sabiam quem era este senhor, mas quando a Magda nos disse que era o fundador da Apple, a empresa que criou os iphones, os ipads e tantos outros aparelhos tecnológicos que são símbolos do nosso tempo, logo nos interrogámos: «mas o que é que isto tem a ver com a nossa conversa?» Tudo parecia meio absurdo até que a Magda nos revelou que este senhor era filho de um refugiado sírio! Assim, de repente, tudo ganhou sentido, um sentido perturbador! Ou seja, um dos homens mais influentes do nosso tempo tem um passado de refugiado o que permite analogias óbvias com a atualidade e suscita interrogações perturbadoras acerca da crise dos refugiados e dos preconceitos com que muitas vezes olhamos para essas pessoas que, tentando escapar à morte na Síria, buscam proteção na Europa.

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   Percebendo a complexidade das relações entre o passado e o presente na construção da nossa identidade, analisámos de seguida uma magnífica escultura de Bernini (1598-1680), intitulada Apolo e Dafne. Segundo a lenda da Grécia antiga, o deus Apolo, famoso pela sua beleza, foi enfeitiçado e condenado a perseguir uma  ninfa chamada Dafne que, por sua vez, também fora condenada a repudiar o amor de Apolo. Temos então uma situação estranha: Apolo a perseguir Dafne e Dafne a fugir de Apolo! Foi então que a rapariga, vendo-se alcançada pelo deus, suplicou ao seu pai que a socorresse. Este, que também era um deus, vendo que Apolo já tocava os cabelos da filha, enfeitiçou-a, transformando-a num loureiro no exato momento em que Apolo a tocava. É esse instante que Bernini esculpiu em mármore quando tinha somente 24 anos!

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    Esta obra de arte é uma das preferidas de Rui Chafes que sobre ela escreveu: «Bernini dedicava-se à ousada realização do impossível: captar o segundo mágico em que um corpo jovem e quente se transforma numa árvore imóvel. (...) só houve, até hoje, um artista capaz do assombro de captar esse preciso segundo da transformação da pedra em vento: Bernini.» Conhecida esta admiração de Chafes por Bernini, e sabendo como o escultor considera a importância do passado na definição da sua identidade artística, podemos apreciar de outro modo as relações formais entre a escultura de Bernini e a de Chafes que a Magda nos apresentou de seguida e que se intitula Quero Tudo de ti.

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   Após esta conversa, descemos aos subterrâneos do criptopórtico, onde está patente a exposição, que nós já conhecemos, de Rui Chafes e de Pedro Costa intitulada Família. Este é o espaço ideal para prosseguirmos a nossa reflexão, já que a memória dos tempos se romanos cruza com a intervenção dos artistas contemporâneos. Mais uma vez, passado e presente tecem uma malha que nos lança muitos desafios interpretativos. Na parede, Rui Chafes colocou uma espécie de farrapos esvoaçantes, feitos de chapa negra de ferro. Parece que sentimos um vento que não existe e que faz drapejar um material que não drapeja! E tudo fica mais inquietante quando ouvimos o título deste trabalho: Murmúrio... 

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   Nas galerias do criptopóritco sobre o qual há aproximadamente dois milénios se edificou o forum da antiga cidade romana, começa a construir-se na nossa imaginação uma vaga memória feita de formas, sons, silêncios e escuridão. Rui Chafes confessa que, durante a conceção e montagem desta exposição, teve sempre presente a ideia das crianças a correr e a brincar na praça central da cidade. Restam as sombras, os murmúrios, a memória,... Mas restamos também nós, porque afinal somos os herdeiros, os sucessores, das crianças desse tempo! Somos diferentes, este espaço é diferente, mas não existiríamos sem esse passado!

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   Sussurro foi o título que Chafes deu a este outro trabalho, constituído por uma placa ondulada de ferro que parece balouçar, empurrada por uma ligeira brisa (lembram-se de Bernini?). A sugestão suave do vento a percorrer estas galerias tão antigas parece que prolonga a existência desses tempos e das pessoas que aqui viveram. A escuridão, o silêncio e a aragem tornam-se assim parte desta experiência estética. Por isso, foi essencial manter o silêncio durante o percurso, se bem que alguns meninos tenham muita dificuldade em satisfazer este pedido...

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 Cheiras a Guerra é o estranho título desta escultura que parece uma cotonete gigante, como disse o Tomás. Está muito tenuemente iluminada, apenas com um feixe muito fraco, exigindo um esforço de adaptação à escuridão para que possamos distinguir as formas e os contornos. Ao cabo de alguns segundos, começamos então a captar as estranhas impressões que nos marcam o olhar. A esfera superior parece um capacete? Uma bola? A cara de uma formiga? E se olharmos para baixo? Vemos tudo igual só que ao contrário: uma esfera inferior igual à outra! Que estranho!

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   Nas celas do corredor central do criptopórtico, com o ambiente dominado pela escuridão, visionámos um conjunto de fotografias do cineasta Pedro Costa, selecionadas a partir do seu último filme intitulado Cavalo Dinheiro. Na verdade, são sequências de imagens de alta definição projetadas em movimento muito lento. São tão expressivos estes rostos que parecem reais! O relevo da parede em que as imagens são projetadas reforça o realismo de tal modo que, no meio daquela escuridão tão espessa que quase se sente na pele, parece que o sofrimento das figuras nos envolve. 

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   Percorremos depois a galeria do criptopórtico onde estão expostas as peças de maior dimensão. São novamente esculturas de Rui Chafes. Enigmáticas, misteriosas, atraentes,... Parece que chegaram de um tempo e de uma dimensão diferentes e forma postas ali para nos inquietarem. «Parece um par de baquetas gigantes!» - exclamava um. 

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  «Uns suspensórios!». «Nada disso! É uma daquelas coisas que se mete nos cavalos!» «Uma corda esquisita!» «Um caixão!» Enfim, foram muitas as tentativas para identificar estas esculturas de Rui Chafes, mas todas em vão. Não é que esteja mal pois, como disse a Magda, desde que o nosso esforço para dialogar com as obras de artes seja sincero e genuíno, todos os caminhos são possíveis, todos estão certos. Na arte não há caminhos certos e caminhos errados, e muito menos na arte contemporânea!

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    E assim nos despedimos do Rui Chafes. Não é ainda a despedida final, pois que, para a semana, na sede do CAPC no Jardim da Sereia, temos agendado um encontro com o artista! Vai ser inesquecível, o culminar de todo o nosso trajeto com o vencedor do Prémio Pessoa 2015, um dos mais importantes galardões culturais instituídos no nosso país e que o nosso artista venceu no anom que acabou há poucos dias. O facto de ele se disponibilzar para se encontrar connosco enche-nos de orgulho. Até lá, conforme prometemos, temos que pensar numa pergunta para lhe fazer,.... Ah! E não esquecer que, no dia 16 de janeiro, pelas 10:00, temos que estar outra vez no Museu para a última apresentação! Até para a semana!

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publicado por CP às 18:25
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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