Sábado, 23 de Maio de 2015

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Esta semana, recebemos na nossa escola dois amigos novos: o José Cura e o Nuno Cardoso, membros da Secção Filatélica da Asociação Académica de Coimbra que, muito amavelmente, aceitaram o nosso convite para dinamizar uma ação de sensibilização sobre a filatelia.  

Consultando o sítio eletrónico desta secção, laboriosamente construído pelo José Cura, ficámos a saber que comemoram este ano os seus 50 anos de existência, pelo que achámos que era uma excelente oportunidade para os convidar para assinalarmos a efeméride. Feitos os contactos, logos agendámos esta sessão que, na verdade, foi uma animada aula filatélica.

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 A Secção de Filatelia da AAC foi fundada em 1965 por um grupo de estudantes filatelistas, conforme se pode ler na sua página. Ao longo da sua história  organizaram vários e importantes eventos filatélicos, sendo na atualidade um dos mais importantes núcleos da região Centro do país publicando uma revista, a Cábula Filatélica, que tem uma larga divulgação. Presentemente, conta com mais de mil sócios, embora nem todos estejam ativos, sendo difícil recrutar novos membros junto dos atuais estudantes universitários. Quem sabe se o bichinho da filatelia e do colecionismo não foi hoje introduzido em alguns dos membros do nosso clube.

 

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Quem quiser envolver-se neste mundo é muito bem vindo, podendo frequentar as instalações da secção situam-se no 2º piso do edifício central da AAC na Rua Padre António Vieira. Serão muito bem-vindos e aí poderão trocar selos, participar em eventos e aprender muitas coisas mais.

A filatelia pode ser considerada uma forma de ocupar os tempos livres, ainda que haja muitas pessoas, em todo o mundo, que se dedicam a tempo inteiro a esta atividade. Estes profissionais dedicam-se à compra, venda e troca de selos, carimbos, cartas, portais ilustrados,... A internet é hoje o meio mais utilizado para os filatelistas contactarem entre si, mas continuam a publicar-se catálogos e revistas, a organizar-se eventos, congressos, leilões, etc. Apesar de o mercado filatélicos nacional se encontrar em crise, o que fez diminuir a procura e baixar os valores, a verdade é que há selos que podem atingir preços muito elevados.

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A primeira emissão de selos no nosso país data da década de 50 do século XIX e, desde então, foram já emitidos alguns milhares de selos. Algumas dessas emissões, principalmente e como é lógico as mais antigas, são muito raras e, quando aparecem, atingem valores na casa dos mihares de euros. 

É possível colecionar os selos de diversas formas. Por um lado, colecionar o selos de um país, mas também é muto frequente, colecionar por temas. O José Cura, como informático que é, dedica-se a colecionar selos de todo o mundo alusivos aos computadores, enquanto que o Nuno, sendo licenciado em Matemática, organiza uma coleção dedicada justamente à Matemática.

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 É muito frequente encontrar colecionadores só de selos com flores, animais, minerais, bandeiras, etc. Em todo o mundo existem os temas mais estranhos e mais específicos! Mas não julguem que os filatelistas só  colecionam selos. Eles colecionam carimbos (marcofilia), marcas postais, envelopes, cartas, postais, flâmulas (carimbos usados para inutilizar os selos e que exibem imagens ou frases), selos comemorativos, catálogos, edições especiais, etc.

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Para colecionar selos é preciso observar algumas regras e cuidados no seu manuseamento, conservação e arquivo. Os nossos convidados ensinaram-se a retirar um selo do envelope. É certo que, nos dias que correm, são já poucas as cartas que chegam as nossas casas pois, para comunicarem, as pessoas, usam outros meios, como o correio eletrónico ou as mensagens escritas. No entanto, há cuidados a seguir para destacar uma estampilha do envelope, recorrendo a uma pequena tina de água. Depois, é preciso secá-lo e arquivá-lo, preservando sempre a serrilha. Em todo este processo é preciso ter muita cautela, pelo que se recomenda o uso de uma pinça para segurar e transportar os selos.

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Os selos podem ser arquivados de várias maneiras, havendo quem prefira criar os seus próprios álbuns, enauanto outros preferem adquirir folhas de catálogos, como se fossem uma espécie de cadernetas de cromos, onde depois colocam o selo numa tira prórpria com uma capa de plástico transparente que preserva o selo. Podem ser organizados cronologicamente, tematicamente, ou por qualquer outro critério. Um bom filatelista, dedica-se depois a estudar o selo, aprendendo muitas coisas acerca das temáticas que coleciona. Desenvolvem-se igualmente outras capacidades, como a concentração, a capacidade de organização, o método e a curiosidade permanete por saber mais e alargar a coleção.

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 Os nossos amigos ofereceram-nos depois, a cada um de nós, um conjunto de selos. A maior parte eram das antigas colónias. São selos muito procurados, pois, por razões históricas, quando esses países se tornaram independentes cessaram as emissões, pelo que quem se ocupar deste tema tem um universo já encerrado. Além do mais, estes selos eram muito bonitos, pois ocupavam-se frequentemente da exuberante fauna e flora africanas.

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 Naturalmente, mal recebemos o nosso lote, começámos logo a trocar selos uns com os outros. Há sempre um que achamos mais bonito, ou um outro repetido, pelo que é lógico que se gerou logo ali um evento filatélico espontâneo. Depois, ainda fomos convidados a preencher um sobrescrito com o nosso nome e direção, com o compromisso de recebermos depois em casa uma carta com uma surpresa!

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Resta-nos despedir, deixando um enorme agradecimento ao José e ao Nuno, felicitando-os pelo trabalho muito meritório em manterem viva a secção filatélica da AAC e de promoverem esta atividade de forma tão apaixonada. Esperemos que, deste trabalho, saiam alguns futuros filatelistas, tão dedicados  e simpáticos quanto eles! Obrigado!



publicado por CP às 07:27
Quarta-feira, 20 de Maio de 2015

Este é o último post de uma série dedicada a uma visita realizada na passada sexta-feira ao Museu Nacional Machado de Castro. Nessa ocasião, realizámos um itinerário concebido a partir de uma seleção de 18 poemas de João Miguel Fernandes Jorge, escritos a partir das obras do Museu e reunidas num livro recente intitulado Mirleos (Lisboa, Relógio d'Água; 2014). Hoje concluímos a publicação dos poemas lidos pelos membros do clube. Começamos pelo Simão que leu um poema sobre a «Assunção de Maria Madalena», da autoria de Manuel Vicente, um dos representantes da chamada escola de pintura de Coimbra do séc. XVI.

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ASSUNÇÃO DE MARIA MADALENA

Também Madalena subiu a

um céu de amarrotado papel

cimos de densa floresta

já não tem sinal de quem

a pisou. Os cabelos, abrigo casa morada.

Quis demorar mais um dia?

Abraça um Cristo atendimento e repouso

amava o que era seu

e Ele nem sequer no sossego da terra

sonoridade de abandono

espalha cal viva sobre a carne da memória

lenha molhada sobre fogo.

Os cabelos rompem a nudez

flrescem verão inverno, a aranha desce

a janela do peito

do ventre

das pernas - Como te

tratou a vida meu amigo? Madalena

atrai de novo lábios à

presença do que esconde por detrás de

uma nuvem por detrás de uma pedra

em negrume de policromia.

 

 

Sabemos que a poesia de Fernandes Jorge não é fácil. No entanto, devidamente enquadrada, permitiu-nos construir um jogo de sentidos cruzados entre as obras do museu e as palavras poéticas, construindo um itinerário que nos ajudou a conhecer as coleções de outra maneira. Leiamos agora o poema que a  Laura declamou, defronte de uma tela de Garcia Fernandes, datada da década de 30 do séc. XVI:

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SÃO COSME E SÃO DAMIÃO

Cosme e Damião, S. Sérgio e S. Baco - não

escondo estes pares humanos

  - Cosme e Damião, a natureza

morta da medicina

no fundo nada se esconde, lodo que se exila no ar

árduo combate imerso na água

madeira cravada de bolor

eleva-se um insecto

sob os seus élitros descobre-se um par de asas.

Cosme e Damião a faca a maçã prato de estanho jarro

tigela restos de geleia - mesmo às portas da morte

geleia de marmelo - colher de prata

os santos togados de doutor

regressa a natureza-morta ao escoadouro da vida

que é sempre de amarelo antepassado.

 

S. Cosme  e S. Damião são dois santos da Igreja que viveram no séc. II d. C. e foram martirizados nos finais dessa centúria, inícios da seguinte. Eram irmãos gémeos e foram padroeiros da cidade de Lisboa, antes de S. Vicente.  Ainda hoje são objeto da devoção, pois são os padroeiros dos médicos. Como curiosidadade, que atesta bem a popularidade destes santos curadores, basta lembra que o fundador do Benfica, antigo órfão da Casa Pia de Lisboa, chamava-se justamente Cosme Damião! O poema refere S. Sérgio e S. Baco, dois nobres romanos do séc. IV que foram mortos por se negarem a participar em rituais pagãos, uma vez que eram cristãos. A amizade que os unia era tanta, que os consideravam amantes e é ssa união que o poeta evoca para assinalar a ligação igualmente estreita entre Cosme e Damião. Diz a lenda que operaram diversos milagres, sendo fácil aceitar que a sua prática clínica enquanto médicos, mesmo que a medicina naqueles tempos fosse muito incipiente, se pudesse tomar como milagreira. O poema refere-se ainda a um conjunto de objetos e mezinhas que estão pousados no banco junto à cabeceira de um doente. Atrás, os dois santos togados, isto é, vestidos com uma toga.

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A Inês Alexandra apresentou-se um poema defronte do célebre cálice de prata dourada proveniente do mosteiro de Refojos, no Minho. Esta obra, uma das mais importantes da ourivesaria medieval (séc. XII, dos tempos da fundação de Portugal) que se conservaram, é uma das peças mais emblemáticas do Museu. Foi oferecida ao mosteiro por um nobre chamado D. Gueda Mendes, pelo que é vulgarmente designado como cálice de D. Gueda. Na base, tem lavradas quatro figuras que refpresentam os evangelistas. É o motivo do tetramorfo: o leão de S. Marcos, o anjo de S. Mateus, o touro de S. Lucas e a águia de S. João.

 

CÁLICE

Deixou os dedos perderem-se

no tempo que foi o da taça

na juba do leão de Marcos

na asa do anjo que figura Mateus

no ouro que desprende mais brilhos nos cornos do touro de Lucas

para depois sentirem a lonjura na águia de João.

 

D. Gueda Mendes, Senhor que foi

em Terras de Basto nos anos primeiros do reino

ao Abade do Mosteiro de S. Miguel de Refojos, o cálice

fez em oferenda. Quando o vaso doou

ecoaram no Capítulo -

            nenhum santo nenhum sábio

            pode evitar o céu

            desde tempos antigos

            a terra dános um destino

            visto haver vida há que morrer

 

E os dedos demoraram no relevo da prata dourada.

 

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Para concluir, a Inês de Maria leu-nos um poema sobre uma naveta de prata dos finais do séc. XVII. Era um objeto utilizado nas cerimónias religiosas que remetia diretamente para a vivência marítima dos descobrimentos.

NAVETA

Nau de prata que navega

perdida que foi há

muito a figura de proa.

Queriam então os

portugueses o mar? Um

acto justo que não fosse

malquisto? Queriam?

Conhecimento. A visão

de uma forma, um

sentido que com o tempo

se perdeu: terra

numa figura num

corpo numa voz.

Segredo saudade uma

vida

meia morte quando

a fortuna cava no mar a

vela do regresso

desafia ainda

em descabida fúria e

vagarosa

tristeza homem e

mancebo a embarcar.



publicado por CP às 07:51
Terça-feira, 19 de Maio de 2015

A Maria leu-nos um poema dedicado à diretora do Museu, a Dr.ª Ana Alcoforado. A obra que inspirou este poema é uma Pietá da autoria de Frei Cipriano da Cruz, escultor e frade da Ordem Beneditina que se distinguiu na arte da escultura e a quem a Dr.ª Ana Alcoforado dedicou um importante estudo.

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PIETÁ

O corpo não pertence à mãe

é ainda domínio do filho morto. O

corpo não se refere à natureza do divino

somente ao homem é estreme -

  repouso do erro e ilusão sem os quais

nenhuma arte sabe viver.

No corpo morto do filho não

há som nem forma não há cor nem o

olhar avança pouco a pouco p'

lo interior das coisas. Indiferente

a todo o interesse

 

O corpo morto é agora, ainda mais,

abismo por revelar dos mundos

alvo sempre em movimento. Choro

sem visagem uma vela ilumina

em clarão descuidoso, picado a fumo.

 

A mãe, pertença desse filho no abandono

do corpo -

  na feroz dor reppusa a

natureza que vem do espírito

sem a qual nenhuma arte sabe morrer.

 

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Voltámos a subir as escadarias e chegámos ao andar onde se expõe a coleção da pintura. Escutámos a Laura e a Camila lendo dois poemas. Um relativo à «Senhora da Rosa» e o outro ao célebre Tríptico de Santa Clara.

 

SENHORA DA ROSA

Tem uma rosa nas mãos

cardo

em flor - E a Senhora,

da Rosa

pergunta ao Infante seu Filho

que sorri e estende as mãos

para a rosa dessa rosa E

a Senhora pergunta-lhe - Meu

Filho, e se lhe desse esta rosa

este cardo em flor? E

o Infante sorri, sorri ainda bem

mais. Então a Senhora da 

Rosa tirou do seu colo a rosa e

deu-a

àquele

que de rude saial

e de trapos por

manto lhes guardava a imagem

para um tempo sem fim E o 

belo incendeia -

 

  com uma rosa entre os dedos

cardo por florir

 

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TRÍPTICO DE SANTA CLARA

Oh cidade, torre, escura muralha,

adormecida cidadela - à meia-noite vem a

veladora do mosteiro defendê-la. O ouro da

custódia na mão direita

o báculo, que nem espada, na outra mão. Sustêm

os mamelucos o assalto. Em fuga transfixam-

-se em porco, fera que cegou de gordura, estraçalham

retouçam caminhos junto ao rio.

E no mosteiro

em eco

um bater de alpercata de moiro, assim para rapaz

de meia escarlate, saio branco a adejar

largava-se levado, tesão de gume de foice

queria fazer bonito - Vossa

Mercê é servida? Esta laranja de Fez, esta

romã de Granada? O vermelho dessas pernas

preso à tábua de mais vulto, sustância

ardor rodeiam a alba das monjas de Santa Clara.



publicado por CP às 00:25
Segunda-feira, 18 de Maio de 2015

Santa Catarina foi uma mártir cristã, falecida no séc. IV, que viveu em Alexandria, no Egito. Famosa pela sua inteligência e capacidade argumentativa, distinguiu-se, segundo a lenda, por converter à fé cristã, todos aqueles que a escutavam. O poema que a Bárbara leu alude a um episódio em que Catarina recebeu na cela em que foi aprisionada 50 sábios para discutirem consigo as questões da fé, confrontando os deuses pagãos com as revelações da doutrina cristã. Diz-se que os sábios sairam convertidos e vergados à argumentação da santa que seria depois martirizada numa roda que se quebrou no momento decisivo. Por isso, Santa Catarina é sempre representada com uma roda quebrada. No poema referem-se também Diotima de Mantineia e Hipathia de Alexandria, duas sábias mulheres seguidoras da filosofia platónica.

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 SANTA CATARINA

Com descuido

Catarina de Alexandria

laçõ não bem atado marca

a cita e os seus passos.

No singelo do rosto

o grau de tudo exagera - 

  o de converter 50

à nascente religião, em entrega

obsessiva. Sentada no toro, no

pátio varrido pelo bem e o mau

tempo falou, inspirada em

Diotima e na conterrânea

Hipathia, que lhe seria futura.

Os onceiros espiavam e

um cachorro aguardava festa

de suas mãos.

Um resto de roda pode ver-se.

Roda ponteada a ferros em que

foi martirizada - raio

divino a quebrou. Por último, a

espada cortou-lhe cerce a raiz do

pescoço - em vez de

sangue, leite. E o mancebo no

devagar da ligeireza do golpe, o

pobre num imaginar desarazoado

- escutador, quem sabe, de

muito do seu saber -

calou, lamentoso, num arrepio

- A última rosa do verão

 

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O Guilherme Ribeiro leu um poema intirulado «Cristo atado à coluna». A obra está colocada sob a famosa Capela do Tesoureio e forma um conjunto com uma escultura de Maria Madalena. As obras em calcário estão já muito corroídas pelo tempo, facto a que o poeta se refere logo nos primeiros versos.

 

Desfazem-se

Em drama e corrosão. A par, Jesus,

Madalena. nem uma nuvem

no céu de maio.

 

A colheita do outono

serviu de alimento, terminou há muito

se houvesse sobejo fazia um vestido

camisa de linho

 

Para onde olha Maria Madalena, quem

ouve o olhar do falcão?

Não quero molestar-te com

desrazão, será justo o cobrador

levar-me em impostos

vestido, camisa de linho, o trigo

que nem sequer sobrou da colheita do outono?

O mais árduo

é a conquista ao mar e à terra

da história por cultivar

 

fácil, perdê-la

o frio cai entre os ombros

escorre das costas pelo corpo todo

enfiada de corda, zunidode arame que solta

no ar, um ar de temor um rilhar de mandíbula

 

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Descemos depois a um dos pisos inferiores, à sala da escultura em madeira, para ouvor a Tália ler o poema consagrado a duas esculturas em madeira, datadas dos inícios do séc. XVII. Desconhece-se o seu autor, foram originalmente coloridas mas depois foram pintadas de brancos, parecendo que são de pedra. No poema cita-se o pintor espanhol do séc. XVII Francisco de Zurbarán, famoso pelas suas pinturas de santos. Podes explorar um pouco sobre este pintor, pois vale a pena.

 

SÃO PEDRO E SÃO PAULO

Não há acordo sobre o dia

exacto em que foram erguidos

Erguer é o verbo que

elevou as figuras de

esquálida alvura. Nem o

nome do escultor que

os compôs -

  Pedro e Paulo, apóstolos,

sombras movem na

parede as mãos, cabeças,

longos dedos. Zurbarán,

gostaria de os tomar por

modelo, julgá-los-ia

gente viva se os visse

num pueblo estremenho, dir-

-lhes-ia: «Que quereis? Por

ali vai o caminho.»

Pedro e Paulo, numa voz

branda e branca

«Dá-nos guarida em tua casa

Não temas o aspecto nosso. O

que sofre desperta sempre

suspeita. Oxalá pudéssemos

dizer-te que espécie de gente

somos. Dá-nos

trapo de linho para sarar os

pés que sangram.»

Nunca se cruzou com eles

em qualquer ermo da vida.

Por isso Francisco de

Zurbarán não pintou S. Paulo,

em isolada tela no seu

Apostolado, nem

os terá alguma vez

percebido, em miragem, em

dia em que

as feras fogem do

braseiro do sol -

  no âmago das formas ficou

esquecida uma data, 1603

  - é sempre demasiado

tarde para escutar os vivos, a

morte está a caminho, por

palavras, por pedras

por palavras.

 



publicado por CP às 07:55
Domingo, 17 de Maio de 2015

A Virgem da Anunciação é uma das mais intrigantes obras do Museu, pois desconhece-se o seu autor que, por isso, é designado por Mestre dos Túmulos Reais, uma vez que os especialistas identificaram a sua colaboração nos trabalhos de escultura dos túmulos de Afonso Henriques e Sancho I em Santa Cruz. Esta obra é originária da Sé Velha e representa a Virgem ajoelhada com o livro de orações  (davnen), no momento em que o anjo Gabriel anuncia que ela irá conceber o Menino. O anjo é «O Mercúrio dos hebreus», pois tal como este deus romano, também ele é um mensageiro. Há quem diga que esta peça fazia parte de um conjunto que teria o anjo. O Salvador leu o poema relativo a esta escultura.

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VIRGEM DA ANUNCIAÇÃO

Poeira branca desfaz-se sobre a erva.

No escavado do corpo a oração. À sua frente, Gabriel, o anjo, é uma

pagela de pedra. Círculo de

laço que prende Gabriel, Mercúrio dos hebreus, ao davnen matinal de Maria

anúncio de maculada presença

sorvo a sorvo, no oco do corpo, no fosso

da pureza da pedra. Erguia-se a

alba. A mensagem golpeia, dissolve-se no vento.

 

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O André declamou o poema dedicado à Lactação de S. Bernardo. É um conjunto escultórico da autoria de João de Ruão que narra a cena em que S. Bernardo de Claraval é beneficiado com um jacto de leite da Virgem que amamentava o Menino. Esta lenda procurava explicar o carisma e a inteligência brilhantes de S. Bernardo que beneficiava dos favores e da proteção da Virgem. No Museu existe, na secção de pintura, um quadro alusivo a esta mesma cena, da autoria de Josefa de Óbidos. Bernardo foi o fundador da abadia de Clairvaux (Claraval), em França, e da Ordem de Cister. Esta ordem foi muito importante na história de Portugal, estabelecendo-se desde a fundação no território. Alcobaça foi o seu mosteiro mais importante.

 

LACTAÇÃO DE S. BERNARDO

Bernardo, ausente em meia morte como se dormisse.

Ao redor dos olhos

desenhavam-se círculos,

tornavam-no estranho, em Clairvaux, junto dos monges.

De fadiga, passou as mãos entre os cabelos

esfregou os olhos, para arregoar desperto - Tenho

fome. E a Virgem, enquanto o Menino lhe

puxa uma trança, a Virgem,

com modéstia e rubor

calava o que dava

o peito lhe oferece.

 

A gota de água dilui-se no vinho e

toma do vinho o gosto e a cor

a ferro que ruge em fogo se parece e

a forma primeira perdeu.

O ar na claridade cintila -

  também o leite que bebeu foi vermelho sangue E o

Menino pulava agora por todos os lados

feroz animal, da África e das

Índias, para abreviar o

instante, escondia-se na distância do pensamento.

 

Em Clairvaux, rezadas as vésperas, apurava-se, vindo

do claustro, um chinfrim de pássaros.

 

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O poema lido pela Ana Margarida evoca-nos S. João Batista, primo de Jesus, eremita do deserto, que O batizou no rio Jordão. A escultura é da autoria de João de Ruão e apresenta o santo vestido com uma pele de animal, com um livro e uma ovelha ao colo, seus símbolos iconográficos frequentes. S. João foi decapitado a mando do rei Herodes para satisfazer um pedido de Salomé, uma bela bailarina que o encantou com as suas danças e pediu a cabeça do santo numa bandeja, como recompensa pelo momento propiciado ao rei. 

 

SÃO JOÃO BAPTISTA

Como a princesa está bela esta noite

ela dança, desliza

quando o estio se perde no fruto maduro

ela dança, branca num espelho de

prata e desce

no desvairo do seu fulgor, pródiga, pelos

campos onde o homem não habita

 

Vejam Salomé - a

palidez, parece mulher morta -

  como embeleza a noite, ela dança para

o tetrarca, ela dança para João

para que seja seu o corpo branco de

João -

  nem o lírio dos prados cegado p'la

foice nem a neve dos montes nem os

seios da lua sobre as vagas do mar, coisa

alguma é tão branca como o corpo de

João

 

A princesa da Judeia dança. Quer

a voz de João, junco

sobre negras cavernas e num

instante retoma o fruros de dragões - a

sua carne deve ser de frio marfim

e os cabelos de João, bagos de uva

que pendem das vinhas dos vales de

 

Edom. Ela dança. P'los

seus lábios, granada que

uma faca de ouro

cortou, bago de romã dos jardins de Tiro

 

  Dança para mim Salomé

tudo o que me pedires, metade do meu reino

 

  Dêem-me neve a comer

esse fogo. Quero que me

tragam o mês mor de orvalho

a cabeça de João

 

Tem sabor a sangue o amor

 



publicado por CP às 09:16
Sábado, 16 de Maio de 2015

Continuando a apresentação dos poemas de João Miguel Fernandes Jorge inspirados em peças do Museu Machado de Castro, apresentamos hoje os textos lidos pela Francisca, pelo Tiago e pelo José Carlos.

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ANJO ATLANTE

São dois, os anjos.

Que peso suportam os ombros?

Vestidos de flor de roseira

no bater do coração, à espera de folgar

 

próximos, logo distantes.

De madrugada, quando a lua se esconde e

o músculo das espáduas se derreia

os dois, a par

 

que eram moços, que noivavam, que

iam por abismos num sem querer

 

um ano em outro se desdobra

num jeito rapaz de querer passar à frente

de transparência em transparência

vivos, impuros

 

Este belo poema inspira-se em dois anjos esculpidos pelo famoso Mestre Pero, no séc. XIV, que conservam ainda muito vivas as cores originais com que foram pintados, bem como as rosas a que o poeta alude. Chamam-se atlantes porque nos tempos da Grécia antiga, Atlas era a divindade que segurava o mundo nos ombros. Estes anjos são provenientes do convento de Santa Clara-a-Velha e eram mísulas, quer dizer, sustentavam uma estrutura pesada da arquitetura do edifício, daí o nome atlantes.

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O Tiago leu um poema dedicado a Santa Ágata. A escultura de Mestre Pero mostra a mártir, natural da Sicília, a exibir os seios, uma vez que lhes foram cortados como castigo por não renegar a fé cristã. Diz a lenda que Ágata, que viveu no séc. III e era natural de uma região da Sicília chamada Catânia, foi morta depois de ter sido submetida às mais humilhantes condenações, como ter sido enviada para uma casa de prostituição («prostíbulo»). Por fim, conforme relata o poema, o cônsul Quintiliano mandou matá-la com brasas ardentes numa cela da prisão. Diz-e que o Etna, vulcão da Sicília, entrou em erupção. Esta estátua veio de uma capela de Avelãs de Caminho, localidade próxima de Anadia. O culto de Santa Ágata foi muito popular na Idade Média, tal como outras mártires do Cristianismo primitivo, como Santa Comba, que tem uma estátua mesmo ao lado desta.

 

SANTA ÁGATA

Veio de Avelãs de Caminho a

sedutora Ágata, a pisar

carvões ardentes. Traz num

prato os seios cortados. Mestre 

Pero deitou-lhe a pedra

escorridos

sombrios cabelos, magoado olhar,

beleza da Sicília, sua terra. Entrou

num prostíbulo, não em Avelãs de

Caminho, mas em Catânia, por se recusar

aos deuses e aos desejos

do cônsul Quintiliano. Por ela, o Etna

fez tremer a ilha toda. 

Mestre Pero deu-lhe esse jeito ao

andar, grácil, sobre o ardor do

carvão. E os seios, 

aureolados de sangue, mordiam na

carne viva, como se felizes dissessem

- A morte é uma prenda de ouro

jeito de dormir profundo E

Ágata se fez ao martírio de Avelãs de

Caminho até Mirleos de Coimbra

com seu vestido rosa-chá pisava a

doença de deus

seguia para o que quiser.

 

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O José Carlos leu um poema inspirado num anjo heráldico, isto é, um anjo que segura um brasão de Portugal. O escudo das quinas, juntamente com a esfera armilar, indicam logo que se trata de uma escultura do tempo do rei D. Manuel I, ou seja, do primeiro quartel do séc. XVI. É da autoria de Diogo Pires-o-Moço e provém do Mosteiro de Santa Cruz onde, na fachada, fazia um par com um outro em tudo igual que se encontra atualmente no núcleo museológico visitável nos claustros dessa igreja. Em cada um dos lados do saio, o anjo exibe uma corda  que, embora não se veja na fotografia, é referida no poema.

 

ANJO HERÁLDICO

As armas do reino entre as mãos. A

esfera armilar aos seus pés. Geminado anjo - o

seu igual permanece na frontaria de Santa Cruz.

Cordame de navegar ata-lhe o saio. Pesada barca

no campo da noite.

À luz da aurora as velas ondeiam a fazer sua

nossa dor de hoje

- outra vez sol outra vez as trevas - que nos

espera ainda?

cresce a tormenta, as mãos caem em abandono

a pedra de armas num chão de fogo desfaz-se em

pedaços. Um tremor nos lábios. A

face perdeu-se de triste. As asas romperam

a procela dos céus.



publicado por CP às 20:54
Sexta-feira, 15 de Maio de 2015

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Mirleos é o título do mais recente livro de poesia de João Miguel Fernandes Jorge. É um título estranho, mas o autor explica, numa nota prévia, que é uma «palavra composta de dois elementos latinos: mirus, com o sentido de maravilhoso ou surpreendente, e letum, que significa ruína. Admiráveis ruínas será um dos seus sentidos.» Ora, olhando para a capa, reconhecemos logo o criptopórtico romano do Museu Nacional Machado de Castro, pelo que o título e a explicação começam a fazer sentido. Na verdade, o Museu está construído sobre as antigas ruínas do forum romano de Aeminium, integrando ainda as ruínas da antiga igreja de S. João, do séc. XI.

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Este livro de poemas nasceu de um desafio lançado ao autor pela Dr.ª Adília Alarcão, antiga diretora do Museu Machado de Castro, depois de o poeta ter lançado um livro dedicado ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. João Miguel Fernandes Jorge, poeta nascido no Bombarral em 1943 e já com uma extensa e reconhecida obra publicada, empenhou-se então na redação deste conjunto de poemas inspirados em obras do Museu. De entre os muitos poemas, selecionámos 18, tantos quantos os sócios que participaram nesta atividade. Depois, cada um teve que encontrar a peça do seu poema e, no fim, percorremos o museu, tendo como fio condutor os poemas de João Miguel Fernandes Jorge. Quem começou foi a Joana, com um poema inspirado num capitel românico:

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CAPITEL LEÕES JUSTICEIROS

Nomeiam 

os leões atlantes 

grave justiça

suportam o peso do templo

dividem com outros felinos a

transparência da treva, correm o 

negro das fendas. Da goela, ramos da videira.

 

A evasiva sereia

sem motivo de ciúme de quem ou de quê

nu lago rodeado de montes tão altos quanto é o céu

vive a íntima água do sonho.

Seres de catecismo culposo habitaram a cidade.

Seguem o desenho que

em Santa Cruz se escreveu

e em S. João, à

humana figura, o desejo - clarão tão escuro

poder tão forte quanto a pedra impura do vivo.

 

Leões justiceiros elevam-se , laceram entre as garras.

Archotes, a negridão

não é apenas raptora

o deus do visível desce à cidade.

 

Como vêem, a poesia de Fernandes Jorge não é fácil. Mas, com algumas explicações, lá fomos tirando alguns sentidos. O mais divertido foi, porém, estabelecermos relações entre as palavras e as formas das peças museológicas. Como são muitos poemas, iremos publicando vários posts ao longo dos próximos dias. Para já, fiquem com o poema lido pelo Guilherme Castanheira:

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AGNUS DEI

No recesso escalvado

 

liames de parreira, cachos de uva.

Em lugar estranho entoa,

   a lã do cordeiro

desce sobre o

o homem. Vem do reino medievo, desce nas lágrimas

de hoje - miserere nobis

 

em balanceio de magoado passo

sobre um prado de narcisos amarelos.

 

 

 

O poema refere-se a uma lápide de calcário dos finais do séc. XII, representando um anho sacrificial, o cordeiro de Deus (Agnus Dei), isto é, o símbolo do sacrifício de Jesus Cristo, necessário para salvar a Humanidade. «miserere nobis» é outra expressão latina dita antigamente na missa, integrada numa oração, e que apela ao perdão dos pecados e à piedade divina.

Por hoje é tudo, amanhã publicaremos mais dois ou três poemas.



publicado por CP às 21:33
Sexta-feira, 08 de Maio de 2015

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Os membros mais "velhos" do clube já conheciam a Paula Moura Relvas, os outros ficaram a conhecer. A Paula é uma amiga do Museu da Cidade que já por diversas vezes nos acompanhou e guiou nos nossos passeios. Desta vez, acedemos ao seu desafio e fomos conhecer o Parque Dr. Manuel Braga, mais conhecido como Parque da Cidade. Começámos o nosso percurso no Largo da Portagem, para lembrar que a ideia de construir um Passeio Público em Coimbra, à semelhança do de Lisboa, era já muito antiga e procurava satisfazer as necessidades mundanas e recreativas da sociedade burguesa.

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O primeiro passeio público foi construído junto ao Cais das Ameias, na margem do rio Mondego, em frente da atual Estação Nova. Aí acostavam as barcas serranas que subiam e desciam o rio desde Penacova até à Figueira da Foz. No dia 8 de maio de 1888, por coincidência no mesmo dia da nossa visita, iniciaram-se as obras do chamado Jardim do Cais, momento assinalado com a presença das autoridades locais. Tocaram bandas filarmónicas e a multidão aplaudiu. Os trabalhos ficaram concluídos em 1903 e incluiram a construção do paredão para conter as águas do rio, bem como uma grade de ferro para proteger os passantes. Os passeios foram calcetados e foram construídos canteiros ajardinados.

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Ainda mal se tinha inaugurado o Passeio Público, no ano a seguir, em 1904, a Companhia dos Caminhos de Ferro apresentou um projeto de construção do ramal da Lousã que deveria partir da Estação Nova e seguir para a Estrada da Beira, o que implicava a destruição do Jardim! 

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A avenida Emídio Navarro prolonga-se desde a Estação Nova até à Ínsua dos Bentos, onde hoje está o Parque Verde. Esta avenida foi assim nomeada naquele ano de 1888 para homenagear o Ministro das Obras Públicas que, ao que parece, patrocionou esta obra. Tornou-se uma das mais importantes artérias da cidade, onde se encontravam os melhores hoteis e alguns serviços públicos.

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 O Parque Manuel Braga acompanha a avenida Navarro e desenvolve-se numa faixa de terreno triangular que se inicia no Largo da Portagem. Limitada à direita pelo rio, estende-se até ao chamado Porto dos Bentos, onde atracavam as barcas que faziam a passagem entre as duas margens. Chamava-se assim porque dava acesso ao Convento de S. Bento, na Alta da cidade, através do atual Jardim Botânico. Os terrenos foram adquiridos pela Câmara Municipal em 1888.

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O projeto do parque deve-se a um jardineiro natural do Porto chamado Jacinto de Matos. Foi um dos mais importantes paisagistas da primeira metade do séc. XX, falecido em 1948. Jacinto de Matos foi responsável pelo traçado de muitos belos jardins, entre eles, o Parque da Curia. Este projeto de Coimbra começou a ser construído nos meados da década de 20 do século passado e foi inaugurado em 1927. Destacam-se várias espécies de árvores, tais como os plátanos, tílias,  olaias, castanheiros-da índia e ulmeiros, entre outras.

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Notáveis são igualmente os belos canteiros ajardinados, onde sobressaem desenhos com buxos e flores compondo o brasão da Rainha Isabel de Aragão, padroeira da cidade, e o escudo de Coimbra, além de um emblema do Clube de Futebol União de Coimbra e um outro da Associação Académica. É certo que os canteiros já não estão tão preservados como antigamente, os lagos já não têm patos nem cisnes, o desleixo nota-se por todo o lado, tal como um certo abandono e desrespeito por parte dos utentes do Parque. Porém, com pouco esforço, ainda é possível apreciar a arte dos jardineiros de Coimbra que, em tempos, fizeram com que a nossa cidade fosse conhecida como Cidade-Jardim! Quem diria!?

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No Parque, destaca-se ainda o coreto central, um belo exemplar da arquitetura do ferro. Era aí que as bandas subiam para dar os seus espetáculos musicais, propiciando aos transeuntes belos momentos de cultura e lazer. Este coreto foi desenhado pelo arquiteto Silva Pinto, com a colaboração de um artesão chamado António Eliseu. Foi inaugurado por ocasião das festas da Rainha Santa, no dia 4 de julho de 1904, com a presença de uma banda filarmónica vinda de Viseu.

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Foi inicialmente colocado no tal Jardim do Cais que há pouco referimos. Como as obras da linha de comboio descaracterizaram esse espaço, vindo as suas funções de passeio público a ser transferidas para esta zona da avenida na margem do Mondego, a Comissão de Iniciativa e Turismo solicitou, em 1934, a deslocação do coreto para o Parque da Cidade.

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 Algumas estátuas de poetas também foram sendo aqui colocadas, homenageando algumas importantes figuras da literatura portuguesa que passaram pela nossa cidade, como Manuel Alegre, que todos conhecem bem, e Antero de Quental, cujo busto de mármore é da autoria do escultor Diogo de Macedo. Este busto tem uma história engraçada, pois foi oferecido por um jornal açoriano, de onde o poeta era natural, à Câmara de Lisboa, que o colocou no Jardim da Estrela. Por razões desconhecidas e pouco claras, em 1941, o busto foi retirado e oferecido à cidade de Coimbra, dado que Antero estudou na Universidade. Em 1958, a Câmara colocou-o neste Parque.

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 Já a escultura do artista galego Armando Martínez que homenageia Florbela Espanca foi inaugurada em 1994, para assinalar o 1º centenário do nascimento desta poetisa. Natural do Alentejo, Florbela teve uma vida muito curta e infeliz, não tendo muitas ligações a Coimbra. No entanto, a verdade é que os grandes artistas não necessitam dessas ligações para serem homenageados e, por isso, o Grupo de Arte e Arqueologia do Centro (GAAC) tomou a iniciativa de dedicar esta estátua a esta grande figura das letras portuguesas.

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Por fim, e para acabarmos com as estátuas e esculturas, deixámos para o final o busto do Dr. Manuel Braga, personalidade que dá nome ao Parque. A obra é da autoria de Cabral Antunes e foi inaugurada em 1958 para prestar homenagem a este cidadão nascido no Brasil em 1868 e falecido na nossa cidade em 1945. Desempenhou vários cargos públicos, destacando-se na presidência da Comissão de Turismo. Foi ele que teve a ideia de adquirir a Ínsua dos Bentos, zona alagadiça e mal cuidada, para aqui construir este jardim. Preocupado com o embelezamento e ajardinamento da cidade, a ele se deve igualmente a valorização de Vale de Canas e o ajardinamento da plataforma central da avenida Sá da Bandeira.

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Passeando pelo Parque, admirámos a alameda central das tílias e a alameda dos plátanos junto ao rio, locais ainda hoje muito procurados por turistas, casais de namorados ou jovens casais a passear as crianças. Em tempos, chegou mesmo a existir aqui um jardim infantil com baloiços e outros divertimentos. Infelizmente, este espaço é também muito procurado por marginais que não só degradam os canteiros, como afastam daqui muitos dos utentes.

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 Os muros que delimitam o Parque têm vários bancos enfeitados com belíssimos painéis de azulejos com motivos florais. Uns são coloridos e outros em azul e branco. A Paula disse-nos que foram fabricados propositadamente para este fim pela fábrica Aleluia, de Aveiro. Ficámos ainda a saber que alguns bancos possuem apenas dois assentos colocados de frente, são as namoradeiras!

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 Para concluir, temos que mencionar o edifício do Museu da Água. Inaugurado em 2007, é um projeto do arquiteto Alberto Lage construído no local onde originariamente estava a estação elevatória e de tratamento de água para abastecer a cidade.

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publicado por CP às 22:46
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