Sexta-feira, 30 de Maio de 2014

Decorre no Parque da Cidade (Parque Dr. Manuel Braga), até ao próximo dia 1 de junho, e desde o dia 23 de maio, a Feira Cultural da Cidade. É uma nova designação para um evento já com tradições enraizadas nesta altura do ano. Na verdade, trata-se da Feira do Livro que, agora, se juntou com a Feira do Artesanato. Esta nova apresentação tenta atrair mais visitantes, reunindo uma série de atrações e atividades de animação cultural num cartaz muito diversificado. Parece que, infelizmente, os livros se vendem cada vez menos, seja por causa da crise, seja por falta de hábitos de leitura, ou por outra razão qualquer. O facto é que a continuidade da tradicional Feira do Livro em Coimbra obrigou à redefinição deste evento, associando o livro a outros produtos e a outros agentes culturais.

A Feira do Livro de Coimbra já se realizou em diferentes locais da cidade, como o Edifício Chiado, a Praça do Comércio, o Parque Verde, a Baixa, a Praça da República, a Alta da cidade e até na zona da Solum, sempre na tentativa de encontrar um local aprazível e espaçoso que atraia um grande número de visitantes. Pela nossa parte, nunca falhamos, e a visita à feira, realize-se ela onde se realizar, faz parte do nosso calendário nesta altura do ano, é uma tradição.

O João Tiago até se lembrou da sua primeira compra aqui na feira, um livro sobre o caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro. Outra tradição desta feira é a chuva! Parece uma maldição, pois todos os anos ela marca presença, o que é muito desagradável, pois não apenas afasta os visitantes como molha os livros, causando muitos prejuízos aos expositores. Por essa razão, a organização da Câmara Municipal retardou este ano o calendário, tentando mover a feira para os finais do mês de maio, na esperança que a primavera mais adiantada garantisse mais sol. Mas nem assim conseguiram fintar o S. Pedro, pois choveu toda a santa semana! Nós tivemos mais sorte, pois apanhámos um dia quente e radiante.

A edição deste ano inclui programas de música, artes plásticas, gastronomia e doçaria, artesanato, entre outras atividades culturais. Relativamente ao livro, a parte que mais nos interessa, para além dos tradicionais editores e livreiros, marcam presença na feira vários alfarrabistas, isto é, vendedores de livros antigos, raros, ou simplesmente em segunda mão. Vimos ainda um expositor bem conhecido, o marido da professora Fernanda que, como voluntário da Confraria da Rainha Santa Isabel, se dedica ao paciente trabalho de restauro e conservação de livros antigos pertencentes ao valioso espólio desta instituição. Infelizmente, esqueci-me de lhe tirar uma fotografia, mas ficou já prometida uma visita ao mosteiro para nos inteirarmos desta interessantíssima atividade. Agradecemos desde já a disponibilidade e prometemos agendar um encontro.

 

 

Passeámos depois pelos expositores dos muitos artesãos e artistas que marcam presença na feira, destacando um latoeiro tradicional, um oleiro, bem como uma rendilheira e uma bordadeira de Castelo Branco. Os trabalhos, inteiramente produzidos à mão de acordo com modelos e técnicas tradicionais, são muito bonitos e admirados. 

Alguns ainda tiveram tempo para dar um saltinho às barraquinhas de petiscos e doces, enquanto o Tiago e o Afonso ( o mais estiloso do dia com aqueles óculos escuros) se deixaram seduzir por um editor de BD, o Dr. Kartoon, aproveitando as promoções praticadas na feira. O João Aveiro optou por outras compras, mostrando que já é um pouco mais crescido: Florbela Espanca, Edgar Allan Poe e Oscar Wilde.

 

Achámos ainda muita piada aos velhinhos discos de vinil. Principalmente o David que, certamente sob a influência do pai, é um grande conhecedor das bandas antigas, desde os Smiths, aos Pink Floyd, Led Zeppelin e outras «velharias». A maior parte dos nossos sócios já não sabe o que é um vinil de 33 rotações, embora conheça alguns destes grandes nomes da música pop e rock que fizeram as delícias dos pais quando eram da idade deles.

Estava tudo a correr muito bem até que aconteceram duas «desgraças»: o Rodrigo rasgou as calças no rabo e andou todo o resto do passeio com uma mão a tapar o buraco e o nosso amigo Zé Carlos perdeu o telemóvel. Fica aqui uma homenagem ao nosso infeliz companheiro, ainda muito alegre na fotografia abaixo.

Por fim, antes do regresso à escola, ainda demos um salto ao palco central onde assistimos a um espetáculo dos nossos colegas da Escola Eugénio de Castro. Cantaram, declamaram e dançaram. Nós aplaudimos e, no fim, despedimo-nos da feira até para o ano.

Entretanto, para a semana temos já preparada a última visita deste ano letivo: vamos à Oficina Municipal de Teatro, o «Teatrão», que este ano comemora 20 anos de existência! É já muito tempo. Claro que temos que lá ir felicitá-los!

 



publicado por CP às 18:17
Sexta-feira, 23 de Maio de 2014

 O Convento de Santa Teresa de Jesus, junto ao Penedo da Saudade, é o único convento de clausura que  existe atualmente na nossa cidade. Pertence à Ordem das Carmelitas Descalças e ficou conhecido por ter acolhido a Irmã Lúcia, uma das videntes de Fátima. Em setembro do ano passado, foi inaugurada uma estátua em bronze dessa religiosa, da autoria do escultor Alves André. Foi por aqui que chegámos ao convento, depois de autorizados pela Irmã Maria Celina a visitar a igreja. A Irmã correspondeu amavelmente ao nosso pedido, mas não nos recebeu pessoalmente, pois vive em clausura, deixando essa tarefa para uma outra religiosa, autorizada a manter contacto com os visitantes.

A Ordem dos Carmelitas foi criada no século XII no Monte Carmelo, na Terra Santa, território hoje israelita. Aí viveram as primeiras comunidades, tomando como modelo de vida o Profeta Elias. Alguns sócios do nosso clube com boa memória lembram-se certamente da visita ao Convento do Carmo, na Rua da Sofia, onde admirámos os painéis de azulejos alusivos à vida de Elias. Ao longo do século XIII, os carmelitas instalaram-se na Europa, principalmente depois de os muçulmanos conquistarem a Terra Santa, tentando manter o modo de vida isolado e de clausura, entregando-se à meditação, sempre afastados dos centros populacionais. Diz-se por isso que eram eremitas. Posteriormente, por exigência papal, vários conventos foram fundados em núcleos urbanos, tentando adaptar o seu modo de vida ao ambiente das cidades, isto é, ao estudo e às atividades assistenciais.

Em Portugal, os Carmelitas começaram por se instalar em  Moura, no séc. XIV, aproveitando uma doação dos Hospitalários. O mais famoso dos frades carmelitas foi o Condestável D. Nuno Álvares Pereira que, em 1423, depois de  enviuvar, ingressou na ordem, no Convento do Carmo em Lisboa, que ele próprio fundou. Frei Nuno de Santa Maria, tal era o seu nome religioso, iniciou a comunidade com alguns companheiros vindos de Moura e em cumprimento de uma promessa. Frei Nuno, que foi recentemente canonizado, viveu nesse convento até à morte, em 1431, dando um grande impulso à propagação de conventos desta regra. Nos dois séculos seguintes, há fundações de mosteiros carmelitas em todo o território, como por exemplo, em Évora, Coimbra (1537), Torres Novas, Setúbal e Horta, nos Açores (1652). Outros conventos femininos foram fundados em Beja, Lagos e Tentúgal. No Brasil, houve fundações em Olinda, Santos, Rio de Janeiro e Baía. 

Um dos momentos mais importantes na história desta ordem religiosa deu-se em Espanha, quando se processou a grande reforma carmelita, no séc. XVI. Na verdade, a Igreja Católica conheceu nessa época um cisma protagonizado por Martinho Lutero que, entre outras coisas, criiticava o luxo e o desregramento das ordens religiosas. Foi então que a reação católica se deu, na chamada Contra-Reforma, cujas linhas estratégicas foram esboçadas no Concílio de Trento. Foi neste contexto que surgiram os chamados Carmelitas Descalços, tentando regressar à pureza original dos carmelitas, renovando o espírito de pobreza e o isolamento. Este movimento foi encabeçado por Santa Teresa de Ávila e expandiu-se por toda a Península Ibérica. 

Santa Teresa, cujo nome é evocado neste convento, nasceu em Ávila (Espanha), em1515. Desde pequena teve uma educação dedicada aos livros e à vida religiosa. Em criança, ficou órfã da mãe, pelo que o desgosto a levou a intensificar a devoção religiosa. Depois de uma passagem por um convento, uma estranha doença conduziu-a de regresso a casa. Foi a doença que a levou a refletir a optar por uma vida de retiro, contrariando o pai, pelo que teve que refugiar-se num convento carmelita. Aí fez o noviciado, apercebendo-se dos desvios das freiras, dedicando-se então à reforma da ordem. A suas orações intensas, o fervor e as suas visões tornaram-na célebre, bem como os livros que escreveu. A partir de Ávila fundou dezenas de mosteiros em Espanha, vindo a morrer em 1582, sendo canonizada em 1622. Já no séc. XX, o papa Paulo VI declarou-a Doutora da Igreja, sendo a primeira mulher a receber essa honra.

O convento de Santa Teresa de Coimbra pertence às Carmelitas Descalças e data do século XVIII. A fundação deste convento foi muito desejada por figuras da cidade, destacando-se frei Luís de Santa Teresa que abandonou a carreira académica para ingressar na ordem. Foi ele que, depois de entrar no colégio de S. José dos Marianos, o atual Hospital Militar que nos já visitámos, se empenhou na fundação de um convento feminino. Tal aconteceu em 1737, quando a Câmara autorizou a instalação das Carmelitas na cidade. O local escolhido foi a chamada Quinta do Chantre, pois os terrenos foram doados por Manuel Moreira Rebelo, chantre da Sé, que era o responsável pela direção do coro da catedral.

Em 1739, o rei D. João V autorizou a fundação do convento e  poucas semanas após chegaram 11 freiras para iniciar a comunidade, ficando instaladas no convento vizinho de Sant’Ana, que nós já conhecemos, e na zona da Arregaça, por onde andámos na semana passada, enquanto não se concluíam as obras. O projeto é de Frei Pedro da Encarnação, frade carmelita. O edifício é modesto, à exceção dos portais da entrada, decorados ao gosto barroco. A planta é de uma só nave retangular, destacando-se a cúpula. Não visitámos o claustro, pois a igreja é a única dependência acessível ao público, além do memorial da Irmã Lúcia. No entanto, se quiserem ter uma ideia podem ir espreitar ao Google Earth! 

As freiras inauguram o convento em 1744 e aqui viveram sossegadamente até ao século XIX quando, primeiro com as invasões francesas e depois com a guerra civil entre Absolutistas e Liberais, passaram por grandes perturbações. Principalmente em 1834, ano em que foram extintas as ordens religiosas e nacionalizados os seus bens. Foi proibida a entrada de noviças e o edifício deveria ser devolvido ao Estado após a morte da última freira. A verdade é que, contrariamente aos outros mosteiros e conventos da cidade e arredores, este sobreviveu a todas estas vicissitudes, merecendo a proteção da sociedade local, bem como das autoridades eclesiásticas e da própria rainha D. Maria II.

O mesmo não aconteceu em 1910, na sequência da revolução republicana. Nessa altura, o convento foi ocupado pelos soldados, acabando as freiras por ser expulsas e o edifício entregue ao Estado e ocupado pelo Ministério da Guerra que aqui instalou um Hospital Militar. Em 1933, já no Estado Novo, as freiras são autorizadas a regressar do exílio em Espanha e, em 1947, reocupam o seu antigo convento. Desde então, e porque de acordo com as regras das carmelitas as comunidades não podem exceder 21 membros, daqui saíram freiras para fundar outras comunidades em Braga, Viana do Castelo e Guarda.

 Em 1948, este convento acolheu a irmã Lúcia, a famosa vidente de Fátima, que aqui viveu até 2005, data da sua morte. Numa das dependências do mosteiro foi construído um memorial que recorda a sua vida, com destaque para a visita que lhe fez o Papa João Paulo II que teve um papel importante na projeção do culto de Fátima. Lúcia foi sepultada aqui, até que o seu corpo pudesse ser trasladado para Fátima, em 2006. Em 2008, foi declarada beata da Igreja.

 

Para a redação deste texto foi usado o artigo de Gracinda Maria Ferreira Guedes («O Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra: inventário do acervo documental»), publicado no Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra e disponível no seguinte endereço eletrónico: http://iduc.uc.pt/index.php/boletimauc/article/view/1515 [consultado em 22 de maio de 2014]

 



publicado por CP às 22:19
Domingo, 18 de Maio de 2014

Na passada sexta-feira decidimos passear pelo nosso bairro, a pé, desde o monumento aos Heróis do Ultramar até ao mercado do Calhabé. O título deste relato podia muito bem ser: a pé pelo Calhabé! Estava um dia de calor, o verão já espreita, alguns colegas nossos não vieram pois preparam-se já para os exames que se realizarão nos próximos dias 17 e 19. Desejamos-lhes muito boa sorte, sabemos que vai correr tudo bem, mas nós é que não podemos deixar de passear!

 

As origens do topónimo Calhabé permanecem obscuras, havendo explicações desencontradas. Segundo o professor Nelson Correia Borges "Calhabé era a alcunha do famoso taberneiro do século XVIII, cuja taberna, de  tão frequentada e ligada à boémia coimbrã, mereceu dar o nome ao sítio e inspirar o Calhabeidos, do Palito Métrico." Outros defendem que é um arredondamento da expressão "calha bem", lembrando nomes parecidos, como "Bem fica", "Bem posta" ou "Bem canta", que estariam na base de topónimos bem conhecidos. Outros ainda, por fim, avançam outra explicação: em tempos indeterminados, vivia por aqui um bêbedo que não recusava um copo de vinho e, sempre que lhe ofereciam uma bebida respondia: "calha bem", de onde derivaria o nome do bairro! Uma variante desta versão especifica mesmo que no sítio onde hoje se localiza a agência da Caixa Geral de Depósitos, no cruzamento com a rua do Brasil, existia uma taberna cujo dono era alcunhado de Calhabéu e daí surgiu o nome. Enfim, nada se sabe, pelo que o melhor é escolherem a versão que mais vos agradar!

O nosso percurso iniciou-se pois junto ao monumento aos Heróis do Ultramar, na praça que conserva o mesmo nome, resistindo à renovação dos topónimos desta zona após a revolução de 1974. Na verdade, a Praça Salazar, no topo sul do estádio, é hoje a Praça 25 de Abril, a rua Humberto Delgado, candidato da oposição democrática nas eleições fraudulentas de 1958, assassinado pela PIDE em 1965, chamava-se anteriormente rua Arantes e Oliveira, ministro do Estado Novo, e o Bairro Norton de Matos, grande figura da maçonaria e da oposição à ditadura, era designado Bairro Marechal Carmona, presidente da República até 1951. A Praça Heróis do Ultramar manteve a designação, seguramente por prestar homenagem aos mortos que tombaram na Guerra Colonial, entre 1961 e 1974.

 

As duas fotografias de cima mostram a localização do monumento antes das obras de remodelação da praça por ocasião dos trabalhos de construção do novo estádio. O monumento, com uma evidente intenção propagandística e justificativa da guerra colonial na perspetiva da ditadura, como muito bem explicou o João Tiago, é uma estátua de bronze colocada em cima de um pedestal de pedra. Vemos a figura de um soldado com uniforme de combate, empunhando uma metralhadora G3 numa das mãos, sinal de força e poder militar, e transportando um pequeno indígena aos ombros, como quem diz que a ação militar dos portugueses em África era protetora e civilizadora e não opressora e colonialista. A História provou o contrário, mas o monumento e a homenagem às vítimas da Guerra Colonial permanecem como testemunho de uma época.

 

A estátua é do escultor conimbricense Cabral Antunes (1916-1986), autor igualmente da estátua do papa João Paulo II, na praça com o mesmo nome junto aos Arcos do Jardim, e que foi homenageado com um busto que está colocado no Jardim da Sereia. Cabral Antunes distinguiu-se essencialmente como medalhista, isto é, autor de medalhas comemorativas em bronze que eram vendidas a colecionadores para assinalar efemérides importantes, tradição que hoje já caiu em desuso.

A estátua, que inicialmente foi colocada de costas para a fachada do Liceu Nacional Feminino Infanta D. Maria, está atualmente, após a remodelação da praça, virada de frente para a Escola Secundária Infanta D. Maria. Não são duas escolas, é a mesma que mudou de designação.

Em novembro de 1914 foi criada uma secção feminina junto do Liceu Central José Falcão, que então se localizava na avenida Sá da Bandeira. Só em 1918 foi criado o Liceu Feminino de Coimbra que, no ano seguinte recebe o nome de Liceu Nacional Infanta D. Maria. Na verdade, pode-se considerar que a escola comemora atualmente o seu centenário! O Liceu abrangia toda a região das Beiras e superintendia aos colégios que proliferavam pelo território que vai do litoral ao interior beirão, organizando os exames, certificando os resultados e emitindo os diplomas.

 

Em 1932, o Liceu instalou-se na Quinta da Rainha, onde hoje se localiza o Instituto Maternal Bissaya Barreto, facto que muito desagradava às responsáveis dada a proximidade do Liceu Masculino. Cinco anos após, o Liceu passa para o antigo Colégio de S. Bento, junto aos Arcos do Jardim, edifício que já visitámos quando fomos à Algoteca. Só em 1948 foram inauguradas as atuais instalações, conforme podemos ver numa das fotografias acima publicadas. Aqui, nesta encosta do Calhabé, existia uma quinta pertencente a um tal sr. José Gavino, sítio ermo próximo do campo de futebol o que muito preocupava a reitora Drª. Dionysia Camões que chegou a apresentar queixa e a determinar que as funcionárias acompanhassem as meninas desde a paragem dos transportes públicos até ao portão da escola.

Esta reitora, a mais conhecida de todas as que dirigiram o Liceu, devendo referir-se ainda os nomes de Elisa Figueira e Alice Gouveia, era aliás conhecida pelo seu zelo protetor. Em 1950, assinalou no seu relatório uma censura ao comportamento das meninas que passeavam com rapazes nas redondezas do Liceu, consentindo apenas que o fizessem na companhia dos irmãos e convidando as que desrespeitassem estas indicações a abandonar a escola!

 

Em 1974, na sequência da revolução de 25 de abril, o Liceu passou a ser misto, sendo hoje uma escola secundária muito frequentada. Em 2010, foram concluídas as obras de remodelação e modernização que transformaram o velho edifício totalmente. O mesmo sucedeu com a Escola Secundária Avelar Brotero, situada numa das outras avenidas da Praça Heróis do Ultramar. A Escola Brotero nasceu a partir da antiga Escola de Desenho Industrial, fundada ainda no séc. XIX. Nos finais desse século é elevada a Escola Industrial, instalando-se nos antigos edifícios do Mosteiro de Santa Cruz, que fora extinto, junto ao Jardim da Manga. Um incêndio em 1917 forçou a deslocação para a Quinta de Santa Cruz, onde hoje fica a sede da Direção Geral da AAC, estando prevista a construção de uma escola de raiz na Praça da República.

Como esse projeto não se concretizou, em 1926 a escola fixou-se onde atualmente está a Escola Jaime Cortesão, vindo a transferir-se definitivamente para este local no Calhabé em 1959. Tratando-se de uma escola técnica e industrial, nas suas oficinas se formaram, ao longo de décadas, muitos trabalhadores em diversos domínios como serralharia, carpintaria, eletricidade, construção civil, mecânica, cerâmica, tipografia, etc. Os alunos que aqui estudaram eram muito apreciados pela qualidade da formação que lhes era ministrada e conferiram grande prestígio a esta instituição.

No lado oposto da Praça dos Heróis do Ultramar está implantada a ESEC, Escola Superior de Educação de Coimbra, unidade do Instituto Politécnico de Coimbra fundada a partir da antiga escola do Magistério Primário e da antiga Escola de Educadores de Infância. Durante décadas aqui se formaram os professores primários, designação que antigamente se dava aos professores do 1º ciclo. Na atualidade, a ESEC não forma só professores, mas também muitos outros profissionais nas áreas mais diversas como o Turismo, a Comunicação ou a Animação Socioeducativa. As escolas do 1º ciclo que hoje pertencem ao nosso agrupamento e que foram frequentadas por muitos dos nossos colegas, eram as chamadas Escolas Anexas ao Magistério Primário, nome que alguns ainda usam.

Alice Gouveia, que já conhecemos como antiga diretora do liceu D. Maria na difícil época de transição da ditadura para a Democracia, chegou a ser secretária de estado do ensino básico e secundário, presidindo, em 1985, à comissão instaladora da ESEC. A professora Alice Gouveia faleceu em 1988, tendo sido condecorada pela presidência da República e o seu nome atribuído como patrona de uma outra escola bem conhecida de Coimbra, a Escola Alice Gouveia.

Da Praça dos Heróis do Ultramar descemos pelo Estádio Municipal de Coimbra até à igreja de S. José.  O estádio, ainda hoje conhecido como Estádio do Calhabé, apesar de não ser a sua designação oficial e de já ter tido várias denominações, é o centro de um complexo desportivo que inclui um pavilhão  e um conjunto de piscinas, e que foi construído após a demolição do anterior para a realização de dois jogos do campeonato da Europa de futebol de 2004. O projeto foi da responsabilidade do arquiteto António Monteiro e integra um centro comercial, uma zona residencial e um grande número de lojas e estabelecimentos nas arquibancadas.

 

   

A ideia era criar uma nova centralidade na cidade, mas a verdade é que se descaracterizou completamente esta zona. Os jogos de futebol realizados no estádio, na última época futebolística, apontam para uma média de 3000 espectadores, quando a capacidade é de 30 000 e foi duplicada relativamente ao velhinho estádio do Calhabé! As obras do antigo campo de futebol iniciaram-se em 1946 sendo pré-inaugurado em 1949, num jogo entre a AAC e a seleção nacional, tendo-se registado um empate (3-3). Ao longo da década de 50, o Estádio foi sendo melhorado: piscinas, gradeamento, um parque de campismo, torres de iluminação.

Próximo do estádio está a igreja de S. José, projeto do arquiteto Álvaro da Fonseca que se começou a edificar no dia 19 de março de 1954, dia do Pai e de S. José, sendo inaugurada no mesmo dia do ano de 1962. A igreja foi beneficiada com obras suplementares em 1983 e 2001. A fachada é dominada por três arcos ogivados e com uma alta torre sineira onde avultam quatro relógios, um para cada uma das fachadas da torre.

Sobre o arco central observamos um grupo escultórico com S. José e o Menino Jesus, obra do artista açoriano Numídico Bessone (1913-1985). Nos corredores laterais foram colocados por ocasião das celebrações do jubileu do segundo milénio, dois painéis de azulejos da autoria do pintor conimbricense Vasco Berardo. Um dedicado a Nossa Senhora e outro evocando Cristo Salvador.

 

No interior, merecem destaque os vitrais de Monsenhor Nunes Pereira que não pudemos visitar porque decorria uma cerimónia religiosa na nave da igreja, No entanto, fica aqui uma fotografia retirada de um blogue, cuja ligação podem seguir se estiverem interessados em colher mais informação pormenorizada.

 Aproximando-nos do final do nosso passeio, acusando já alguns sinais de sede e cansaço, rumámos ao mercado do Calhabé. Não podíamos concluir a nossa visita sem ir a este espaço. Pelo caminho, fomos reparando nalgumas pequenas habitações modestas, muitas já em estado adiantado de degradação e mesmo ruína, mas que conservam a memória popular deste bairro. O Calhabé tinha algumas casas solarengas da burguesia abastada, que um dia visitaremos, mas era um bairro popular, de gente dedicada ao trabalho nos campos, ao pequeno comércio e ao trabalho operário, dado que por aqui laboravam algumas fábricas hoje já inexistentes.

  

 O mercado do Calhabé foi construído nuns terrenos oferecidos à Junta de Freguesia por um benemérito chamado Isequiel (assim mesmo!) de Oliveira Baio, segundo assinala uma lápide ali colocada o ano passado. Aqui se abasteciam os moradores dos géneros alimentares, havendo bancas de venda de carne, peixe, pão, frutas, legumes, flores e até outros produtos necessários no quotidiano das famílias, dado que à época em que foi inaugurado, o mercado municipal D. Pedro V era muito distante e não havia as grandes superfícies comerciais.

 

Este mercado foi inaugurado no tempo da Guerra, em 1942, chegando a um estado de abandono e degradação tão grande que obrigou à intervenção da Junta de Freguesia com o objetivo de o recuperar, pois entendeu-se que este local não é só um espaço comercial, mas conserva igualmente a memória desta comunidade do Calhabé, já que era aqui que se realizavam as festas e os arraiais, especialmente por ocasião dos santos populares. Assavam-se sardinhas, saltavam-se as fogueiras de S. João, cantava-se e dançava-se. 

Já cansados pelo passeio que ia longo, e mesmo sabendo que havia ainda outras locais do Calhabé para visitar, o que ficará para uma outra ocasião, decidimos regressar à escola, até porque a hora já ia adiantada. Para a semana há um novo passeio: ao convento de Santa Teresa, das Carmelitas, junto ao Penedo da Saudade. Até lá!



publicado por CP às 07:03
Sábado, 10 de Maio de 2014

 No início do ano letivo, no já distante mês de setembro, iniciámos as atividades do nosso clube com um percurso evocativo do arquiteto Raul Lino, visitando os diversos projetos que assinou na nossa cidade. Agora, no arranque deste terceiro período, aproximando-se já o final do ano, lembramos um outro arquiteto português, Adães Bermudes. Não são muitos os seus projetos em Coimbra, apenas três, mas merecem um olhar mais atento: o Hotel Astoria, a sede do Banco de Portugal e a Escola de Santa Cruz.

 

Arnaldo Adães Bermudes nasceu no Porto, em 1864, filho de uma família galega. Frequentou a Academia das Belas Artes, concluindo depois os estudos em Lisboa na Escola de Belas-Artes. Em 1888, ganhou uma bolsa de estudos em Paris, aí permanecendo durante cinco anos, estudando na École Nationale des Beaux-Artes. Foram vários os bolseiros portugueses que aí se formaram, contribuindo para a renovação do gosto e da arquitetura portugueses, num movimento a que alguns historiadores chamam mesmo de Beauxartismo. Quando Adães Bermudes regressou a Portugal, nos meados da década de 90 do séc. XIX, iniciou a sua longa carreira como arquiteto, desempenhando vários cargos, todos importantes, em diversos organismos e departamentos governamentais.

 

 O nosso passeio começou então no Hotel Astoria. Quem quiser conhecer a história deste hotel e ver fotografias antigas do edifício, quer do exterior quer do interior, só tem que seguir a ligação deste excelente blogue: "Restos de Coleção." O hotel foi mandado construir por uma companhia seguradora, tendo as obras decorrido entre 1915 e 1919, sob projeto do nosso Adães Bermudes. Em 1925, ainda segundo o texto do blogue que estamos a seguir, o prédio foi arrendado ao empresário hoteleiro Alexandre Almeida, que concluiu as obras no interior, adaptando-o a hotel, sob projeto de outro arquiteto, chamado Francisco de Oliveira Ferreira.

 

 

 Além desta unidade, aquele empresário geria outros hotéis no seu grupo, como o Palace Hotel da Curia ou o Palace Hotel do Buçaco. Era, portanto, uma rede de unidades de luxo, que incluía ainda outros estabelecimentos na capital. Na verdade, o Astoria, quando foi inaugurado em 1926, foi igualmente considerado um dos melhores hotéis da região, senão mesmo do país. Tinha 62 quartos e equipamentos modernos, como um elevador, uma central telefónica e aquecimento central! Tudo isto, hoje, na era do telemóvel e do ar condicionado, nos parece banal, mas na época eram novidades que indiciavam luxo e conforto.

 O Astoria dispunha ainda de uma restaurante de excelente qualidade, com esmerado serviço de cozinha e uma garrafeira famosíssima, uma vez que servia aos seus hóspedes os reputadíssimos vinhos que Alexandre Almeida produzia nas suas propriedades das regiões da Bairrada e do Dão e que tornaram a adega do Palace Hotel do Buçaco uma das melhores de Portugal, com renome em todo o mundo, mesmo nos tempos atuais.

 O hotel foi edificado num lote muito estreito, um gaveto entalado entre duas artérias movimentadas, o que certamente levantou problemas ao arquiteto, já que não deve ter sido fácil implantar o prédio num espaço tão exíguo. A solução encontrada é muito engenhosa e equilibrada, como se pode observar na fotografia. As fachadas foram estreitando até se unirem numa esquina arredondada e adornada com varandins e janelas, encimada por uma bela cúpula que, ao que parece, não foi fácil de construir. Foi numa destas varandas que, em 1958, durante a ditadura do Estado Novo, o general sem medo, Humberto Delgado, o candidato da oposição democrática às eleições presidenciais, discursou à multidão que encheu o Largo da Portagem e o aplaudiu entusiasticamente. Atualmente, uma lápide assinala esse importante momento da história da resistência à ditadura.

 Logo ao lado do Hotel Astoria encontramos outro edifício com a assinatura de Adães Bermudes. Trata-se do Banco de Portugal. Mais uma vez, aconselhamos uma visita ao blogue "Restos de Coleção", para ler a entrada que o autor dedicou à sede desta instituição em Coimbra. Em 1887, o governo da monarquia e o Banco de Portugal assinaram um acordo, nos termos do qual este se tornaria o banco estatal, comprometendo-se a criar agências em todas as cidades capital de distrito. À época, o Banco de Portugal era simultaneamente um banco comercial e um banco emissor de moeda, para além de, claro está, se assumir como um símbolo do poder central do Estado nas cidades da província.

Coimbra já tinha, desde 1891, uma agência do Banco. No entanto, o governo entendeu dignificá-la, à semelhança do que fez em muitas outras cidades do país, lançandoi encomendas e concursos públicos para a construção das sedes distritais. Além desta sede de Coimbra, Adães Bermudes foi o arquiteto responsável pelas sedes de Bragança, Viseu, Évora, Vila Real, Faro e Ponta Delgada. Convidamos os nossos leitores a explorarem a internet em busca de fotografias dessas agências, para melhor se aperceberem da qualidade da obra deste arquiteto, ainda que alguns desses edifícios estejam atualmente reconvertidos a outras funções.

 

As obras iniciaram-se em 1910 e concluiram-se dois anos após. Na cave, por razões de segurança, localizavam-se os cofres blindados para depósito de valores e armazenamento do dinheiro, uma vez que competia às agências distritais garantir o abastecimento de notas e moedas das agências bancárias. No rés-do-chão ficavam os balcões de atendimento ao público, sendo de destacar os vitrais de Cláudio Martins, um artista muito conhecido na época pelos seus trabalho ao gosto Arte Nova. Por último, no 1º andar, além dos gabinetes da direção, estavam instalados os serviços da Caixa Económica Postal e a repartição de Finanças. Este prédio era verdadeiramente o símbolo distrital do poder financeiro do Estado que aqui concentrava todos os serviços.

 

No exterior, destacam-se as decorações em pedra que foram sntregues à firma Francisco dos Santos & Filho, bem como os gradeamentos em ferros que dão um ar muito peculiar ao banco. O prédio foi restaurado no ano 2000, estando por isso em boas condições e contribuindo para a dignificação deste Largo da Portagem que continua a ser o átrio de entrada da cidade, embora atualmente já não cumpra nenhuma das missões, posto que, com o euro, o Banco de Portugal já não é um banco emissor, para além do que não desenvolve atividade comercial.

Seguimos depois pelas ruas da Baixa, rumo à Escola do 1º Ciclo de Santa Cruz, aproveitando o dia primaveril muito agradável. Pelo caminho, não pudemos deixar de reparar numa montra da Foto Gaspar, reputada casa de fotografia da cidade, que  exibia algumas fotografias da passagem do general Humberto Delgado por Coimbra e do comício efetuado da varanda do Hotel Astoria.

 

 A Escola Primária Central de Santa Cruz, hoje escola do 1º ciclo incluída no Agrupamento Martim de Freitas, foi inaugurada no dia 19 de maio de 1910 e foi a última obra de vulto da responsabilidade dos poderes monárquicos na nossa cidade. De facto, poucos meses após estalou a revolução republicana, pelo que não deixa de ser irónico o escudo real português, encimado pela coroa, esculpido em pedra e colocado no cimo da fachada da escola, no cruzamento da avenida Sá da Bandeira com a rua de Saragoça. Mais curioso é lembrar que o arquiteto Adães Bermudes era maçon e republicano.

Atualmente, decorrem obras de restauro e modernização da escola, pelo que não é possível admirá-la, dado estar envolta em tapumes. No entanto, pode dizer-se, e admirar-se mais tarde quando se concluirem os trabalhos, que a obra corresponde a um plano de Adães Bermudes que concebeu diferentes tipologias de escolas primárias, cuidando especialmente da higiene, do arejamento e das condições de iluminação, para que a aprendizagem das crianças se desenvolvesse nas melhores. Os governos constitucionais da Monarquia, bem como depois os da República, viram na instrução das crianças uma prioridade urgente, dadas as elevadíssimas taxas de analfabetismo, que ultrapassavam os 70% da população e comprometiam o desenvolvimento do país.

Como não foi possível tirar uma fotografia desta escola centenária, deixamos uma captura retirada a partir do Google Earth e depedimo-nos até ao próximo passeio, esperando que, quando as obras se concluirem, possamos admirar a arquitetura desta derradeira construção monárquica em Coimbra.

 

Nota: depois de concluído este post, um amigo lembrou-me que a escola de S. Bartolomeu também é um projeto de Adães Bermudes. Foi um esquecimento imperdoável, fica feita a correção e prometida uma visita.



publicado por CP às 21:32
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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