Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

 

A coleção de ourivesaria do Museu Nacional Machado de Castro é uma das mais representativas do Museu e uma das mais importantes a nível nacional. É constituída principalmente por peças de prata, havendo apenas uma de ouro maciço, tendo exemplares de excelente qualidade, ilustrando diversos movimentos artísticos e períodos históricos, desde o séc. XII até ao séc. XIX. As peças são provenientes das igrejas, mosteiros e conventos da cidade que, ao longo de cerca de oito séculos, foram acumulando objetos dedicados ao culto religioso e que resistiram às peripécias da história. Destaca-se, naturalmente, o tesouro da Rainha Santa Isabel.

O cálice de D. Gueda Mendes é uma das peças mais conhecidas e emblemáticas do museu e é a mais antiga da coleção de ourivesaria, datando do séc. XII, dos tempos da fundação da nacionalidade. Foi oferecido por este nobre portucalense ao mosteiro de S. Miguel de Refoios, no Minho. Na copa do cálice estão gravados Cristo e os Apóstolos, enquadrados em arcos românicos que fazem lembrar um claustro. No pé, está gravado o tema do tetramorfo, isto é, a representação dos quatro evangelistas através de quatro imagens alegóricas: S. Marcos figurado pelo leão, o anjo de S. Mateus, o touro é S. Lucas e uma águia remetendo para S. João.

A cruz em Tau (T) do báculo de S. Teotónio é outro dos objetos importantíssimos desta coleção. O báculo era o cajado usado pelos pastores para conduzir os rebanhos e que os bispos e outros dirigentes religiosos empunham como símbolo para aludir ao papel que têm na condução da alma dos fiéis. Esta cruz encimava o báculo de S. Teotónio que foi prior de Santa Cruz de Coimbra no séc. XII, tendo desempenhado um papel de muito relevo no processo de independência do Condado, como aliado de D. Afonso Henriques. Foi canonizado um ano após a sua morte, em 1163, tendo-se tornado o primeiro santo português. Esta cruz destaca-se pela intensa decoração com motivos vegetalistas e zoomórficos (animais), bem como a pedraria incrustada.

 

Na fotografia do lado esquerdo, vemos uma caldeirinha de cristal de rocha do século XIII que, três séculos depois, foi reaproveitada, tendo sido acrescentados o aro e as pedras. É acompanhada pelo respetivo hissope. Estas alfaias sagradas serviam para aspergir (as palavras que nós aprendemos!) água benta. O cristal de rocha era muito apreciado na Idade Média, pois atribuiam-se-lhe poderes mágicos, como o de detetar a presença de venenos mortais diluídos em líquidos. As cruzes processionais na fotografia da direita, são também feitas de cristal de rocha, uma variedade pura do quartzo, muito brilhante e translúcida, importada a partir de Veneza.

 

Claro que não podemos aqui referir todas as peças que apreciámos, nem tampouco nos detivémos em todas, mas apenas naqueles que, pela sua importância ou pela sua exuberância, nos suscitaram maior curiosidade. É o caso da cruz processional em jaspe, uma rocha com tom avermelhado, macia de trabalhar e muito polida. Os braços da cruz juntam-se num belo medalhão dourado com uma cena do Calvário gravada. Muito mais conhecido é o relicário da Rainha Santa Isabel (fotografia da direita), feito em coral e prata. A estrutura assenta sobre um par de leões que, refere o roteiro do museu, eram identificados com Cristo, pois na Idade Média a superstição geral acreditava que estes animais nasciam mortos e que renasciam ao terceiro dia depois de bafejados pelo sopro do pai. Por outro lado, acreditavam que os leões dormiam de olhos abertos, sendo pois apresentados como vigilantes do sono eterno dos mortos. No topo do relicário está o que criam tratar-se um resto da Cruz em que Jesus foi morto, ou seja, o Santo Lenho.

O colar da Rainha Santa é outra das peças pertencentes ao seu tesouro. É formado por oito placas  de ouro com pedras preciosas (três safiras e dois topázios), além de vidros coloridos. Foi usado pela Rainha e, ao longo dos séculos, as populações atribuíam-lhe poderes miraculosos.

   

 

Maravilhámo-nos ainda com outras peças valiosíssimas e deslumbrantes desde os relicários e cálices do período gótico, até um gomil e uma salva em prata dourada, do período manuelino. O gomil é um jarro estreito usado em certas celebrações do calendário litúrgico, tendo este a particularidade curiosa de integrar na decoração motivos pagãos e fantásticos, como uma serpente a servir de pega ou um dragão alado no bocal por onde se vertia a água. A salva, tal como o gomil, é feita em prata dourada e tem uma decoração que ocupa todo o espaço disponível, distinguindo-se uma caravela por entre motivos vegetalistas e figuras mitológicas. 

Um dos objetos da exposição que nos chamou particularmente a atenção foi um estranho caranguejo segurando entre as pinças uma cruz. Um caranguejo? Que coisa mais esquisita! Diz a lenda que S. Francisco Xavier, jesuíta natural de Navarra conhecido como o Apóstolo das Índias por ter dedicado a sua vida a evangelizar as gentes do extremo oriente, em certa ocasião, quando se dirigia de barco às Ilhas Molucas, foi surpreendido por uma tempestade. Francisco, para acalmar as águas turbulentas, apontou uma cruz ao mar e este logo se acalmou. No entanto, não pôde evitar que a cruz sagrada lhe escorregasse das mãos, perdendo-a, com grande desgosto, nas profundezas das águas oceânicas. Alguns dias após, já a salvo nas Molucas, passeando o santo pelas areias da praia, avistou um caranguejo que saía das águas do mar transportando nas pinças erguidas a cruz perdida, cujos restos, segundo a lenda, se guardam neste relicário guardado no Museu Machado de Castro.

 Ainda percorremos as vitrinas onde se exibem outras magníficas peças, das quais não podemos dar conta, restando-nos recomendar uma visita ao Museu. No entanto, reservamos as palavras finais para o elogio da enorme custódias barroca do séc. XVIII, que constituiu um verdadeiro ponto final apoteótico do nosso circuito. Trata-se de um anjo que sustenta aos ombros um grande globo prateado e raiado. O efeito é espetacular e, só por si, merecia uma visita. Por nós, para a semana estaremos de volta ao Museu, para conhecer melhor as coleções de cerêmica, têxteis e mobiliário. 



publicado por CP às 20:56
Sábado, 15 de Fevereiro de 2014

Voltámos à Sé Velha! Depois de há umas semanas atrás termos visitado o exterior do monumento, desta vez quisemos conhecer o interior deste magnífico templo românico, assim como o claustro gótico. Os sócios mais velhos do clube lembram-se certamente de uma visita em novembro de 2009. Vale a pena clicar na ligação e ver as fotografias desse tempo já tão distante! Dessa época em que o clube tinha 7 membros e não tinha meninas, restam o João Tiago e o Duarte Elvas. Voltemos à Sé Velha...

Uma Sé, ou catedral, é uma igreja sede de episcopado, isto é, encabeçada por um bispo. O bispado de Coimbra foi transferido de Conimbriga na sequência das invasões bárbaras e do progressivo abandono daquela cidade. Sabemos muito pouco desses tempos distantes, mas sabemos que Coimbra caiu sob domínio mouro em 714. Mais tarde, o rei Afonso III das Astúrias reconquistou-a em 878 embora, cerca de um século após, tenha caído novamente sob o poderio muçulmano. Só em 1064 foi definitivamente conquistada, como veremos. Nesses tempos da ocupação islâmica, a velha Aeminium romana chamou-se Qulumbriya. Aqui ganhou raízes uma importante comunidade cristã que manteve o culto, com algumas características muito próprias, bem como a organização do bispado. Desses tempos resta uma inscrição encontrada nos finais do séc. XIX com as palavras Mariae Virginis, pelo que aqui deve ter existido uma catedral primitiva, bem como uma mesquita, antes da atual Sé.

 

No séc. XII, Coimbra assumiu um papel importantíssimo no processo de independência de Portugal. Afonso Henriques deu uma especial atenção à cidade a partir da década de 30, destacando-se a fundação do mosteiro de Santa Cruz e a construção desta Sé. O bispo D. Miguel Salomão foi o principal impulsionador das obras que contaram sempre com o empenhado apoio régio que aqui fez a capital do reino, distanciando-se das intrigas e das influências da nobreza do norte. Daqui partiu Afonso Henriques para a conquista do sul e da linha do Tejo.

Mestre Roberto foi o arquiteto de origem francesa responsável pelo traçado e lançamento das obras. Roberto foi depois para Lisboa, conquistada em 1147, chefiar os trabalhos de construção da Sé, pelo que em Coimbra as obras foram dirigidas pelos seus colaboradores, um tal mestre Bernardo que, depois de morrer, foi substituído por mestre Soeiro. O modelo é inspirado nas basílicas romanas, edifícios polivalentes situados no forum  das cidades romanas, pelo que se diz que esta catedral tem uma planta basilical.

A Sé tem uma nave central e duas laterais com as galerias do trifório por cima. A abóbada de berço, muito sólida e imponente, cobre a nave central e faz lembrar, como reparou o Zé Carlos, a grande abóbada da catedral de Santiago de Compostela. Na cabeceira, vemos uma ábside central com a capela-mor, onde brilha há mais de quinhentos anos um belíssimo retábulo dourado, da autoria dos mestres flamengos Olivier de Gand e Jean D'Ypres. Este retábulo é dos finais do séc. XV e inícios do seguinte e é já um exemplar extraordinário do chamado gótico flamejante.

 

Nas ábsides laterais, temos duas capelas. Do lado esquerdo, a Capela de S. Pedro, com um retábulo de Nicolau Chanterenne esculpido em calcário de Ançã e datado do 1º quartel do séc. XVI. Do lado oposto, a Capela do Santíssimo Sacramento, da autoria de João de Ruão e datada de 1566. A ábside, que foi adaptada e alargada para receber esta obra, tem uma cúpula muito bonita e está preenchida com nichos que guardam muitas esculturas em dois patamares. Podemos ver, no andar superior ao centro, a figura de Cristo ladeada pelos Apóstolos e, no nível inferior, a Virgem e os Evangelistas.

  

Percorremos depois os braços do transepto, onde admirámos uma pia batismal da autoria do escultor Diogo Pires-o-Moço. Nas naves laterais estão diversos túmulos, destacando-se o de D. Vataça Lascaris, uma dama bizantina que acompanhou o séquito de D. Isabel de Aragão, da autoria do famoso escultor Mestre Pêro. 

 

A pia batismal (esq.) e o túmulo de D. Vataça (dir.) 

Seguimos depois para o claustro. Construído a sul da Sé, mais elevado e descentralizado, é uma das mais importantes obras da arquitetura portuguesa, pois é a primeira construção gótics no nosso país. Data de 1218 e serviu de modelo para muitos outros claustros que se viriam a construir no reino.

 O claustro da Sé em uma planta quadrangular e os arcos são ogivados, ainda que enquadrando arcos duplos de volta inteira. Foi recentemente restaurado e merecem especial atenção os capitéis. O programa escultórico da Sé Velha inclui 380 capitéis, é o maior do nosso país e encontra-se ao nível das construções francesas deste período. Aqui, no claustro, podemos apreciar com maior proximidade os capitéis, salientando o gosto naturalista e vegetalista.

 

  

 

Para concluir a nossa visita, se bem que não relatando tudo o que vimos, dispensámos especial atenção à arca tumular de D. Sesnando, colocada numa capela escavada na rocha, no corredor do claustro virado a sul. D. Sesnando foi o célebre conquistador de Coimbra no ano de 1064, durante o reinado de Fernando Magno, o pai de D. Afonso VI de Leão e Castela que, como sabem, foi o avô materno de Afonso Henriques.

Sesnando Davides era de provável origem judaica, filho de gente abastada da região de Tentúgal. Em 1026, ainda muito jovem, foi aprisionado pelos muçulmanos e levado para Sevilha, vindo a destacar-se pelas suas grandes qualidades, chegando mesmo a desempenhar cargos de elevada responsabilidade.

Por motivos que permanecem ignorados, Sesnando fugiu da Andaluzia e colocou-se ao serviço de Fernando Magno, incitando-o a tomar a importantíssima cidade de Coimbra. O rei acedeu e, depois de recolhido em oração em Santiago de Compostela durante três dias, avançou com as tropas e conquistou definitivamente a nossa cidade no dia 9 de julho de 1064, após um cerco que durou seis meses. Como recompensa, D. Sesnando foi nomeado conde, ou alvazil como diziam os moçárabes, com a responsabilidade de governar todos os vastos territórios que se estendiam desde o Douro até à região fronteiriça de Penela, a sul de Coimbra, e desde Lamego até ao litoral. D. Sesnando morreu em 1091.



publicado por CP às 08:53
Sexta-feira, 07 de Fevereiro de 2014

 O dia 17 de abril de 1969, adivinhava-se em Coimbra, seria especial. Estava anunciada a vinda do almirante Américo Tomás, Presidente da República da ditadura, para presidir à inauguração do edifício das Matemáticas. O ambiente era tenso, os estudantes e os portugueses andavam insatisfeitos, a repressão era insuportável. Salazar já não mandava, morreria no ano seguinte e fora substituído por Marcelo Caetano, mas a esperança numa abertura democrática já desaparecera. A guerra colonial absorvia as energias da nação e condenava os jovens a uma existência incerta e injusta. O país era pobre, milhares emigravam, a censura era incompatível com os novos ventos da mudança que atravessavam a Europa e o Mundo. Em suma, vivia-se um clima irrespirável e os jovens estudantes assumiam-se como os protagonistas dessa insatisfação. Faltava Liberdade!

 

 

Os estudantes viram na inauguração do novo edifício uma oportunidade para se manifestarem e protestarem. Exigiam participar na cerimónia e na vida universitária, queriam ser ouvidos, queriam, numa palavra, Democracia. O Reitor, no entanto, negou-lhes o direito à palavra na cerimónia, levando os estudantes a reunir à pressa e a combinar uma estratégia. Distribuiram tarefas entre todos, cada um tinha a sua missão no desenrolar dos acontecimentos do dia seguinte. Chegado o dia 17, a ansiedade era grande, todos sabiam que algo ia acontecer, mas não sabiam o quê nem qual seria a reação das autoridades. A multidão juntou-se à entrada do edifício, aguardando a chegada das personalidades e o desenrolar dos acontecimentos, empunhando cartazes e faixas de protesto. O ambiente estava quente!

 

 

 

Juntou-se muita gente e o entusiasmo foi crescendo. Quando chegaram as altas personalidades - o presidente da República, vários ministros, entre eles José Hermano Saraiva, ministro da educação, o reitor e o bispo - os ânimos exaltaram-se e Celso Cruzeiro, um dos dirigentes associativos, convidou a multidão a entrar. A sala onde estava prevista a cerimónia inaugural ficou apinhada e o ambiente que se vivia era um verdadeiro barril de pólvora, todos aguardavam que Alberto Martins, o presidente da AAC, desafiasse as proibições e pedisse a palavra que não lhe queriam dar. Quando isso aconteceu, conforme combinado, os jovens explodiram de alegria. O poder da ditadura fora humilhado e não soube reagir prontamente.

 

Alberto Martins pede a palavra em nome dos estudantes de Coimbra (17 de abril de 1969; foto da esq.). Alberto Martins na atualidade 

 

Antes de prosseguirmos o nosso itinerário pelos acontecimentos da crise académica de 1969, atentámos nos belos frescos de Almada Negreiros no átrio do edifício. Do lado esquerdo de quem entra, sobre um fundo vermelho, estão representadas algumas das personagens mais importantes da história da matemática, desde os egípcios antigos até Albert Einstein, passando pelos sábios gregos, Descartes, Leibniz e Newton.

No lado oposto, sobre um fundo azul, o tema são os Descobrimentos portugueses e a importância que a matemática teve na planificação das viagens, na cartografia, na observação astronómica e na ciência náutica. Destacam-se as figuras do Infante D. Henrique, de Pedro Nunes e de Fernão de Magalhães.

 

José de Almada Negreiros foi um dos mais importantes artistas portugueses do séc. XX. Nasceu em 1893 em S. Tomé e Príncipe e morreu em 1970, tendo sido estes frescos a sua última obra. Foi uma figura multifacetada, manifestando o seu génio criativo como pintor, bailarino, poeta, escritor, ensaísta ou dramaturgo. Foi autodidata e conheceu algumas das personalidades mais importantes da cultura nacional e internacional do seu tempo, como Fernando Pessoa ou Pablo Picasso.

 

Regressando aos acontecimentos de 1969, depois de toda aquela agitação, os estudantes dirigiram-se para os jardins da Associação Académica, onde conviveram, descomprimiram e combinaram estratégias futuras. Estes jardins estão atualmente num estado lamentável de abandono, degradação, desleixo e sujidade. É inacreditável o ponto a que o património da cidade e da academia chegaram. As instalações da AAC foram inauguradas em 1961, seguindo um projeto dos arquitetos Alberto Pessoa, Norberto Correia e João Abel Manta que é o autor dos painéis de azulejos da fachada e do jardim.

 

 

 Saindo dos jardins e rumando à Praça da República, onde nas semanas seguintes se concentraria a polícia de choque e a repressão sobre os estudantes, pudemos admirar os painéis de azulejos que, na continuação da fachada do Teatro Académico Gil Vicente, ilustram os estudantes de vários períodos, enquadrados por pares trajados à época e alguns elementos arquitetónicos. Lamentamos, mais uma vez, o estado degradado destes azulejos, estando muitos estalados e danificados a pedir urgente intervenção.

 

      

clicar nas imagens para ampliar

 

Na sequência destes acontecimentos, a tensão aumentou, levando os estudantes a radicalizar a contestação. Foram convocadas várias assembleias, sempre muito participadas, que decretaram o luto académico e a greve às aulas. Ao longo dos meses de maio e junho, agravou-se o conflito com a polícia que reprimiu severamente as ações estudantis. A cidade foi ocupada, levando os estudantes a promover ações simbólicas pacifistas, como a distribuição de flores à população e a largada de balões, que culminaram no dia 22 de junho no Estádio do Jamor, durante a final da Taça de Portugal, disputada entre a AAC e o Benfica. O almirante Tomás, temendo as manifestações, não compareceu, a RTP não transmitiu o jogo mas, ainda assim, os estudantes transformaram-no numa memorável jornada de protesto e luta contra a ditadura.

 

  

No rescaldo dos acontecimentos, e depois de muita violência repressiva nas ruas com espancamentos e cargas policiais, os dirigentes associativos são destituídos e presos, são alvo de processos disciplinares, interrogados e incorporados nas forças militares que combatem na guerra colonial.

Na denúncia dos estudantes que se destacaram na contestação, participaram os agentes da PIDE/DGS. A polícia política, agora chamada Direção Geral de Segurança (DGS), tinha agentes infiltrados que se intrometiam nas assembleias e fotografavam e denunciavam os estudantes mais ativos. Os inspetores da delegação de Coimbra da PIDE/DGS enviavam relatórios para Lisboa analisando a situação, indicando responsáveis e denunciando o que consideravam a indisciplina da juventude como causa da revolta e da desordem vividas.

 

 

 A sede da PIDE era numa vivenda na rua Antero de Quental. Foi aqui que estiveram presos os dirigentes estudantis, entre eles Alberto Martins, tendo-se realizado uma grande manifestação dos estudantes exigindo a libertação do seu companheiro. Aqui estiveram presos, nas celas da cave, muitos opositores ao regime, não apenas estudantes. Aqui esteve instalada a comissão de extinção da PIDE/DGS, passando depois a funcionar, durante alguns anos, os serviços regionais do Ministério da Educação. Atualmente, o imóvel foi vendido a particulares e está a ser remodelado, apesar de alguns antigos resistentes defenderem a preservação deste espaço para manter viva a memória da oposição ao Estado Novo, nomeadamente a luta dos universitários.

 

Na pequena praceta fronteira ao prédio, foi erguido, em 2001, um monumento ao 25 de abril da autoria da escultora conimbricense Ana Rosmaninho. Trata-se de uma esfera prateada abraçada por dois braços estilizados em bronze, onde estão gravados versos de poetas que celebram a conquista da Liberdade. Foi aqui que concluímos o nosso passeio de hoje.

 

As fotografias a preto e branco foram retiradas de uma apresentação em powerpoint facultada pelo Centro de Documentação 25 de abril da Universidade de Coimbra. O texto foi redigido com base no livro de Celso Cruzeiro, dirigente associativo à época dos acontecimentos, intitulado «Coimbra, 1969. A crise académica, o debate das ideias e a prática. Ontem e hoje» (Porto; Edições Afrontamento; 2010; pp. 127 e ss)

 



publicado por CP às 22:53
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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