Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2014

 

Nos inícios da década de 40 do séc. XX, estava a Europa em guerra, o governo ditatorial do Estado Novo, encabeçado por Oliveira Salazar, decidiu iniciar uma das obras mais polémicas e emblemáticas do regime: a demolição de parte da velha Alta de Coimbra para a construção da nova Cidade Universitária. Para o efeito, foi nomeada uma comissão presidida pelo reitor Maximino Correia que tinha como arquitecto-chefe Cottinelli Telmo (1897-1948), com o objectivo de elaborar, executar e fiscalizar os projectos de construção dos novos edifícios universitários: as Faculdades de Letras, Medicina e Ciências (incluindo o edifício das Matemáticas), e a Biblioteca Geral.

 

 

Entre 1951 e 1975, foram sendo inaugurados os diversos edifícios. Ao mesmo tempo, foi concebido um plano escultórico em articulação com as obras de arquitetura. Foram contratados os mais proeminentes escultores da época que se incluíam na corrente artística definida pelo poder. A estatuária pública, durante a Ditadura, era encomendada pelo poder central e tinha que transmitir determinados valores, representando figuras históricas e fazendo a propaganda da autoridade e da tradição.

 

 

Nos anos 50, foi inaugurada a estátua do rei D. Dinis, fundador da Universidade de Coimbra. Este largo tem hoje o nome do rei que, em 1290, fundou em Lisboa os chamados Estudos Gerais que seriam depois transferidos para Coimbra. Esta estátua, como todas as outras que apreciámos durante o nosso percurso, foi encomendada pela Comissão Administrativa das Obras da Cidade Universitária e é lavrada em granito proveniente da região de Sintra. O seu autor é o escultor Francisco Franco (1885-1955). 

 

 

Na fachada poente da Faculdade de Medicina, virado para o Largo da Porta Férrea, encontramos um grupo escultórico da autoria de Leopoldo de Almeida, responsável pelas figuras do Padrão dos Descobrimentos, datado de 1955. Este conjunto representa ao centro Higeia, a deusa grega da Medicina, filha de Esculápio, segurando uma vara com uma serpente enrolada, símbolo da Medicina. Ao seu lado direito, está Hipócrates, sábio grego do séc. V a. C., considerado o pai da Medicina, segurando o célebre Juramento, um texto da sua autoria que fixa os princípios deontológicos da prática deste ofício e que ainda hoje é objeto de juramento por muitos médicos que se iniciam na profissão. Do lado contrário, está Galeno, outro grande médico e filósofo de origem grega, que viveu no séc. II, exibindo um pergaminho com os títulos de algumas das suas obras.

 

 

Do outro lado, simetricamente colocado na fachada da Faculdade de Ciências e Tecnologia, está outro grupo, da autoria do mesmo escultor, representando a Ciência. Tal como o primeiro, é esculpido em pedra lioz, um tipo de calcário dos arredores de Lisboa muito apreciado pelos escultores. Do lado direito, está Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), célebre navegador, nobre guerreiro e cosmógrafo, autor do famoso tratado Esmeraldo de situ orbis. No lado oposto está Pedro Nunes (1502-1578), um dos maiores matemáticos portugueses de sempre e uma das mais importantes figuras da ciência do seu tempo.

 

   

 

As estátuas que estão à frente da Faculdade de Letras foram inauguradas em 1951 e são da autoria do escultor Barata Feyo. Representam, da esquerda para a direita de quem se posiciona de frente para a Faculdade: a Eloquência, representada por Demóstenes, orador ateniense do séc. IV a.C.; a Filosofia, representada por Aristóteles; a História, por Tucídides, grande historiador ateniense do séc. V a. C., famoso por ter escrito a história das guerras contra os espartanos; e a Poesia, simbolizada em Safo, poetisa grega do séc. VII a. C., representada com uma lira.

 

 

 

Na fachada da Biblioteca Geral, representam-se dois grupos escultóricos, constituídos cada um por três figuras. São as sete artes liberais. Na Idade Média, os ofícios mecânicos eram todos aqueles que exigiam a utilização da força física. Esses trabalhos eram considerados vis e pouco dignos. Havia depois as designadas artes liberais, isto é, as que exigiam somente esforço intelectual. Estas artes dividiam-se em dois grupos: o trivium (lógica, gramática e retórica, à direita) e o quadrivium (a geometria e a aritmética, a astronomia e a música, do lado esquerdo).

 

Trivium ou Quadrivium? 

 

Do Largo da Porta Férrea, passámos ao Pátio das Escolas, onde encerrámos o nosso circuito com a estátua de D. João III. Esta escultura é da autoria do mesmo artista que esculpiu a de D. Dinis. D. João III, cognominado de Piedoso, nasceu em Lisboa em 1502 e faleceu em Sintra, em 1557. Durante o seu reinado, tomou várias decisões muito importantes, nomeadamente a reforma dos estudos da Universidade. Foi ele que fixou definitivamente a universidade em Coimbra e que mandou proceder a uma reforma dos Estudos, introduzindo os ideais humanistas do Renascimento nos planos curriculares, contratando novos mestres e permitindo que muitos se cultivasem nos centros mais destacados da Europa. Por isso, a sua memória é aqui lembrada, neste local privilegiado e central.

 

 

A inspiração para a estátua de D. João III, colheu-a Francisco Franco nos quadros de Hans Holbein, um pintor alemão do séc. XVI, famoso pelos retratos que fez da família real inglesa, nomeadamente do rei Henrique VIII. Podes comparar a fotografia da esquerda com o retrato da direita, representando o rei inglês e datado exatamente da época em que viveu o rei português. Certamente que as semelhanças na pose, no vestuário e nos acessórios não te escapam e permitem comprovar a inspiração do nosso escultor.

 

 

 

Assim concluímos mais um passeio. Para a semana, voltaremos à Alta Universitária mas para um itinerário completamente diferente. Até lá, boa semana de trabalho!



publicado por CP às 20:59
Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

 

Chegámos à Sé Velha descendo a Rua do Cabido desde o Largo de S. Salvador. O nosso objetivo esta semana era conhecer melhor a Porta Especiosa, uma das obras-primas do Renascimento em Portugal, construída na fachada norte da velha catedral românica. Pelo caminho, tivemos oportunidade de ver o estado de degradação de algumas casas e ruas da Alta de Coimbra, recentemente classificada como Património da Humanidade. Lamentamos igualmente o vandalismo, a destruição gratuita, a sujidade e os grafítis que dão uma péssima imagem desta zona histórica. Alguma coisa tem que mudar, nem que seja quando o nosso amigo João, daqui a uns anos, for Presidente da Câmara!

 

 

Não se conhece muita documentação sobre esta porta e mesmo a designação por que é referida levanta algumas dúvidas, embora se aceite que resulta de um cântico - Speciosa est Maria - que, na Idade Média, acompanhava as procissões em honra da Virgem. A porta foi construída na década de 30 do século XVI, por ordem do bispo D. Jorge de Almeida, um homem muito culto que viveu uma larga temporada em Itália, familiarizando-se aí com os valores artísticos do Renascimento. Normalmente, atribui-se a autoria desta construção ao grande arquiteto e escultor João de Ruão, embora se admita a colaboração de Nicolau Chanterenne, outra grande referência do Renascimento em Coimbra e no país.

 

 

 

A composição segue um esquema muito racional e geométrico, completamente enquadrado no espírito renascentista, respeitando as regras da simetria e da proporção geométricas. A estrutura compreende três andares que vão estreitando, acentuando o eixo vertical. Falta um último andar, que seria um frontão triangular, desparecido nos finais do séc. XIX, restando apenas duas pequenas bases cilíndricas.

No nível inferior, encontramos o portal enquadrado por arcos de volta inteira e rodeado por uma profusa decoração ao gosto da época. No tímpano, podemos apreciar um belo medalhão com a Virgem e o Menino.

 

 

Nos nichos laterais, estão esculpidos S. João Baptista (à esquerda), o amigo de Cristo que o batizou nas águas do rio Jordão. S. João é representado com os seus atributos habituais: longos cabelos e barbas de eremita, vestindo uma túnica de pele de ovelha, tendo nas mãos um livro e um cajado em forma de cruz. Uma tarja atravessa o corpo, contendo a seguinte inscrição: ecce agnus dei, que significa «Eis o Cordeiro de Deus». No nicho do lado direito, está representado o Profeta Isaías.

 

 

 

No segundo andar destaca-se o varandim muito equilibrado e as duas guaritas laterais que fazem lembrar o Jardim da Manga. Há autores que aproveitam para referir a inspiração destes elementos na arquitetura militar, pois as guaritas, nas fortalezas, servem precisamente para proteger as sentinelas durante as suas vigílias. O Último andar exibe ao centro uma figura de Santa Ana, mãe da Virgem, ladeada por duas imagens, sendo uma de S. Miguel vencendo o demónio. Por cima, estão dois evangelistas, S. João e S. Lucas.

 

 

Ao lado, está a chamada Porta de Santa Clara, já em adiantado estado de degradação, tal como muitos elementos escultóricos da Porta Especiosa. Esta é uma das características deste calcário de Ançã em que estão construídas estas obras: por um lado, dada a sua macieza, permite um trabalho de grande detalhe, mas, por outro lado, sofre uma erosão  muito acelerada, tanto mais quanto está exposto à poluição, às condições atmosféricas, aos dejetos dos pombos e à falta de respeito de muitos transeuntes e frequentadores dos bares das redondezas da Sé.

 

 

  

É claro que o nosso objetivo de conhecer a Porta Especiosa não nos impediu de atentar no edifício da Sé, seguramente um dos melhores exemplos da arquitetura românica no nosso país. Recordámos as características essenciais destes edifícios, salientando as especificidades da variante regional do românico de Coimbra, muito marcado pela influência moçárabe. A provar isto mesmo, achámos muito interessante uma inscrição árabe numa das pedras colocadas entre a Porta Especiosa e a Porta de Santa Clara:

 

 

Escrevi isto como recordação permanente do meu sofrimento. A minha mão perecerá um dia, mas a grandeza ficará

 

Despedimo-nos com a promessa de um regresso em breve, pois temos que visitar o interior da Sé, com o seu magnífico altar, bem como o claustro e o túmulo de D. Sesnando. Claro que não nos podíamos ir embora sem antes tirar uma fotografia no pórtico principal, depois de observarmos a belíssima decoração dos colunelos e das arquivoltas que, apesar do restauro realizado no século XIX, seguiram escrupulosamente os modelos originais e atestam bem a especificidade do românico de Coimbra.

 

 

 

O desenho foi retirado do livro de Maria de Lurdes Craveiro, «A Sé Velha de Coimbra»; Coimbra : Direção Regional de Cultura do Centro, 2011 



publicado por CP às 21:56
Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014

 

A avenida Dias da Silva é uma das zonas residenciais mais bonitas de Coimbra. A rua foi aberta nos primeiros anos do séc. XX, ligando o Penedo da Saudade aos Olivais, urbanizando uma periferia conhecida como Cumeada, uma vez que fica mesmo no cume do monte que para nascente tem o vale que se estende desde a Quinta de S. Jerónimo até à nossa escola e, para poente, tem toda a zona que desce de Celas até ao centro da cidade. Hoje já é difícil imaginar as vistas panorâmicas que daqui se usufruíam, uma vez que está tudo urbanizado com casas e prédios elevados, mas há cem anos atrás esta rua foi rasgada num cume sossegado, isolado e com vistas magníficas.

 

 

Quando este novo eixo foi aberto, com o respetivo projeto de loteamento e urbanização, logo se começaram a construir muitas vivendas da mais destacada burguesia da cidade, especialmente lentes da Universidade e ricos homens de negócios. A família Lima era uma dessas famílias abastadas que aqui decidiu construir a sua residência, daí que o edifício ainda hoje seja conhecido como Casa dos Lima. O projeto de arquitetura data de 1915 e foi encomendado ao arquiteto Augusto Silva Pinto (1865-1938). Nascido em Lisboa e aí formado pela Faculdade de Belas Artes, prosseguiu os seus estudos em Paris, vindo depois a instalar-se em Coimbra, onde chegou a ser Governador Civil. Foi professor na antiga Escola Industrial Avelar Brotero. que nesse tempo se situava junto ao Jardim da Manga, desenvolvendo ao mesmo tempo a sua atividade como arquiteto. A cidade deve-lhe várias obras, destacando-se o projeto de remodelação do antigo Colégio de S. Tomás, na Rua da Sofia. Este antigo Colégio Universitário, que atualmente é a sede do Tribunal da Relação, era uma serração de madeira, até que os Condes do Ameal o compraram para aí  instalarem a sua residência familiar, encomendando nessa altura o projeto a Silva Pinto.

 

 

A empreitada da obra foi adjudicada ao mestre João Machado, famoso pela mestria no trabalho da pedra e por muitos considerado o último grande representante desta arte que conheceu grande esplendor na nossa cidade durante séculos e que hoje está praticamente esquecida. João Machado produziu notáveis trabalhos para edifícios traçados por alguns dos melhores arquitetos do seu tempo, como Adães Bermudes (em breve lhe dedicaremos um passeio), Raul Lino (já conhecemos a sua obra em Coimbra), ou Luigi Manini, um italiano que, embora fosse cenógrafo de formação, foi autor de projetos marcantes em que contou com a colaboração inestimável de João Machado, como a Quinta da Regaleira, em Sintra, ou o Palácio Hotel do Buçaco.

 

 

Na Casa dos Lima podemos igualmente apreciar a excelência do trabalho escultórico de João Machado e dos seus colaboradores, destacando-se naturalmente o belíssimo pórtico principal. Reparámos ainda nas molduras das janelas, nos balcões das varandas e noutros pormenores em que as decorações de pedra conferem ao edifício um aspeto airoso ao gosto da época, colhido nas revistas parisenses que João Machado lia e nas quais se inspirava, enquanto mestre professor na famosa Escola Livre das Artes do Desenho, escola fundada em 1878 e que funcionou na Torre de Almedina e no antigo refeitório de Santa Cruz, marcando profundamente a nossa cidade.

 

 

 

 

 

O palacete está rodeado por belos jardins onde se construiram modernos edifícios da Faculdade de Economia, para alojar as salas de aula, os gabinetes dos professores, a biblioteca e outros serviços. No solar propriamente dito estão instalados os serviços administrativos, a direção e os gabinetes de apoio. 

A Faculdade de Economia foi criada em 1972, sendo uma das mais recentes da Universidade de Coimbra. Atualmente, tem cerca de 2100 estudantes que estudam, além de Economia, Sociologia, Gestão de Empresas e Relações Internacionais. 

 

 

A Casa dos Lima está muito bem conservada, pois foi recentemente recuperada. Possui dois andares sobre uma cave que seria um espaço de armazenamento e serviço. Tem ainda umas águas-furtadas revestidas com placas de lousa preta. Num dos lados, destaca-se um torreão com um miradouro contornado por uma varanda panorâmica. 

 

 

Passeámos em redor da casa e claro que observámos os azulejos estilo Arte Nova bem como os gradeamentos em ferro forjado, quer das varandas, quer dos portões. Ainda tivémos tempo, apesar do dia chuvoso, de passear pelos jardins que ninguém conhecia e que se estendem pelas traseiras da habitação.

 

 

 



publicado por CP às 21:47
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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