Sábado, 26 de Outubro de 2013

Desta vez, percorremos alguns dos locais da cidade, seguindo os passos de alguns poetas portugueses que, vivendo, estudando ou apenos passando por Coimbra, dedicaram alguns poemas à nossa cidade.

Iniciámos o nosso itinerário no Jardim Botânico e, parando em alguns pontos previamente combinados, fomos andando até ao Largo da Portagem, onde nos aguardava uma surpresa. Em cada paragem, um membro do clube lia um poema relacionado com o local. No final, ficámos a conhecer melhor a cidade e alguns poetas portugueses, com a certeza que muitos outros poetas se inspiraram em Coimbra, e que, naturalmente, este roteiro não passou de um pretexto para aprendermos a gostar e a ler poesia.

 

Resta dizer que o itinerário foi concebido a partir da coletânea de poemas sobre Coimbra, editada por ocasião da Coimbra 2003/Capital Nacional da Cultura, organizada por Adosinda Providência Torgal e Madalena Torgal Ferreira: «EnCantada Coimbra» (Lisboa; Publicações Dom Quixote; 2ª edição 2003). Todos os poemas foram aí coligidos à exceção de «Ai flores, ai flores do verde pinho», de D. Dinis; «Epígrafe», de Eugénio de Castro e «Portugal», de Miguel Torga.

 

  

O Eduardo a ler o poema de Alberto de Oliveira no Jardim Botânico

 

Alberto de Oliveira: Pelo Jardim Botânico… 

Nasceu no Porto em 1873, onde morreria em 1940. Frequentou a Universidade de Coimbra, onde conheceu António Nobre e Eugénio de Castro. Das polémicas literárias desses tempos, nasceram os movimentos simbolista e decadentista. «Palavras Loucas» é a sua obra mais conhecida. É considerado o fundador do Neogarrettismo, defendendo, sob a inspiração literária de Almeida Garrett, o nacionalismo e a recuperação da literatura popular, bem como o abandono de modelos culturais estrangeiros.

 

Pelo Jardim Botânico, à tardinha…

É a hora ritual do sol poente,

Quando as tílias rescendem docemente

Na avenida cismática e sozinha.

 

Quisera ver raiar na minha frente

Alguma namorada Teresinha,

Cruzar no dela o meu olhar ardente,

Ter enlaçada na sua mão a minha.

 

Amam em cada ninho as toutinegras,

Chamejam, ao passar, as capas negras,

Como se a luz do amor as penetrara…

 

Tange um sino suave no convento…

E o sol exausto, em seu ocaso lento,

Acaba de morrer em Santa Clara.

 

 

 

 

O Francisco a ler um Manuel Alegre


Manuel Alegre: Arcos do Jardim

Manuel Alegre: Arcos do Jardim

Nasceu em Águeda em 1936. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, tendo-se distinguido na oposição ao Estado Novo, vivendo exilado em Paris e na Argélia. Após o 25 de abril, regressou a Portugal, militando no PS, distinguindo-se em diversos momentos da vida política. Foi candidato à Presidência da República em 2006. A sua obra é extensa e traduzida em várias línguas. Como poeta, destacam-se as seguintes obras: «Praça da Canção», «O Canto e as Armas» e «Atlântico».

 

Todos os dias sob os Arcos do Jardim

Todos os dias eu passava e nunca via

 

Senão arcos e arcos entre o não e o sim

Senão arcos e ogivas de melancolia.

 

Eram arcos no ritmo e na palavra

Por dentro da sintaxe e em cada imagem.

 

Todos os dias sob os Arcos eu passava

Todos os dias para a outra margem.

 

Eram arcos na rima e não havia

Senão arcos e grades e arquitraves.

 

Mas eu passava sob os Arcos e partia

Todos os dias eu partia com as aves.

 


 

O Salvador lê Manuel Silva-Terra


Manuel Silva-Terra: Coimbra

Manuel Silva-Terra nasceu em Orvalho, localidade do concelho de Oleiros, em 1955. Estudou Filosofia na Universidade de Coimbra. Destacou-se como poeta e editor da Editora Licorne. «Fragmentos», «Campos Magnéticos», «Condomínio», ou «Lira», o seu último livro, são algumas das suas obras. Reside em Évora onde é professor do ensino secundário.


Às 9h da manhã, um homem

Subia as escadas monumentais com uma

Borboleta poisada no ombro.

Nunca vi ciência mais exata.

 

 


O Alberto lê David Mourão-Ferreira: Fala Apócrifa de Dom Dinis

Nasceu em Lisboa em 1926, aí morrendo em 1996. Licenciado pela Universidade de Lisboa, onde foi professor catedrático, foi Secretário de Estado da Cultura e diretor do jornal «A Capital», já desaparecido. Foi um dos responsáveis pelas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi ensaísta, romancista, poeta, crítico literário e tradutor. Vencedor de vários prémios literários, de entre a poesia destacam-se: «A Secreta Viagem», «Do Tempo ao Coração», «Cancioneiro do Natal», «Matura Idade» e «Ode à Música».

 

«Toda a vida cantei.

(Ou foi pedir socorro?)

Jogral,

Em meu pinhal,

O próprio vento canta.

Mas sei, enfim, que morro

Desta fome que é ter

Por mulher

Uma Santa.

 

Jogral,

em meu pinhal,

já só o vento canta.»


 



O David lê um poema de D. Dinis (Ai flores, ai flores do verde pinho) com o João Tiago a espreitar


6º rei de Portugal, filho de D. Afonso III e de D. Beatriz de Castela, nasceu a 9 de outubro de 1261 e faleceu em 1325. Aclamado em1279, foi um dos mais longos reinados da história de Portugal. Deu um grande impulso à cultura, tornando oficial o uso da língua portuguesa, e fundando em Lisboa, em 1290, um Estudo Geral. Mandou traduzir importantes obras e foi, ele próprio, um destacado poeta.

 

Ai, flores, ai, flores do verde pino

 

Ai, flores, ai, flores do verde pino,

se sabedes novas do meu amigo?

           Ai, Deus, e u é?

 

Ai, flores, ai, flores do verde ramo,

se sabedes novas do meu amado?

           Ai, Deus, e u é?

 

Se sabedes novas do meu amigo,

aquel que mentiu do que pôs comigo?

           Ai, Deus, e u é?

 

Se sabedes novas do meu amado,

aquel que mentiu do que mi à jurado?

           Ai, Deus, e u é?

 

Vós me preguntades polo vosso amigo?

E eu ben vos digo que é sano e vivo.

           Ai, Deus, e u é?

 

Vós me preguntades polo vosso amado?

E eu ben vos digo que é vivo e sano.

           Ai, Deus, e u é?

 

E eu ben vos digo que é sano e vivo

e seerá vosco ante o prazo saido.

           Ai, Deus, e u é?

 

E eu ben vos digo que é vivo e sano

e seerá vosco ante o prazo passado.

           Ai, Deus, e u é?

 

Nota: O João Tiago, depois de espreitar e pensar muito, concluiu que D. Dinis, com tanto e u é, foi o inventor da palavra bué.


 



A Rita lê Vitorino Nemésio: Cantigas de Coimbra

Nasceu na Ilha Terceira em 1901 e faleceu em Lisboa, em 1978. Estudou Direito em Coimbra, trabalhando na Imprensa da Universidade, antes de se transferir para a Faculdade de Letras, onde se licenciaria em Românicas. Foi professor universitário em Lisboa. Viajado e irreverente, correspondeu-se com algumas importantes figuras da cultura europeia. Como romancista, o seu trabalho mais notável é «Mau Tempo no Canal». Como poeta, citem-se os seguintes títulos: «Festa Redonda», «Nem Toda a Noite a Vida», «O Pão e a Culpa», «O Verbo e a Morte», «O Cavalo Encantado», ou «Canto da Véspera». Ficou ainda famoso por um programa que apresentava na RTP: «Se bem me lembro!»

 

Rio que corres tão fundo,

Erva e choupos corcovados,

Nem toda a água do mundo

Faz os meus versos lavados!

 

Coimbra, minha madrinha!

Mondego, meu coração!

Ó Alta, a noiva que eu tinha

Morreu e pura paixão!

 

O meu amor que é Letrado,

Mandou-me dizer a mim

Que não me quer (desalmado!)

Com proclames em latim!

 

O meu bem anda em Direito

Aprende para juiz:

Mostra que guarda preceito

Nas sentenças que me diz.

 

O meu amor é estudante,

Caloiro de Medicina:

Já me opera o coração

Com sua lanceta fina.

 

O meu amor é estudante,

Vai-se formar em Ciências:

Não quero que se adiante,

Que as fitas medem ausências.

 

Amor que não quer sarar

Passa com panos de arnica:

Por isso eu quero casar

Com quem me ponha botica.

 

Já me formei em amores,

Tomo capelo em saudades:

Deitei fitinha de cores

Pelas cinco Faculdades.

 

As tricanas são da Alta,

Os futricas de Sansão,

O Mondego deu à malta

Um choupo por coração.



 

A Filipa lê um novo poema de Alberto de Oliveira



Alberto de Oliveira: Entrada nas aulas 

Porta-Férrea! Gerais! Via Latina!

Nomes que só dizê-los é bastante

Para voltar ao tempo de estudante

E trajar outra vez capa e batina!

 

Do claustro dos Gerais a poeira fina,

Que as capas enfarinha, é semelhante

À que mais tarde, pela vida adiante,

Será neve das cãs na fronte em ruína…

 

À porta da aula, limiar do aprisco,

Por nós espera, gótico ou mourisco?

Pedro Penedo, o mítico Doutor.

 

E cada qual de nós, ovelha ou anho,

Acode pressuroso ao seu rebanho,

Chamado pela vara do pastor.

 


 

O Guilherme a ler as «Trovas de Coimbra» com a Lapa dos Esteios ao fundo


António de Sousa: Trovas de Coimbra

Nascido em 1898, no Porto, e falecido em 1981, em Oeiras, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, colaborou em diversas revistas literárias. A sua poesia revela influência de António Nobre. Trabalhos mais importantes: «Caminhos», «Sete Luas», «O Náufrago Perfeito», «Jangada», «Livro de Bordo», «Linha de Terra», «Terra ao Mar».

 

Meu destino de estudante,                                       

que hei de ser por toda a vida,                                 

foi ir passando adiante                                             

duma Coimbra perdida.                                            

 

Fui às aulas nos Gerais

- a Cabra a chamar por mim. -

Lá me formei por demais,

mas só Deus sabe o meu fim.

 

Minha Coimbra, quem prova

como eu provei teu sabor?

António da Lua Nova,

menino do teu amor.

 

Só tu, meu Anto moreno,

Lá da Torre a vigiar

Se o luar voga sereno,

Se já passou o luar.

 

Coimbra - Santa Isabel,

como tu, linda e doente!

De manhã - favo de mel;

cravo roxo ao sol poente.

 

Ó Coimbra do Mondego

e dos amores que lá tive!

Quem te não viu anda cego;

quem te não ama, não vive.

 

Do Choupal até à Lapa

foi Coimbra os meus amores.

A sombra da minha capa

deu no chão, abriu em flores.


 

A Matilde presta homenagem ao patrono da nossa escola

 

Eugénio de Castro: Palácios Confusos

Nasceu e morreu em Coimbra (março de 1869 - agosto de 1944). Licenciado na Faculdade de Letras, foi seu professor e diretor. Considerado o fundador do Simbolismo na literatura portuguesa, polemizou com António Nobre e Alberto de Oliveira. «Oaristos» é o seu livro mais famoso.

 

Na minha doce Coimbra, a sul virado,

Dominando o Mondego e os seus salgueiros,

Há um bairro de humildes pardieiros,

Que Palácios Confusos é chamado.

 

Tão belo nome evoca no passado

Rica chusma de paços altaneiros

Com torres, grimpas, varandins ligeiros

E flâmulas a arder no céu lavado.

 

O tempo voador, que tudo come,

De tais riquezas só poupou o nome;

Tudo ali hoje é pobre, velho e estreito,

 

Sem um vislumbre do esplendor extinto!

Ó Palácios Confusos, também sinto

Uns palácios confusos no meu peito!

 

 

A Carolina, defronte da casa habitada por José Afonso enquanto estudante, lê um poema dedicado ao cantor pela poetisa Natália Correia


Natália Correia: Zeca Afonso: Trovador da Voz D’Ouro Insubmisso

Poetisa, ficcionista, autora dramática e ensaísta, nascida em 1923 nos Açores e falecida em 1993. Conhecida pela sua irreverência, distinguiu-se igualmente na vida política, tendo sido deputada. Assinou uma série de programas televisivos («Mátria») que a projetaram junto do grande público.

A sua obra poética completa foi publicada em 1999, num volume com mais de 600 páginas.

 

É de murta e de mar a tua voz

Com algas de canção estrangulada.

Aberta a concha da trova malsofrida

Saíste como sai a madrugada

Da noite, virginal e humedecida.

 

É de vinho e de pinho a tua voz

Com pranto de insofríveis flores banidas.

Mas é pela tua garganta que soltamos

As eriçadas aves proibida

Que no muro do medo desenhamos.

 

O João Tiago prepara-se para maravilhar os seus colegas com a declamação de um poema nas escadarias da Sé

 

Mário Saa: Ali à Sé Velha

Nasceu nas Caldas da Rainha em 1893, vindo a falecer em Avis, no Alentejo, de onde era originária a sua família, em 1971. Foi aqui que viveu a maior parte da sua vida, numa grande propriedade familiar. Frequentou vários cursos que nunca concluiu, desenvolvendo a sua atividade cultural em muitos domínios, desde a arqueologia à poesia. O anti-semitismo é uma das facetas menos divulgadas do seu pensamento. Como poeta, frequentou as principais tertúlias do seu tempo, publicando nas revistas mais famosas, entre elas a «Presença».


Bocas e violas, num rojar de rondas,

Timbram de outrora o luar duma cantiga;

Mulheres formosas da cidade antiga

Estendem-se mortas, rígidas de lua!

                                                                 

Ergue-se a abóbada da arcaria às ondas,

Tangem violas os chorões da rua;

É a hora em que a saudade se insinua

Como um vislumbre num canal de gôndolas.

 

Amainaram as violas, na noite alta.

Quem assobia assobiadelas de ópera.

Quem passa, agora, nos desvãos da rua?...

 

Vão-se apagando as luzes da ribalta,

Sobre o pano de boca o vento sopra,

Pintada e trémula a Catedral flutua…


 


Manuel Alegre: Torre de Anto

 

Uma torre constrói-se com palavras

com lembranças com vírgulas

com desastres

como um corpo despido devagar

como vida virada do avesso

poisada sobre o vento e sobre a chuva

uma torre constrói-se com mãos nuas

uma torre com versos hemoptises [1]

e com tudo o que fica depois

de tudo:

as cartas os retratos restos

pó.

Uma torre com duas letras

só.

 

[1] Expetoração de sangue.

 

 

 A Raquel e a Inês leram Manuel Alegre e António Nobre junto à Torre de Anto

 

António Nobre

Nasceu no Porto em 1867. Estudou Direito em Coimbra, onde conheceu Alberto de Oliveira, sendo um dos fundadores do movimento Simbolista.

Em 1890 vai para Paris, onde a tuberculose o impediu de exercer o cargo de cônsul. Viajou entre Lisboa, Porto, Suíça e Madeira, procurando uma cura para a doença. Morreu na Foz do Douro em 1900, com 32 anos de idade. É autor do livro «Só», «o mais triste que há em Portugal», segundo as suas próprias palavras.

Habitou uma torre da muralha medieval da cidade, que assim ficou conhecida como «Torre de Anto».

 

Todas as tardes, vou Léman [2] acima

(E leve o tempo passa nessas tardes)

A pensar em Coimbra. Que saudades!

Diogo Bernardes deste meigo Lima.

 

Na solidão, pensar em ti, anima,

Oh Coimbra sem par, flor das Cidades!

Os rapazes tão bons nessas idades

(Antes que a vida ponha a mão em cima)

 

Alegres cantam nos teus arrabaldes.

Por mais que tire vêm cheios os baldes,

Mar de recordações, poço sem fundo!

 

Freirinhas de Tentúgal, passos lentos!

E o chá com bolos, dentro dos conventos!

Meu Deus! meu Deus! E eu sempre a errar no Mundo!

 

[2] Lago suíço.

 

 

A Maria, que não queria ler, evoca o assassinato de Maria Teles num poema de Luz Videira

 

Luz Videira: Palácio de Sub-Ripas

Nasceu em Coimbra, no ano de 1939 e faleceu, também em Coimbra, em 2003. Licenciou-se em Germânicas na Universidade de Coimbra. Foi Leitora de Português em universidades alemãs e professora em escolas secundárias da cidade, concluindo a carreira como docente na Faculdade de Letras. Publicou livros didáticos de Alemão, contos e poesias, como por exemplo: «Maré Cheia», «As 4 Estações», «Variações sobre um Tema», «Abril Desencantado», «Coimbra Mágica», entre outros.

 

Mino-lhe o porte nobre,

As portas e janelas trabalhadas,

Os relevos de fino lavor.

Vejo, porém, sem ver.

Oiço um grito de dor

Ecoando no tempo.

Por inveja, ciúme

E sinistros interesses,

Maria Teles acaba de morrer.[5]

 

[5] Referência ao assassinato de Maria Teles, irmã de D. Leonor Teles, presumivelmente assassinada neste local, em 1379, pelo seu próprio esposo, o infante D. João, meio-irmão do rei D. Fernando com quem casara em segundas núpcias, depois de enviuvar. Conta Fernão Lopes que Leonor Teles, temendo a popularidade do infante, concebeu o plano de o casar com a infanta D. Beatriz, sendo para isso necessário eliminar Maria Teles, o que ele fez, cego pela ambição. Foi depois perseguido pela justiça, acabando refugiado em Castela.

 



O João com o Arco de Almedina ao fundo

 

Manuel Alegre: Arco de Almedina

 

Sob o Arco de Almedina entre o ditongo e o til

lá onde cheira a nardo e a jasmim

no interior dos pátios entre a cedilha e o trema

do outro lado da língua onde de súbito

o poema.

 

Sob o Arco da Almedina sob o Arco

entre azulejo e álgebra

lá onde mora aquela que não vem

sob o Arco de Almedina onde de súbito

ninguém.

 

Sol e sombra no canto e no silêncio

sob o Arco de Almedina onde o alaúde

canta um amor perdido entre o salgueiro e o barco.

Sob o Arco de Almedina. Sob

o Arco.

  

  Em frente à casa onde nasceu o poeta Eugénio de Castro, em 1869, na rua Ferreira Borges, o Eduardo lê um poema.


Eugénio de Castro: Epígrafe

 

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,

Lentas gotas de som no relógio da torre,

Fio de areia na ampulheta vigilante,

Leve sombra azulando a pedra do quadrante,

Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

 

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,

Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?

Procuremos somente a Beleza, que a vida

É um punhado infantil de areia ressequida,

Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...

 


 

A Filipa no Largo da Portagem

 

Vasco Pereira da Costa: Largo da Portagem

Natural de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, Vasco Pereira da Costa viveu em Coimbra desde 1966, onde se licenciou na Faculdade de Letras em Filologia Românica.

Publicou «Nas Escadas do Império», «Amanhece a Cidade», «Venho cá mandado do Senhor Espírito Santo», «Memória Breve», «Riscos de Marear», «Sobre-Ripas/Sobre-Rimas», «Terras» e «My Californian Friends». Em 1984, recebeu o Prémio Literário Miguel Torga.

 

Desperta o rio

Ao lado da cidade quieta

 

Esvai-se a noite em amor

Em quimera e desafio

Numa balada do Zeca

 

Uma vela de sol moço

Acorda

E repõe o alvoroço

Na barca da rebeldia

 

Trás da janela do Torga

Portugal parte à poesia.


 

 

Miguel Torga e castanhas na Portagem


Miguel Torga: Portugal

Pseudónimo de Adolfo Rocha. Nasceu em S. Martinho de Anta em 1907. Viveu no Brasil durante a infância, vindo a licenciar-se em Medicina, em Coimbra, onde passou a viver e onde veio a falecer em 1995. Foi autor de peças dramáticas e ficcionista, além de poeta.  Estreou-se com «Ansiedades», destacando-se no domínio da poesia com «Orfeu Rebelde», «Cântico do Homem», bem como através de muitos poemas dispersos pelos dezasseis volumes do seu «Diário». Recebeu o Prémio Camões em 1989 e o prémio Vida Literária (atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores) em 1992.

O poema é lido defronte do local onde o poeta mantinha o seu consultório médico, no Largo da Portagem.

 

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,

E torno mais real o rosto que te dou.

Mostro aos olhos que não te desfigura

Quem te desfigurou.

Criatura da tua criatura,

Serás sempre o que sou.

 

E eu sou a liberdade dum perfil

Desenhado no mar.

Ondulo e permaneço.

Cavo, remo, imagino,

E descubro na bruma o meu destino

Que de antemão conheço:

 

Teimoso aventureiro da ilusão,

Surdo às razões do tempo e da fortuna,

Achar sem nunca achar o que procuro,

Exilado

Na gávea do futuro,

Mais alta ainda do que no passado.

 

 



José Ribeiro Ferreira: Chegam e logo partem

Natural de Santo Tirso, é professor catedrático jubilado na Faculdade de Letras de Coimbra. Tem mais de centena e meia de trabalhos publicados - entre livros, artigos em revistas e enciclopédias. No domínio da poesia é autor de «Ulisses sem Feaces», «Os Olhos no Presente», «Pesa o Momento a Eternidade», «Telhas de Outro Alpendre», «A Outra Face do Labirinto».

O poema selecionado é dedicado aos quartanistas de Línguas e Literaturas Clássicas, 1988.

 

Povoam-nos a vida de sonhos ano a ano

E a luz conforta os olhos.

 

Um dia os vê chegar, no outro partem.

Algo de nós se vai, ou nos fica deles parte?

 

Sobre cada um o silêncio cai fecundo

E sem espera a partida erma nossos passos.

 

Dos sonhos que trouxeram crescem sonhos?

Dentro de alma livre voa o pensamento?

Alongue-se o tempo,

Esfumem-se as imagens,

Diluam-se as palavras…

 

Não é ermo,

Não limita o silêncio que se cria.

 

 

 

Quando já pensávamos que o nosso passeio tinha chegado ao fim, tivemos uma agradável surpresa: nada menos que o professor Ribeiro Ferreira em pessoa! Este professor catedrático da Faculdade de Letras, especialista em história, língua e cultura gregas, foi professor dos nossos professores e, muito amavelmente, aceitou o convite para estar presente no final do final do nosso percurso. Além de professor catedrático, Ribeiro Ferreira é um poeta com vários livros publicados. Foi assim, neste cenário sugestivo, junto ao Mondego, que concluímos o nosso itinerário, escutando alguns dos seus poemas, lidos pelo próprio. E ainda levámos alguns livros para a biblioteca da escola!

 



publicado por CP às 10:29
Sábado, 19 de Outubro de 2013

 

O boletim meteorológico anunciava chuva para a tarde de sexta-feira, mas a malta do Clube do Património não acredita em boletins meteorológicos e, por isso, quase ninguém levou guarda-chuva. Alguns acharam até que o professor e o João Aveiro eram uns tótós, pois eram os únicos que, à saída da escola, com um sol ainda radioso e um céu limpo, iam devidamente equipados para a chuva. No entanto, não tardou que, a caminho do mosteiro de Santa Clara-a-Nova, junto ao Portugal dos Pequenitos, o tempo mudasse, começando a chover copiosamente. Foi quando muitos procuraram resguardar-se sob o chapéu-de-chuva do professor, insuficiente para tantos amigos súbitos. A molha foi  pois inevitável, e tão molhados ficaram os nossos sócios que até pensamos mudar o nome do clube para Clube dos Tótós Molhados (menos 2)

 

 

Depois de na semana passada termos visitado o Museu Machado de Castro e conhecido a obra de Mestre Pêro, o objetivo da nossa deslocação a Santa Clara era conhecer o túmulo de pedra que o escultor produziu para a rainha Isabel de Aragão e que foi para aqui deslocado quando o mosteiro velho, junto à margem do Mondego, foi abandonado. No entanto, ainda não foi desta que pudemos conhecer o túmulo, pois decorrem trabalhos de restauro. Fica para a próxima.

Mas não pensem que a visita foi em vão, pois são muitos os motivos de interesse. A professora Conceição guiou-nos pela igreja do mosteiro e pelo claustro.

 

 

O edifício da igreja é um dos exemplos mais notáveis da arquitetura do período da Restauração, isto é, da segunda metade do séc. XVII. O projeto deste mosteiro das clarissas, variante feminina da ordem franciscana, deve-se ao monge beneditino frei João Turriano (1610-1679), engenheiro-mor das obras do reino. As obras foram conduzidas pelos mestres Domingos e Pedro de Freitas. As paredes começaram a ser construídas em 1649 e têm uma espessura superior a 3 metros, o que confere à construção um aspeto muito sólido. Ainda que o convento se tenha instalado em 1677, os trabalhos só se concluiram em 1696, já sob a direção de Mateus do Couto, no reinado de D. Pedro II.  O claustro, que visitamos de seguida, é posterior, data do séc. XVIII, do tempo de D. João V.

 

 

 

A igreja tem um comprimento de 27,5 metros, por 14 de largura. Uma imponente abóbada cobre a nave a 25 metros de altura. No altar-mor destaca-se o belíssimo trabalho em talha dourada com as colunas torcidas. Notámos ainda os gradeamentos em madeira exótica, da responsabilidade dos carpinteiros António Azevedo Fernandes e Domingos Nunes. Ao centro, dentro de uma redoma envidraçada, está o túmulo de prata que aloja os restos mortais de Isabel de Aragão, padroeira da cidade de Coimbra, canonizada em 1625, sendo conhecida por Rainha Santa. Este túmulo foi mandado fazer por D. Afonso de Castelo Branco, ainda antes da canonização, quando foi aberto o túmulo de pedra e, com autorização do Papa, o corpo começou a ser venerado nos altares.

Na outra extremidade da nave, avulta uma imagem esculpida por Teixeira Lopes que é transportada no andor na famosa procissão entre esta igreja e a igreja da Graça, na rua da Sofia. A imagem está guardada atrás de uma grade de ferro que, antigamente, separava a nave da igreja do espaço de clausura reservado às freiras. 

 

 

É certo que não pudemos aceder ao túmulo da rainha, mas a professora Conceição não desperdiçou a chance de nos dar uma lição junto a um dos dois túmulos de pedra que se encontram nas zonas laterais da igreja, justamente o da infanta D. Isabel, neta da Rainha Santa, falecida por volta de 1326, com apenas 2 anos de idade. É uma miniatura do túmulo da avó, esculpido pelo tal Mestre Pêro, pelo que ficamos com uma ideia! A arca é em calcário, exibindo a estátua jacente coroada e acompanhada por quatro anjos com a missão de conduzirem a alma da criança para o Paraíso. Aos pés, estão dois leões, recordando o texto bíblico: «Poderás caminhar em cima de serpentes e víboras, calcar aos pés leões e dragões.» (Salmos 91:13)

 

 

Daqui, passamos para o magnífico claustro, muito pouco conhecido, mesmo dos conimbricenses, apesar da sua grande qualidade arquitetónica e das suas grandes dimensões. O desenho deve-se ao arquiteto de origem húngara Carlos Mardel, que trabalhava normalmente para a corte de D. João V, contratado para as obras do aqueduto das Águas Livres, vindo posteriormente a distinguir-se nos trabalhos de reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755. 

 

 

O claustro tem uma planta quadrada definida pelo comprimento da nave da igreja a que está anexo. Os corredores são muito largos e robustos, sugerindo um ambiente militar. Cada uma das quatro galerias abre sete arcos virados para o interior, tendo de permeio pares de colunas dóricas. No piso superior, os arcos são encimados por janelas e varandins, enquando que as colunas dóricas são continuadas por nichos que deveriam alojar esculturas que nunca foram executadas. Esses nichos são ladeados por colunas jónicas que sustentam frontões triangulares.

 

 

Os cantos do claustro são curvos com tanques na base, os jardins estão cuidados, apesar de alguns troços do claustro apresentarem alguns sinais de degradação. Como a chuva era muita, não pudemos andar a pular pelos canteiros, mas corremos pelos corredores até nos cansarmos.

Aproveitamos para agradecer ao Professor Doutor António Manuel Ribeiro Rebelo,  Presidente da Mesa Administrativa da Confraria da Rainha Santa Isabel, que nos autorizou a visita. Recordamos que é esta confraria que tem à sua guarda todos estes espaços, bem como o importantíssimo espólio. Como não conseguimos visitar o túmulo de pedra, sendo esta a segunda tentativa, fica prometido um regresso a Santa Clara-a-Nova! 

 



publicado por CP às 22:21
Sábado, 12 de Outubro de 2013

 

Na sexta-feira, o Museu Nacional Machado de Castro comemorou os 100 anos da abertura ao público. Foi exatamente no dia 11 de outubro de 1913 que, criado dois anos antes, abriu pela primeira vez as portas aos visitantes. Para assinalar esta data, o Museu promove uma série de atividades para as quais convida toda a comunidade: novas exposições, visitas especiais, recriações históricas, momentos musicais, entre outras iniciativas. Nestes dias 11 e 12 a entrada foi gratuita!



Claro que nós não podíamos faltar e fizemos questão de nos associarmos às comemorações do centenário, marcando a nossa presença e correspondendo ao convite da direção  e dos serviços pedagógicos que sempre nos recebem tão bem. Na sexta-feira, lá nos dirigimos então ao Machado de Castro, onde fomos recebidos pelo Pedro Ferrão, um técnico superior já nosso conhecido. Na verdade, é já um velho amigo do nosso Clube!



De entre essas atividades, destacamos as visitas guiadas, no dia 12 de outubro, por jovens das escolas de Coimbra. Os serviços pedagógicos convidaram os alunos da Escola Eugénio de Castro que frequentam o clube do Património a participar nesta atividade.  Para o efeito, na sexta-feira dia 11, véspera do evento, deslocámo-nos ao Museu para preparar a nossa participação.

 

 

O Pedro foi muito amável e guiou-nos por alguns dos espaços. Claro que não podemos visitar o Museu todo, pois é muito grande. Fica aqui uma recomendação: nestes museus é impossível visitar todas as secções a apreciar todas as peças. Por isso, recomenda-se que o visitante faça uma pré-seleção, escolhendo as salas e as peças que mais curiosidade e interesse lhe despertam. Depois, aconselha-se o regresso, fazendo assim destas visitas um hábito. O João Tiago até nos lembrou que em museus como o Louvre, por exemplo, se o visitante reservar 5 minutos para cada peça, demorará uma série de anos a visitar tudo! De tal maneira que quando concluisse o percurso, já estaria certtamente esquecido do início!

 

 

Por essa razão, o Pedro perguntou-nos quais eram as nossas coleções preferidas. Na verdade, já não somos uns novatos nestas andanças, pois desde que o Museu reabriu após as obras de remodelação já o visitámos em diversas ocasiões e, ainda assim, há salas que ainda conhecemos muito mal, o que só significa que teremos que voltar! Mesmo os membros recém-chegados, os caloiros admitidos este ano, confessaram, com algumas exceções, já conhecerem o Machado de Castro, principalmente o criptopórtico.

 

 

Foi exatamente o criptopórtico, bem como a coleção de escultura medieval, que os sócios do Clube escolheram para esta visita. É certo que alguns, como o David, manifestaram a sua predileção pela coleção de joalharia e ourivesaria, com destaque para as joias da Rainha Santa Isabel. Mas, na impossibilidade de visitarmos mais do que duas coleções, por falta de tempo, combinámos conhecer o criptopórtico e a coleção de escultura.

 

 

Não vamos neste texto entrar em muitos detalhes sobre as informações que o Pedro nos forneceu, pois o intuito desta visita era, como já foi referido, preparar os membros do Clube para o evento do dia seguinte em que lhes foi solicitado que, por um dia, fossem guias e conduzissem os visitantes adultos. Para tal, o Pedro preparou os nossos voluntários, inteirando-os de alguns aspetos importantes acerca da história do Museu e da sua implantação na malha urbana da cidade, desde os tempos romanos até à atualidade. 

 

 

Percorremos as galerias do criptopórtico e destacámos os retratos de Trajano, Vespasiano, Lívia e Agripina. Decifrámos inscrições, com destaque para aquela que continha uma referência aos habitantes da cidade de Aeminium e que permitiu aos arqueólogos identificar a cidade de Coimbra com a Aeminium romana. O altar, ou ara, em que os habitantes romanos faziam os sacrifícos de animais que ofereciam aos deuses mereceu também a ossa atenção, tal como o marco miliário que em tempos estava colocado na zona da atual Adémia informando da distância, em milhas, até à cidade. Tudo muito interessante!

 

 

 

 Quanto à escultura, nunca é demais lembrar que a nossa cidade foi o mais importante centro produtor da Idade Média. Desde tempos muito antigos, aqui se fixaram muitos artistas, aproveitando a excelência da matéria-prima das redondezas, o célebre calcário que contrasta com o granito do norte do país, conforme observámos naquele anjo de  granito proveniente da Sé do Porto. Por outro lado, a posição geográfica da cidade, a acessibilidade e a sua importância política, criavam as condições para o trabalho dos escultores.

 

 

No entanto, apesar de toda esta tradição, foi com Mestre Pêro, um escultor de origem estrangeira que no século XIV chegou a Coimbra acompanhando a Rainha Isabel de Aragão e com o encargo de lhe esculpir o túmulo, que a escultura da cidade adquiriu uma outra dimensão, podendo considerar-se este artista como o fundador da escola coimbricense que dominaria o panorama escultórico nacional durante centenas de anos.

 

 

Na próxima semana, por coincidência, temos já agendada uma visita ao túmulo de pedra da rainha Isabel de Aragão, no mosteiro de Santa-Clara-a-Nova. Para já, destacámos, deste escultor, as designadas Nossa Senhora do Ó, por representarem a Virgem em adiantado estado de gravidez, o que, em dada altura, foi considerado indecente pelos inquisidores, o que determinou a destruição de muitas destas representações. Detivemo-nos igualmente na escultura do cavaleiro Domingos Joanes, proveniente de Oliveira do Hospital e que é uma das peças mais emblemáticas do Museu.

 

 

De seguida, comovemo-nos com o Cristo Negro, proveniente de Santa Cruz e com as obras da Renascença, destacando, naturalmente, o grande escultor João de Ruão, artista de origem francesa que, no século XVI, se instalou em Coimbra e marcou decisivamente a arte portuguesa desse período. O Museu possui uma vasta coleção de peças de João de Ruão, oriundas de igrejas e conventos da cidade e das redondezas, e que constituem um dos principais fatores de atração.

 

 

Admirando os magníficos retábulos de João de Ruão e dos seus colaboradores, não podíamos deixar de notar a imponente capela do Tesoureiro, aqui remontada depois de trazida, peça a peça, do convento de S. Domingos, situado na rua da Sofia. Atualmente é um centro comercial, mas foi em tempos uma importantíssimo convento. Nos anos 60 do século passado, esta capela, patrocinada pelo tesoureiro da Sé, foi para aqui transportada. O arquiteto Gonçalo Byrne, responsável pelo projeto arquitetónico de remodelação e ampliação do Museu, teve a feliz ideia de recriar neste local, que foi em tempos um pátio interior descoberto, uma nave destinada a acolher os vários retábulos. Está magnífico!

 

 

Antes de nos despedirmos, que o tempo já escasseava, tivemos ainda tempo para nos impressionarmos com uma representação de S. Bartolomeu a ser esfolado vido. É verdadeiramente impressionante, e não é nada fácil de explicar como é que um motivo tão repugnante suscita sempre tanta curiosidade. Ficámos a saber quem foi S. Bartolomeu, o modo como foi martirizado e o destino desta representação, origiariamente concebida para a igreja de S. Bartolomeu, na Baixa da cidade. O Pedro contou-nos que esta escultura causava tanta impressão aos fiéis que acabaram por pedir ao pároco que a retirasse da vista dos crentes e a escondesse na sacristia, local de onde veio para aqui. Os nossos sócios, que não se deixam impressionar com a facilidade dos paroquianos da Baixa, ficaram ainda a saber a razão pela qual Bartolomeu é ainda hoje o padroeiro dos dermatologistas!



Despedimo-nos agora com a Deposição  no túmulo, esta obra-prima de João de Ruão, convidando os pais, familiares e amigos dos membros do Clube do Património a visitarem o Museu Machado de Castro, associando-se à comemoração do centenário.

Entretanto, cabe dizer que, no dia 12 de outubro, pelas 10:00, a Filipa saiu-se muito bem a guiar as visitas! Foram muitos os elogios! Ficam para breve as fotografias desse momento.



publicado por CP às 21:28
Sábado, 05 de Outubro de 2013

 

 

Raul Lino foi um dos mais importantes arquitetos portugueses do século XX. Nascido ainda em 1879, teve uma longa vida, falecendo em 1974. A sua carreira profissional foi igualmente longa. Iniciou a sua formação muito jovem, em Inglaterra, tendo depois estudado na Alemanha com Albrecht Haupt, um importante arquiteto e estudioso da história da arquitetura portuguesa, de quem Raul Lino se fez discípulo e amigo.

 

Regressado a Portugal ainda antes do final do século, Raul Lino iniciou uma intensa atividade profissional, projetando uma série de edifícios que logo se distinguiram pela sua originalidade. Foi o responsável pelo projeto do pavilhão português na Exposição Universal de Paris de 1900, mas foi como autor de desenhos de moradias familiares da burguesia endinheirada da capital que Lino se celebrizou. As suas vivendas, familiares e tradicionais, com uma preocupação de envolvimento na paisagem e respeito pelas técnicas artesanais, reagiam à arquitetura e ao urbanismo modernistas que enchiam as cidades de blocos de apartamentos, fabricados com materias industriais e numa estética uniformizada. 

 

 

 

 

Raul Lino procurou sempre, nos seus projetos e nos seus escritos teóricos, encontrar um modelo do que chamava «a casa portuguesa», isto é, um tipo de construção de vivendas unifamiliares, adaptadas às condições naturais envolventes, nomeadamente climatéricas, à tradição histórica e ao enraizamento popular, recorrendo às técnicas tradicionais e aos ofícios artesanais, bem como aos materiais locais. Para isso, estudou a arquitetura tradicional portuguesa, viajando por todo o território e estudando a história do país e das regiões que percorria.

 

Os jardins eram sempre uma preocupação nos seus projetos, ainda que as suas casas fossem concebidas a partir do interior. Mais do que as fachadas ou o exibicionismo, Raul Lino pretendia que os espaços domésticos fossem confortáveis e que servissem o modo de vida dos seus ocupantes. Outra preocupação era que as moradias perdurassem como um legado para as gerações posteriores. Por outras palavras, que a casa de família unisse as gerações presentes às vindouras, criando um laço entre as gerações.

 

 

 

 

 

 

 

Apesar de Lisboa e os seus arredores terem sido o palco das mais importantes construções de Raul Lino, os seus serviços também foram solicitados em Coimbra. Nas primeiras décadas do século XX, a nossa cidade, como outras do país, conheceu um período de crescimento. Alguns burgueses da cidade contrataram então o arquiteto Raul Lino, que se desloca pela primeira vez a Coimbra em 1902, para traçar as suas residências familiares.

 

 

 

Começámos o nosso itinerário no Jardim-escola João de Deus, junto ao Jardim Botânico, que foi a primeira instituição de educação infantil do nosso país fiel aos princípios pedagógicos preconizados pelo poeta João de Deus. Este edifício escolar foi inaugurado em 1911, pelo que comemorou recentemente o seu centenário. O terreno foi cedido pela Câmara Municipal e os fundos para a sua construção foram angariados com as receitas dos espetáculos do Orfeão Académico.

O interior, que não visitámos, caracteriza-se pela luminosidade, dado que foi preocupação do arquiteto que a luz solar, por razões higiénicas e pedagógicas, penatrasse nas salas de aula, onde existem pinturas de António Carneiro.

 

 

 

 

 

No exterior, já muito acrescentado relativamente ao projeto original, reparámos nos beirais dos telhados, que constituem uma característica identificadora do trabalho de Raul Lino, bem como no contraste resultante do branco das paredes caiadas com o vermelho das tijoleiras.

 

 

Daqui, seguimos, através do Jardim Botânico e da Rua de Tomar, para a Rua Venâncio Rodrigues, onde admirámos um outro projeto de Raul Lino. Trata-se de uma vivenda familiar que pertenceu ao sr. António Maria Pimenta, provavelmente datado de 1902. Reparámos no telhado rematado com suaves arrebiques e encimado por uma clarabóia.

 

  

 

 

Na fachada, a silharia de tijolo atesta mais uma vez a preferência de Lino por este material. No alpendre, recuperado da arquitetura tradicional, destacam-se as colunas de capitéis cúbicos. A fachada da casa está decorada com belos painéis de azulejos, enquanto que a intimidade e segurança estão garantidas pela cerca de ferro forjado, separando muito bem o espaço privado da via pública.

 

 

Descendo a rua Venâncio Rodrigues até à Rua Alexandre Herculano, encontramos aqui outras duas construções devidas ao nosso arquiteto. Notemos, primeiramente, o edifício sede da Associação Cristã da Mocidade (ACM).

 

 

Antes de se designar ACM, esta organização internacional que visa a educação física e moral da juventude, chamava-se Federação Mundial de Académicos e pretendia conciliar a militância religiosa com a formação desportiva e a atividade física dos estudantes. O projeto data provavelmente de 1916, ainda que a inauguração seja posterior e siga o mesmo modelo do jardim-escola. A fachada é sóbria e discreta, notando-se mais uma vez o recurso ao tijolo. Na esquina do prédio, reparámos no emblema da ACM.

 

 

 

 

Um pouco mais adiante, no mesmo lado da rua Alexandre Herculano, no sentido da Praça da República, encontramos a vivenda Caetano da Silva, onde há pouco funcionava o Centro de Recuperação Mental Infantil. É uma grande moradia com dois pisos, com um sótão largo e uma cave espaçosa. Na fachada, destaca-se como principal elemento decorativo um painel corrido de azulejos, atestando mais uma vez a preferência dada aos materiais e às técnicas tradicionais. RAtentámos ainda no trabalho do ferro forjado, arte muito implantada na nossa cidade.

 

 

É possível, dada a dimensão deste prédio e a sua conceção espacial, que o edifício tenha sido projetado para residência de mais do que uma família. Embora não possamos ver da rua, nas traseiras da casa existiu em tempos um recolhido, íntimo e acolhedor jardim interior, o que é muito típico das ideias de Raul Lino.

 

 

Para visitarmos a próxima obra de Raul Lino em Coimbra, tivemos que andar bastante. O nosso clube não é para mariquinhas, nem meninos da mamã. Por isso, pusemos à prova os nossos novos sócios e subimos as Escadas Monumentais. Os mais velhos recordam ainda aquele já longínquo ano, em fevereiro de 2010, em que o João Tiago e o Raul, então dois jovens caloiros, subiram a interminável escadaria. Agora, foi a vez dos caloiros do quinto ano, a quem aproveitamos para dar as boas-vindas.

 

 

Descendo a Couraça de Lisboa, chegamos ao antigo edifício do Governo Civil de Coimbra. Este prédio começou por ser pensado para ser um hotel, o Palace Hotel Estrela, tendo-se iniciado as obras em 1923, seguindo projeto de Raul Lino. Situado sobre a linha das muralhas medievais da cidade, e alcandorado sobre o Mondego, beneficia de uma excelente posição, com belíssimas vistas sobre o rio e a cidade. À época, existiam no local as ruínas de um antigo colégio, o Colégio de Santo António da Estrela.

 

 

O hotel pretendia ser um importante fator de desenvolvimento de Coimbra, prevendo-se 90 quartos! A verdade porém é que não chegou a ser construído, dada a falência da empresa construtora. Após uma fase de indefinição, as obras arrancaram outra vez em 1925, depois de  o edifício ter sido adquirido pelo professor Ângelo da Fonseca, conhecido médico e famoso professor catedrático da Universidade. Raul Lino foi chamado para proceder às obras de adaptação às novas funções residenciais. Aqui morou o Dr. Ângelo da Fonseca até à sua morte. Em 1952, aqui se instalou, até há poucos meses, o Governo Civil.

 

 

Mais uma vez, destaca-se o jardim exterior com um belíssimo miradouro, muito semelhante à pérgola que Lino projetará para a vila de Penacova. Muito interessante é o espaço claustral que foi construído sobre as ruínas do antigo claustro do colégio universitário e que preserva uma evidente reminiscência dos tempos medievais. Como não pudemos entrar nos jardins, descemos até ao Largo da Portagem, admirando a localização sobranceira da residência que aguarda uma nova utilização já que, desde que foi extinto o governo civil, tem estado desocupado. Esperamos todos que em breve se encontre um fim para tão belo edifício, com uma posição tão privilegiada, e que se evite o seu abandono e degradação.

 

 

Antes de nos despedirmos, há ainda que referir que o arquiteto Raul Lino deixou na nossa cidade uma outra construção que, por ser deslocada do centro de Coimbra não conseguimos visitar mas que deixamos o desafio para que a conheçam. Trata-se de uma moradia de uma quinta mandada construir pelo sr. Francisco França Amado, na freguesia de Castelo Viegas. Datada dos finais da década de 20, ou inícios da seguinte, do século XX, a quinta atualmente conhecida como da Urgeiriça, era antes chamada Quinta da Lapa. Localiza-se sobre um penhasco sobranceiro ao belíssimo vale da Conraria e merece bem uma visita.

 

 

Este texto foi redigido a partir do artigo de Lurdes Craveiro intitulado «Raul Lino em Coimbra» e publicado na revista «Mundo da Arte» (nº 15, setembro de 1983; pp. 31 - 44)



publicado por CP às 06:48
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