Sábado, 24 de Novembro de 2012

 

 

Na sexta-feira, decidimos visitar uma república de estudantes. Estas repúblicas constituem uma das mais emblemáticas instituições da vida estudantil da nossa cidade. As origens das repúblicas remontam, segundo alguns, aos tempos do rei D. Dinis, quando foi autorizada a instalação de residências de estudantes na zona da Almedina, isto é, dentro das muralhas. Os estudantes deveriam, nos termos da decisão régia, pagar um aluguer definido pelas autoridades locais, tendo assim oportunidade de partilhar a residência, as refeições e ajudarem-se mutuamente, nascendo então uma forma de vida comunitária que chegou aos nossos dias.

 

 

Na nossa visita, fomos guiados pelo Paulo que, juntamente com os seus companheiros, nos recebeu amavelmente nos Paços da República dos Kágados, localizados na  rua Joaquim António de Aguiar, junto à Sé Velha. Também se pode chegar à República através de uma escadaria transversal a que os habitantes da residência chamaram As Escadas Kagadais, ironizando com a grandiosidade das Escadas Monumentais.


 


A República dos Kágados é a mais antiga de Coimbra, foi fundada por estudantes minhotos no dia 1 de Dezembro de 1933, aprestando-se pois para comemorar o 79º aniversário. Não tarda, estão octogenários! Os nomes dos fundadores são divulgados na página dos Kágados na internet, e merecem ficar aqui registados: Álvaro Ferreira, Aníbal Ferreira, António Gonçalves, Guilherme Andrade, José Mota Marques, Júlio Leite, Osvaldo Matos e Renato Matos. Foram estes os primeiros repúblicos. 


 


Ao longo das décadas muitos têm sido os repúblicos que têm passado pelos Paços da República dos Kágados. Todos deixam a sua marca e os atuais residentes fazem questão de manter viva a memória de todos os que por ali passaram. Deste modo, além de organizarem reuniões periódicas com os antigos camaradas, principalmente por ocasião do aniversário da República, a que chamam Centenário, a casa está repleta de inscrições, objetos, fotografias e muitas memórias de acontecimentos e personagens de outrora.


 


Alguns dos antigos repúblicos viriam a tornar-se personalidades de destaque na vida social e cultural da nossa cidade e do nosso país. O cantor José Mário Branco, por exemplo, foi membro desta República. Outro cantor e autor muito famoso, Zeca Afonso, embora não fizesse parte dos Kágados, frequentava os Paços, uma vez que residia junto à Sé Velha, nas proximidades da residência. O Paulo explicou-nos que, por essa razão, um dos quartos foi pintado com versos da canção que se popularizou no dia 25 de abril de 1974: Grândola, vila morena. Na imagem superior, vemos o nosso José Afonso na mesma cozinha em que o outro José Afonso tocou muitas guitarradas e cantou muitos poemas da sua autoria.


 


Um dos aspetos mais interessantes da vida nas Repúblicas é a partilha de tarefas entre os membros da comunidade. Todas as semanas, os kágados reunem-se e distribuem as tarefas entre si, nomeadamente a responsabilidade de cozinhar. A cada um é atribuído um dia da semana em que tem que preparar as refeições para os restantes, bem como lavar a loiça e arrumar a cozinha. Os géneros alimentares são adquiridos nos armazéns dos serviços sociais da Universidade, ou então nas pequenas mercearias locais, uma vez que os kágados se assumem como protetores do pequeno comércio. A escala de serviço é afixada, como podemos ver na imagem, na cozinha, para que todos saibam as tarefas que lhes cabem. Todos os dias tomam aqui as suas refeições cerca de 15 elementos, pois que, para além dos repúblicos, há os comensais, ou seja, os convidados e amigos que, embora não sendo residentes, frequentam os Paços da República.


 


Um dos objetos mais curiosos dos Paços é o chamado teleférico. Contou-nos o Paulo que esta curiosa engenhoca foi concebida por um novato da República, há muitos anos atrás. Nessa época, quando os Kágados  ainda seguiam a praxe académica, os caloiros tinham que servir o vinho aos doutores, os estudantes mais velhos, sem entornar uma única gota. Caso contrário, seriam castigados. Ora, como o vinho era tradicionalmente servido em pesados garrafões, era praticamente impossível encher os copos dos comensais sem entornar, tanto mais que o espaço é exíguo e a confusão é muita. Por isso, o caloiro roubou o candeeiro do teto, colocou uma mangueira com uma torneira na extremidade inferior e suspendeu a parte superior sobre um sistema de cabos que, atravessando toda a mesa como se fosse um teleférico, permitia servir todos comodamente e sem entornar! Brilhante, não acham?


 


Como se pode ver, o humor e a irreverência fazem parte do quotidiano dos Kágados. Ao longo da sua existência, os membros desta república orgulham-se também da sua intervenção cívica, principalmente nos tempos da Ditadura do Estado Novo, quando os membros da residência assumiram um papel ativo nas lutas académicas, tendo mesmo acolhido vários estudantes e cidadãos perseguidos pela polícia política. Foi aqui que, por sua iniciativa, em 11 de Dezembro de 1948, as seis repúblicas então existentes em Coimbra reuniram o primeiro Conselho de Repúblicas, que teria um papel decisivo na mobilização dos estudantes na luta contra a Ditadura. 


 


No piso superior da residência, acedemos à sala de estar. Aqui não há televisão, pois os kágados acham que a televisão impede o convívio entre os membros da comunidade. Mas há muitos livros e muita música. Nesta sala, nos intervalos do estudo, os repúblicos passam os serões a conversar, a ler, a ouvir música e a descontrair. Às vezes até muito tarde, até altas horas da madrugada, impedindo que os companheiros que dormem nos quartos inferiores possam descansar. Nestas ocasiões, confidenciou-nos o Paulo, só há duas soluções: tampões nos ouvidos ou subir as escadas e juntar-se à festa!


 


Quando, durante uma destas festas, um amigo dos kágados se quer juntar ao grupo, só tem que chegar à porta e berrar: kááááágados! Como não há campainha, este é o sinal que está alguém à porta a querer entrar. A este grito correspondem os residentes com a hospitalidade habitual, isto é, abrem a janela e mandam a chave para que os convidados possam subir. Ora, houve em tempos uma ocasião em que a hospitalidade foi tanta que, de duas divisões da casa, dois residentes mandaram a chave ao mesmo tempo, de modo que a desgraçada que estava à porta levou com uma chave na cabeça! Para evitar mais acidentes, os kágados inventaram um novo método de lançar a chave, atando uma corda na chave, lançando-a à rua e recolhendo-a logo de seguida! Engenhoso, não?


 


E foi assim que chegámos a fim da nossa visita, encantados com o ambiente da República e com a hospitalidade dos Kágados. Despedimo-nos, deixando um forte abraço de gratidão a todos vós e prometendo seguir o vosso lema com algumas alterações: «Estudar, dormir, comer e beber (laranjada) nas horas vagas!»



publicado por CP às 10:28
Sábado, 10 de Novembro de 2012

 

 

O Gabinete de Física da Universidade de Coimbra é um núcleo do Museu da Ciência e está instalado no edifício do Museu de História Natural. Foi criado na sequência da Reforma Pombalina dos Estudos de 1772 e integra-se no movimento Iluminista que, ao longo do séc. XVIII, percorreu a Europa, pretendendo explicar os fenómenos da Natureza à luz da Razão. 

A nossa visita começou no anfiteatro onde, em tempos, os alunos escutavam atentamente as lições dos mestres estrangeiros que o Marquês de Pombal contratou para a Universidade. Nós fomos recebidos pelo Miguel que nos fez uma breve introdução sobre a história do edifício e as coleções que acolhe.

 

 

 

João António Dalla Bella (1730 - 1823) era um professor italiano de Física que foi convidado pelo Marquês de Pombal para vir para Portugal ensinar no Colégio dos Nobres, em Lisboa. Como este projeto não alcançou sucesso, o professor Dalla Bella acabaria, mais tarde, por ser convidado para a Universidade de Coimbra. Os instrumentos que fazem parte desta coleção estavam pois destinados ao Colégio dos Nobres e constituíam, à época, uma das melhores e mais completas coleções europeias do género. Os instrumentos eram para ser usados nas aulas de Física Experimental e foram, na sua maior parte, importados da Inglaterra ou construídos no nosso país por artesãos selecionados e sob as orientações diretas do professor italiano.



As salas onde se exibem atualmente os instrumentos foram construídas para este fim. Existe uma sala para as coleções do século XVIII e uma outra que guarda os aparelhos e equipamentos adquiridos na sequência das reformas ocorridas no século XIX, em 1836 e 1884. Já no século XX, a recuperação de grande parte das máquinas, bem como a organização museológica do espaço, ficou a dever-se aos professores Mário Silva e Rómulo de Carvalho.


  


O Miguel pediu-nos para não tirarmos fotografias com flash, pois o disparo consecutivo de relâmpagos de luz muito intensa danifica as peças. Por isso, as fotografias ficaram um bocado tremidas, mas dá bem para ter uma ideia do espaço. Nos finais do século XVIII, o Gabinete de Física possuía 592 instrumentos, a maior parte dos quais ainda se conserva, estando expostos na primeira sala. De entre as peças que mais nos chamaram a atenção, destaquemos uns anjos dourados que sustinham umas bandejas perfuradas. Sem descuidar o aspeto artístico, já que os estudantes pertenciam aos grupos mais favorecidos da sociedade, estes anjos destinavam-se a demonstrar a porosidade e descontinuidade da matéria. Vimos também um equilibrista que segurava nas mãos uns pesos com o objetivo de demonstrar a localização do centro de gravidade de um corpo. Gostámos ainda do autómato-centauro que disparava setas. Todos estes instrumentos, além de constituirem autênticas obras de arte e de se poderem usar como magníficos brinquedos, destinavam-se a demonstrar experimentalmente princípios básicos da Física.


  


Impressionante é o magnete chinês, inicialmente incluído na coleção do rei D. João V e que o seu filho D. José I ofereceu ao Gabinete de Física do Colégio dos Nobres. Trata-se de uma pedra magnética de grandes dimensões, montada numa armação especial com a coroa do rei. Defronte, estava um compressor blindado que continha água e para onde se injetava ar, comprimindo de tal maneira o interior que a água acabava por ser expelida com uma pressão enorme, lançando um jato a cerca de 10 metros de altura! Se em vez de água se usasse aguardente e se no momento da expulsão se lhe chegasse o fogo, obtinha-se um efeito ainda mais espetacular! A Física, como se vê, servia também para divertir a aristocracia barroca.


  


Na sala do século XIX, o instrumento mais engraçado foi um aparelhómetro que, uma vez carregado com eletricidade, fazia com que dois voluntários, empoleirados sobre um banquinho isolado do chão com pernas de vidro, recebessem uma corrente elétrica, fechando o circuito através de um beijo. No exato momento em que os lábios se tocavam, a corrente que percorria o corpo de ambos produzia um faiscar que soltava um estampido e um breve relampejar! Assim se estudava a Física e os princípios da eletricidade no século XVIII! Convenhamos que era muito mais engraçado do que na atualidade!


 

O Miguel a explicar o funcionamento da «máquina dos beijos», em primeiro plano


A hora ia já adiantada, estava a chegar o momento de partir. Ainda escutámos o Miguel a contar a história de alguns instrumentos como aquela lâmpada de raio-X e a moda que, no século XIX, envolvia todas estas maravilhas da técnica. A ânsia de progresso e o otimismo que resultava da crença nas potencialidades da ciência e da técnica era tanto que até nas sapatarias havia instrumentos de raios-X para verificar se o pé se acomodava confortavelmente no interior do sapato! Claro que ainda se desconheciam os efeitos nocivos das radiações. Vimos ainda umas máquinas fotográficas e alguns instrumentos para o estudo da ótica, que é o ramo da Física que estuda a luz, mas não tivemos tempo para mais, estava mesmo na hora do regresso.


 


Faltava ainda uma «pequena» e desagradável surpresa: enquanto esperávamos na paragem do autocarro, e após longos minutos, disseram-nos que houvera um acidente na avenida dos Combatentes e que o trânsito estava cortado, pelo que fomos obrigados a regressar à escola a pé! Claro que ninguém se queixou e felizmente não choveu!



publicado por CP às 20:59
Sábado, 03 de Novembro de 2012

 

 

Ontem foi um dia especial, pois foi a primeira visita com os novos sócios do Clube do Património: a Carolina, a Laura, o Eduardo, o Francisco, a Filipa e o António. Sejam bem-vindos! 

O nosso objetivo era visitar uma exposição de fotografia de Daniel Malhão e Eduardo Guerra, patente no Centro de Artes Visuais (CAV). No entanto, não podíamos deixar de apreciar a instalação de Pedro Cabrita Reis, intitulada Longer Journey, concebida para a bienal de Artes de Veneza em 2003, e que foi depois aqui colocada para assinalar o encerramento do ano em que Coimbra foi a capital da cultura.


 

James Bond                                                Harry Potter

 

 

No Pátio da Inquisição, onde se situa o CAV,  funcionou, desde o séc. XVI até à sua extinção em 1821, o Tribunal do Santo Ofício. Muitas vítimas deste tribunal religioso aqui estiveram presas e aqui foram executadas. Antes, funcionara aqui o Colégio das Artes que seria depois transferido para a Alta da cidade, local que visitaremos proximamente. O traçado dste pátio, com as suas imponentes colunas jónicas, deve-se a Diogo de Castilho, arquiteto natural do País Basco, no norte de Espanha, nascido nos finais do séc. XV e que veio depois para Portugal, tendo marcado profundamente a nossa cidade com as suas obras.


 


No piso inferior do CAV, tivemos então oportunidade de conhecer os trabalhos do fotógrafo Daniel Malhão. Este artista, nascido em 1971, apresenta uma seleção de trabalhos realizados entre 2002 e 2011, constituída por 22 fotografias cujos temas se desenvolvem em torno dos conceitos de construção/ruína, arquitetura/paisagem, ação humana/natureza. Na verdade, um dos aspetos que assoma em toda a mostra é a relação do olhar do fotógrafo com os edifícios de arquitetos como Mies van der Rohe, Siza Vieira, Souto Moura ou Nuno Teotónio Pereira, além de João Mendes Ribeiro, o arquiteto responsável pelo edifício do Centro de Artes Visuais.


 

O João e o Vítor conversam defronte de uma fotografia do edifício «Franjinhas», de Nuno Teotónio Pereira (1971), que foi prémio Valmor.


Um dos momentos mais interessantes do nosso percurso foi quando nos confrontámos com um trabalho intitulado Centro de Artes Visuais. Imaginemos que um grupo de excursionistas, durante uma visita a uma galeria de arte, se detém defronte de uma parede completamente branca, sem nada exposto! Que diríamos nós? Certamente que teriam entontecido, pois que uma parede branca e despida não merece atenção nem demora. No entanto, Daniel Malhão fotografou a parede branca e expôs a fotografia na parede que fotografou! Confusos? Reparem na fotografia que eu tirei à fotografia que o Daniel Malhão tirou à parede branca do CAV:

 

 

A Xana e a Eva preparam-se para fotografar a fotografia da parede em que está afixada a própria fotografia


Tudo isto pode parecer uma brincadeira, um trocadilho de palavras ou um jogo de espelhos labirintuoso e inútil, mas não é. Na verdade, o olhar do fotógrafo conferiu um sentido e uma profundidade de leitura a um espaço que inicialmente não era mais do que uma parede em branco de tal maneira desinteressante que se acaso um grupo de visitantes fosse surpreendido a contemplar uma parede branca nós seríamos capazes de desconfiar da sua sanidade. Mas, agora, eis-nos a observar entusiasmados uma fotografia dessa parede afixada na própria parede fotografada! Tudo adquire um novo sentido, parece que surgiu uma nova dimensão e uma profundidade espacial que só se revela por força da intervenção artística, ao ponto de alguns de nós terem admirado demoradamente este trabalho sem que alguém ouse pôr em causa o nosso perfeito juízo!

 


A exposição de Eduardo Guerra, intitulada O Amor de Alcibíades, inclui um conjunto de fotografias de paisagens santomenses, um par de tigelas moldadas em barro vermelho e a projeção de um filme.

O tema central ocupa-se da relação do filósofo ateniense do séc. V a. C., Sócrates, com o seu discípulo favorito, Alcibíades. Este era um jovem aristocrata famoso pela sua beleza e inteligência, militar e político promissor, que cativou a preferência e intimidade do grande filósofo ateniense, conforme refere Platão. 

 

 

Não nos detivemos muito na visualização do filme, pois ainda era muito complexo para a nossa idade. Porém, sempre ficámos a perceber a essência das relações entre o grande filósofo ateniense e os seus discípulos, bem como o método usado para que o mestre conduzisse, através do diálogo, o discípulo ao conhecimento de si próprio. Gera-se assim, entre ambos, uma relação complementar, sendo interessante adivinhar até que ponto um reproduz o outro, isto é, até onde é que o mestre se revê no discípulo ou este reproduz o exemplo do mestre.

 

 

Eduardo Guerra: «Tigelas»; 2011



Cansados de tanta reflexão filosófica, foi com alívio e muita satisfação que nos encaminhámos para a Praça 8 de Maio, na expetativa de encontrar uma banca de venda de castanhas. Foi assim que, mais uma vez cumprindo uma tradição do nosso Clube nestes dias outonais, «atacámos» a  vendedeira, esquecendo por momentos a exposição do Centro de Artes Visuais.

 



publicado por CP às 11:11
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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