Domingo, 18 de Fevereiro de 2018

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   Postais de Coimbra, Partilha de Lugares e Passagens é o título de uma exposição patente na Sala da Cidade, até ao dia 24 de março, que nós visitámos esta semana. Trata-se de uma coleção privada de postais que a Câmara de Coimbra adquiriu recentemente, integrando-a no acervo da imagoteca municipal e que nos remete, antes do mais, para a função do postal ilustrado. Antigamente, quando se visitava uma cidade ou uma terra estrangeira, era hábito comprar estas fotografias impressas em cartão com imagens de monumentos locais, paisagens ou figuras típicas e escrever uma breve mensagem no verso. Este costume vulgarizou-se na segunda metade do século XIX, quando as classes médias começaram a viajar com mais frequência, sendo uma forma simples e económica de comunicar, transmitindo sentimentos que iam desde a saudade ao enamoramento. Ao longo dos tempos, os postais foram objeto de interesse dos colecionadores que viam nessas imagens, mais do que a mensagem escrita, um documento histórico e um objeto artístico. 

 

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  Atualmente, quase ninguém envia postais, pois os modernos meios de comunicação, como o telemóvel e a internet, alteraram os nossos modos de comunicar uns com os outros. Hoje, enviamos sms e mensagens eletrónicas, usamos o WhatsApp, o Snapchat ou o Messenger, mas infelizmente já ninguém envia postais ilustrados! Nem os namorados!

   Esta exposição distribui por uma série de mesas dezenas e dezenas de postais, organizados por diversos assuntos relacionados com a história de Coimbra, os seus lugares, personagens e figuras típicas. Numa primeira mesa, dispõem-se os postais sobre as festividades da Rainha Santa, a padroeira da cidade. O dia 4 de julho, dia da sua morte, é mesmo o nosso feriado municipal. As festas há já muito que, nos anos pares, se realizam nessa semana, com celebrações religiosas e culturais. Podemos apreciar alguns postais onde é possível documentar a grandiosidade dessas festas nas primeiras décadas do século passado, bem como o fervor e devoção que as populações dedicavam, e dedicam ainda, à memória de Isabel de Aragão.

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    Nesta secção podemos ver figuras da etnografia coimbrã, como a tricana, o futrica, o estudante, a lavadeira, o bedel ou o lente da universidade. Quanto à tricana, ela vestia normalmente uma saia comprida, um pequeno avental, um chambre (uma pequena blusa), um cachené (um lenço que cobria a cabeça e se atava sob o queixo) e um xaile sobre os ombros. A tricana era uma mulher do povo, normalmente representada com um cântaro a caminho da fonte ou do rio, onde ia buscar água. Eram famosas as paixões que suscitava entre os estudantes, bem com as cenas de ciúmes sentidas pelos futricas. Ao fundo da Rua do Quebra-Costas existe uma escultura em bronze que homenageia esta figura outrora tão típica do meio coimbrão. Em baixo, reproduzimos alguns postais que vimos na exposição.

 

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   A mesa seguinte era dedicada às tradições académicas. Destaca-se uma série de postais dedicados ao Centenário da Sebenta, em 1889. Esta festa parodiou as comemorações que, desde 1880 em que se assinalou o tricentenário da morte de Camões, eram frequentes na vida cívica e política do país. Os estudantes lançaram então uma paródia a essas festas cívicas, escolhendo a sebenta como pretexto para a realização de cortejos e saraus. A sebenta era uma compilação das lições dos professores da Universidade. Nessa ocasião, os estudantes começaram a queimar as fitas, como forma de assinalar a proximidade do final do curso.

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   Em 1905, realizou-se o Enterro do Grau , na sequência de uma reforma dos cursos universitários que mantinha os graus de licenciado e doutor, abolindo o grau de bacharel. Esta festa, tal como o Centenário da Sebenta, podem considerar-se os antecedentes da Queima das Fitas.

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   Do Choupal até à Lapa é o título de um conhecido fado de Coimbra e é também o tema de uma secção dedicada ao rio Mondego, carinhosamente tratado pelos habitantes de Coimbra como Basófias, pois no verão, ainda que sendo o rio mais extenso do país, levava muito pouca água, apesar da sua fama de rio caudaloso que, no inverno, transboradava as margens, causando grandes inundações.

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   O assoreamento do rio resultou do entulhamento ao longo de décadas e décadas, obrigando a água a correr em pequenos fios que se ramificavam pelas margens, então ainda não emparedadas. O leito tornava-se então um grande areal, aproveitado como praia pelos habitantes e pelas lavadeiras que aí lavavam a roupa recolhida nas casas dos estudantes e a estendiam depois para secar, compondo um cenário que, durante muito tempo, foi uma imagem muito divulgada de Coimbra.

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   As pontes do rio Mondego são também motivo para muitos cartões postais. Principalmente a chamada ponte de ferro, construída entre 1873 e 1875, com projeto de Matias Heitor de Macedo, e a atual ponte de Santa Clara, projetada pelo conhecido engenheiro Edgar Cardoso, inaugurada em 1954 e ainda hoje ao serviço. Os postais antigos mostram ainda as pontes ferroviárias do Choupal e a da Portela, bem como a ponte rodoviária também neste último local, ainda hoje existente mas já sem trânsito.

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   Na viragem do século XIX para o século XX, a cidade beneficiou de uma série de novos equipamentos, como bancos, escolas, museu ou hospitais. No atual Largo da Portagem, outrora Largo Miguel Bombarda, foi construída a nova sede do Banco de Portugal, da autoria de Adães Bermudes. A Escola Prática Central de Agricultura instalou-se, em 1887, na Quinta do Bispo, dando origem à atual Escola Superior Agrária. Igualmente nos inícios do século XX foi a criação do Jardim Escola João de Deus, com traço de Raul Lino. O Portugal dos Pequenitos, do igualmente famoso arquiteto Cassiano Branco e promovido pelo Professor Bissaya Barreto, é outra das novidades. Na Quinta dos Vales, num terreno cedido pela colónia de emigrantes portugueses do Brasil, e também graças à iniciativa de Bissaya, surge um sanatório masculino para tuberculosos, inaugurado em 1935, e que é hoje o chamado Hospital dos Covões. 

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   Os vários mosteiros e igrejas da cidade, bem como alguns equipamentos e ruas, foram captados em postais, circulando pelo país e pelo mundo. As impressões dos turistas e viajantes, tanto nacionais como estrangeiros, contribuíram para a divulgação de Coimbra e do seu património. Alguns desses locais, pelo seu simbolismo, mereciam uma atençao especial, como o Mosteiro de Santa Clara com o túmulo da Rainha Santa, a Sé Velha, o Seminário, ou a igreja de Santo António dos Olivais.

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   Entrando pela cidade vindo do sul, pelo Largo da Portagem, percorria-se a principal artéria da cidade, formada pelas atuais ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, chegando ao Largo de Sansão, ou Praça 8 de Maio, onde se encontra a Igreja de Santa Cruz, um dos mais importantes monumentos da cidade do país e um dos mais represantados nos postais de Coimbra. Pegado à fachada da igreja está o edifício da Câmara Municipal que, no século XIX foi edificado para acolher os órgãos do poder concelhio.

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   A Universidade, com os seus edifícios e as suas tradições, os lentes e os estudantes, foram naturalmente das realidades mais fotografadas e divulgadas. São inúmeros os instantâneos do Paço das Escolas, dos Gerais, da Sala dos Capelos e da Torre da Universidade, bem como dos edifícios pombalinos. 

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   Coimbra foi outrora conhecida, embora hoje possa não parecer, como a Cidade-jardim, tantos, tão belos e tão cuidados eram os seus espaços verdes: o Choupal, a Lapa dos Esteios, o Parque da Cidade, a Quinta das Lágrimas, a Mata de Vale de Canas ou o Jardim Botânico. O ambiente romântico da cidade era propiciado pela beleza idílica das margens do Mondego, onde os pares amorosos passeavam e namoravam. Muitos suspiros de amor devem ter sido transportados no versos destes postais!

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publicado por CP às 18:23
Domingo, 11 de Fevereiro de 2018

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   As regras eram simples: 1- Não correr; 2 - Não gritar e 3 - Não tocar em nada. Depois, cada um tinha que escolher uma peça da coleção de escultura do Museu Machado de Castro e manter segredo. O objetivo era, no final e já no pátio central, representar por gestos a figura escolhida, para que os companheiros pudessem adivinhar. Todos tinham ainda que lançar um olhar sobre as etiquetas identificativas das restantes peças para poderem ter uma ideia do que os colegas estavam a tentar traduzir por mímica. Ora vejam lá se conseguiam adivinhar a representação do António e do Tiago?

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   A Laura também se esforçou com o Cavaleiro Medieval. Trata-se de uma escultura do cavaleiro Domingos Joanes, proveniente da Capela dos Ferreiros, de Oliveira do Hospital, da autoria do famoso Mestre Pêro. A Laura insinuou um ligeiro trote, como se montasse a cavalo, e ninguém hesitou, era mesmo o Cavaleiro, uma das obras mais conhecidas do Museu.

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   Também não foi difícil adivinhar a escolha do Canelas. Proveniente do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, o Cristo no Túmulo data dos finais do séc. XIV ou do início do seguinte. É um excelente trabalho, pois não é fácil esculpir um corpo morto. O jacente, tal é o nome dado às figuras representadas deitadas, é uma das melhores peças da nossa escultura medieval. Em baixo, vemos três soldados adormecidos com espadas e escudos. Mas o Canelas fez de Cristo! Ora vejam lá as semelhanças:

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   O João Sobral e o Afonso, meio a sério e meio a brincar, optaram por uma representação de Cristo atado à coluna. É uma obra da autoria do famoso João de Ruão, da primeira metade do século XVI, que pertenceu ao Mosteiro de Celas. Está muito danificada, pois é produzida em calcário de Ançã, como quase todas as obras desta coleção. Este material se por um lado é muito fácil de trabalhar, por outro degrada-se facilmente. Quanto ao quadro feito pelos nossos amigos, nem o Sobral se parece muito com Cristo, nem o Afonso tem cara de coluna, mas enfim, um gesto vale por mil palavras e aquele abraço permitiu uma fácil identificação.

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 A Ana Eduarda foi dos melhores desempenhos e foi o mais difícil de adivinhar. Não por falta de talento, pois a sua gesticulação foi rica e muito sugestiva. Até pedimos para ela repetir no final e, mesmo assim, não conseguimos acertar, pois ela selecionou uma imagem tão discreta que nem me lembrei de tirar uma foto. Uma pena, mas é um bom pretexto para visitarem o Museu e procurarem o Amaro! Para já, fiquem com a Ana!

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   A figura de S. Miguel é originária da igreja com o mesmo nome, em Montemor-o-Velho. Foi provavelmemnte encomendada pelo Infante D. Pedro, regente do trono e irmão do Infante D. Henrique, conhecido pela sua devoção a este santo. Vemos o arcanjo a trespassar um dragão, símbolo do mal, faltando-lhe já a lança. Na outra mão segurava uma balança destinada a pesar as almas, isto é, a comparar as boas com as más ações cometidas por cada um em vida. A imagem é um bocado efeminada, apresentando muitos detalhas requintados, como o diadema que tem na cabeça, o cinto e o debruado do manto. O seu autor foi Gil Eanes, escultor fomado na oficina do mosteiro da Batalha e que não se deve confundir com o navegador homónimo. Os nossos amigos Afonso e Tomás não tiveram muita dificuldade em reproduzir o cenário e o gesto que permitiu uma identificação imediata!

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   O Tomás optou por uma imagem menos teatral e por uma mímica menos exuberante. Foi muito discreto e optou por se centrar no gesto de leitura, pois a imagem que tinha em mente, Santo André, exibe um ar muito concentrado, ostentando um livro aberto na mão esquerda. Ora avaliem lá as semelhanças! A Susana apresentou uma figura com um gesto parecido. Julgo que não era o Santo André, mas sinceramente também já não me lembro qual era a imagem. Fica o registo.

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   O Arthur, sempre meio tímido e distante, não se escusou ao exercício que lhe propusemos e apresentou uma das peças mais impressionantes da coleção do Museu, nada mais do que o famosíssimo Cristo Negro, de todos conhecido. No entanto, e infelizmente, só já o consegui apanhar na fotografia quando ele descia os braços. Fica, apesar disso, o registo da sua prestação.

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   Penso que a Alice figurou a estátua de Santa Luzia, mas já não tenho a certeza. Esta obra deve-se igualmente ao Mestre Pero e mostra a mártir a exibir os seios, uma vez que lhes foram cortados como castigo por não renegar a fé cristã. Esta estátua veio de uma capela de Avelãs de Caminho, localidade próxima de Anadia. O culto de Santa Ágata foi muito popular na Idade Média, tal como outras mártires do Cristianismo primitivo, como Santa Comba, que tem uma estátua mesmo ao lado desta.

 

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   A Madalena teve muita graça, limitando-se a encolher os braços e a esconder a cabeça entre os ombros, pois a obra que selecionou está danificada e não tem cabeça!

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   A Constança, que nos apareceu neste dia mascarada de camponesa do séc. XIX, em parceria com a Sofia simularam o retábulo da Nosa Senhora da Misericórdia, mostrando que retiveram a lição do Raúl Moura Mendes que nos guiou numa visita ao Museu da Misericórdia, há poucas semanas atrás. Nessa ocasião, ensinou-nos que, iconograficamente, A Senhora da Misericórida surge sempre com um manto que protege os diversos representantes do clero, da nobreza e, por vezes, até do povo. A primeira fotografia desta publicação mostra esta cena. Além disso, e porque a Constança é uma das nossas sócias mais diligentes, ainda representou outra imagem. Ora tentem adivinhar qual que eu já não me lembro, pois, por esta altura, já começava a ficar baralhado!

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  Já o Francisco e o Tiago, sempre muito entusiastas, julgo que ficaram impressionados com a história da lactação de S. Bernardo e parece que, com alguma liberdade e desvio iconográfico, encenam o quadro que a todos sensibilizou pelo ineditismo meio bizarro dessa lenda que procurava justificar o brilhantismo intelectual de S. Bernardo de Claraval.

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   Tenho que pedir desculpa à Carlota pois, com toda a sinceridade, já não me lembro qual foi a peça que ela evocou com a sua gesticulação. Fica o desafio: visitem o Museu Nacional Machado de Castro, tentem adivinhar e, se vos apetecer, enviem os vossos palpites!

 

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publicado por CP às 21:12
Sábado, 03 de Fevereiro de 2018

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   Hoje não fomos a lado nenhum, ficámos na escola onde recebemos a Inês, coordenadora do Grupo da Amnistia Internacional de Coimbra (GAIC). O nosso Clube tem como principal objetivo conhecer, divulgar e contribuir para a preservação do Património Cultural. Sejam museus, monumentos, sítios, peças e objetos moveis, bens materiais ou imateriais, tudo nos interessa e preocupa Ao longo destes anos em que existimos, temo-nos esforçado por cumprir esse objetivo, conhecendo monumentos e museus da cidade, visitando exposições e galerias, participando em eventos e conferências, observando esculturas e apreciando pinturas, aprendendo como se restauram livros antigos ou como se colecionam selos. Basta fazer uma pesquisa no nosso blogue e logo se verá que nos temos orientado em diversos sentidos. Tudo isso, e muito mais, é Património e mereceu a nossa atenção. No entanto, há que lembrar, o bem mais importante que temos que preservar é o Homem e os seus Direitos! É tudo muito bonito e muito importante, mas nada do que acima referimos e que constitui a nossa herança patrimonial é mais importante do que os Direitos e Dignidade dos Homens, de todos os homens. Por isso, e porque esse bem é muito ameaçado, em todos os cantos do Mundo, decidimos convidar a Inês para nos dar a Conhecer a Amnistia Internacional (AI) e para nos falar dos Direitos Humanos (DH).

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  A Amnistia Internacional foi fundada em 1961 por um advogado Inglês chamado Peter Benenson. Curiosamente, Portugal está associado à sua criação, pois nessa altura vivia-se sob a ditadura salazarista. Benenson leu num jornal que dois jovens estudantes portugueses tinham sido presos por terem feito um brinde à Liberdade! Isso hoje parece-nos incrível e nem conseguimos imaginar como é que no nosso país isso aconteceu há tão pouco tempo. Foi o mesmo pensamento que atravessou o espírito do fundador da AI e o levou a criar esta organização. Embora a AI tenha os seus escritórios centrais em Londres, está espalhada por todos os países do Mundo, exceto a Coreia do Norte. Foi por aqui que prosseguimos a nossa conversa, pois não só este país tem estado no centro das atenções e dos telejornais por causa do conflito com a Coreia do Sul e os EUA, como se trata de um país muito fechado, em que os cidadãos estão privados de quase todos os direitos. Nem sequer, recordou a Inês, podem cortar o cabelo como lhes apetece!

   De seguida, visonámos um filme que serviu de mote para a nossa conversa. Foi uma conversa animada, deve dizer-se, até falámos demais! A Inês, como é muito simpática e não podia limitar o nosso direito à liberdade de expressão, lá se encheu de paciência, ouvindo e moderando as nossas intervenções. Algumas foram assim um pouco para o disparatado, todos queriam falar e relatar as suas experiências, acabando por fugir ao tema. Mas também não é menos verdade que escutámos opiniões e comentários muito interessantes.

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   Abordámos seguidamente o tema dos Direitos Humanos. Embora a primeira declaração dos Direitos Humanos remonte ao século XVIII e aos tempos da Revolução Francesa, atualmente, quando se fala da Declaração Universal dos Direitos Humanos referimo-nos aos tempos que se seguiram à 2ª Guerra Mundial e ao texto aprovado em 1948 pelas Nações Unidas, compreendendo 30 artigos. Esse documento não tem força de lei, isto é - explicou-nos a Inês -, nenhum país pode ser castigado por o desrespeitar! Isto pode parecer disparatado, mas a verdade é que os países, mesmo os mais ditatoriais, temem que a sua imagem e o seu prestígio internacional sejam afetados por campanhas que denunciem violações. É com isto que a AI conta quando promove campanhas contra abusos dos DH.

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   É o que se passa  atualmente na Turquia, onde o presidente nacional da AI, Taner Kiliç, se encontra preso. Como não podia deixar de ser, a AI desenvolve uma campanha, apelando à libertação deste seu dirigente e ativista. É importante divulgar este caso, para tal podem os nossos leitores aceder a esta página eletrónica e assinar uma petição. Basta um clic e pode-se salvar uma vida! Por favor, divulguem esta iniciativa junto dos vossos pais, familiares e amigos. É assim que a AI trabalha e desenvolve as suas ações.

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   Além de abaixo-assinados e petições públicas, a AI promove muitas outras ações de denúncia e sensibilização, como manifestações, envio de cartas apelando à libertação de presos e condenados, sessões de esclarecimento como esta, ciclos de cinema e até festas. O Grupo de Coimbra da AI também tem lançado muitas ações, como a simulação de um campo de refugiados na Praça da República, reuniões onde se denunciaram violações dos DH em Angola com a presença do conhecido ativista Luaty Beirão, ou marchas contra qualquer forma de discriminação sexual. Afinal, a grande luta é pelo direito à diferença, pela Liberdade, e isso implica que não se aceite nenhum tratamento diferenciado com base na religião, na raça, na cultura, no sexo, na orientação sexual, ou o que quer que seja. O interessante é que os nossos jovens sócios têm mais facilidade em aceitar isto do que muitos adultos que, contra todas as evidências, têm por vezes dificuldade em aceitar o direito à diferença das minorias.

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(fotografias retiradas da página do facebook do GAIC)

   Uma das razões que nos levou a convidar a Inês para este encontro, foi a questão dos DH na China. Na verdade, dedicámo-nos nas últimas semanas a conhecer um pouco melhor a história e a cultura deste enorme país. Visitámos uma exposição no Museu Machado de Castro e tivémos um encontro no Instituto Confúcio. Achámos que era importante mostrar a outra face da China. Na verdade, trata-se de um  país ancestral, um dos maiores do mundo em área geográfica e o mais populoso do planeta. A China tem uma cultura muito sofisticada e uma história milenar. É fácil sentirmo-nos fascinados pela sua cultura e pelos seus costumes. Mas que isso não nos faça esquecer que é um país que desrespeita sistematicamente os DH. Todos os anos são aí executadas milhares de pessoas, e isto é inadmissível. A situação é preocupante em todo o Mundo, particularmente na Ásia, onde países como o Paquistão, o Irão, o Iraque, a Arábia Saudita ou a China apresentam números assustadores!

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   A situação no Tibete é um dos assuntos habitualmente apresentado pela AI. Nessa região, a violência repressiva tem-se vindo a intensificar, face ao alheamento internacional, pelo que as ações da AI adquirem uma importância ainda maior. O Tibete é um território nos Himalaias com uma cultura e uma identidade próprias. Nos meados do séc. XX, as tropas chinesas anexaram o Tibete, obrigando à fuga do Dalai Lama, o chefe político e religioso dos tibetanos. Desde então, as violações dos DH e a recusa da autodeterminação têm sido as orientações do governo chinês, que despreza qualquer negociação ou apelo da comunidade internacional. Para nos sensibilizar melhor para esta questão, a Inês passou-nos um filme que abaixo reproduzimos.

 

    Para concluir este nosso encontro, entregámo-nos a um curioso exercício. Imaginámos que vivíamos num planeta inteiramente novo. Demos-lhe um nome e criámos uma lista de Direitos, uma espécie de carta fundacional onde cada um teve oportunidade de apresentar um artigo. Foi muito interessante, pois sentimo-nos como uma espécie de pioneiros de um novo mundo imaginário, e pudemos verificar que muitas das nossas propostas correspondiam a direitos já consagrados, mesmo os incluídos na chamada 3ª geração, ou seja, os que se prendem com preocupações ambientais e que constituem direitos da comunidade, ou da sociedade, não sendo propriamente direitos individuais. Alguns exemplos da nossa Carta: art. 1º: Direito à não guerra; art. 2º: Direito a um só país no Planeta Património; art. 3º: Direito à Escola; art. 4º: Direito a um ambiente limpo e puro; art. 5º: Direito à Cultura,.... (e outros que eu não consegui registar, eram para aí uns 15!  )

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  Para acabar, a Inês deixou-nos os contactos do Grupo da Amnistia Internacional de Coimbra. O objetivo é que todos se envolvam, utilizando as redes sociais, que participem e divulguem, pois ninguém pode ficar indiferente! Aqui ficam então os contactos:

website: http://grupoaicoimbra.wixsite.com/gaic

facebook: https://www.facebook.com/grupoaicoimbra

twitter: https://twitter.com/AmnistiaCoimbra

instagram: https://www.instagram.com/amnistiacoimbra/

youtube: https://www.youtube.com/channel/UCAbVycGpgSrcdpxpctw9VEQ/videos

gmail: nucleoaicoimbra@gmail.com

telefone: 913988392

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(No final, cada um levou uma fitinha da Amnistia Internacional para colocar no pulso) 



publicado por CP às 17:24
Domingo, 28 de Janeiro de 2018

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   Esta semana fomos ao Museu da Misericórdia de Coimbra, um lugar pouco conhecido dos conimbricenses e que merece ser divulgado, pois possui um preciosíssimo espólio acumulado ao longo de séculos de atividade, além de se situar num local privilegiado, partilhado com a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, e que, por si só, merece uma visita prolongada. Já não é a primeira vez que aqui vimos pois, em 2011, conforme se pode ler nesta ligação, já tínhamos visitado este museu.

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    Desta vez fomos recebidos pelo Raúl Moura Mendes, um velho amigo do nosso clube que já nos guiou numa visita pela cidade que tinha por tema os azulejos. O Raúl, o atual responsável por este núcleo museológico, convidou-nos para uma visita que nós não podíamos recusar. Fomos recebidos na Sala das Sessões onde escutámos algumas breves palavras sobre a história das Misericórdias. Fundadas no final do séc. XV, por iniciativa da rainha D. Leonor, viúva de D. João II, numa altura em que o Estado ainda não cuidava dos mais fracos e desvalidos, estas instituiçãos tinham como objetivo as mesmas 14 obras que ainda hoje devem ser praticadas pelos seus membros. 7 dessas são coroporais e as outras 7 são espirituais. Entre elas, conta-se a obrigação de enterrar os mortos, principalmente os indigentes. Por isso, eram normalmente os irmãos da Misericórdia os responsáveis por dar sepultura aos condenados à morte, tal como aprendemos numa das primeiras visitas que fizémos este ano, quando fomos ao Colégio da Trindade ver uma exposição sobre os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal.

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   A primeira Misericórdia foi a de Lisboa, fundada ainda sob iniciativa da rainha D. Leonor. As outras foram sendo criadas já no reinado de D. Manuel I, como esta Misericórdia de Coimbra, fundada nos ano de 1500. Embora inspiradas nos ideais cristãos, estas irmandades são formadas por leigos e possuem estatutos aprovados pelo rei que lhes fazia doações, no que era imitado por outros súbditos que, normalmente em testamento, legavam muitos bens, desde terras e casas, até joias, dinheiro, mobiliário e obras de arte, constituindo valiosíssimos fundos usados na prática das 14 obras há pouco mencionadas. Muitos desses benfeitores foram retratados em pinturas colocadas nas paredes desta sala solene.

   O Museu está instalado no Colégio Novo dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Chama-se Colégio Novo porque o antigo era o mosteiro de Santa Cruz, na Baixa da cidade.

   Este edifício foi construído nos finais do século XVI e durante os primeiros anos do seguinte, sob direção de Filipe Terzi, o mesmo arquiteto italiano responsável pela construção do aqueduto a que hoje chamamos os Arcos do Jardim, segundo nos contou o Raúl. Depois de muitas peripécias e vicissitudes, entre as quais um incêndio, o prédio passou para a Santa Casa em 1841, poucos anos após a extinção das Ordens Religiosas, aqui funcionando um orfanato durante muitos anos, pelo que ainda é popularmente referido como Colégio dos Órfãos. O Museu foi inaugurado em setembro de 2000, como forma de assinalar 5 séculos da fundação da Misericórdia de Coimbra.

   Nesta sala, vimos ainda uma exposição de jornais, livros e revistas selecionados do valioso acervo do arquivo desta instituição. Entre todos os volumes exibidos nas vitrinas, o Raúl destacou o número um da Minerva Lusitana, o primeiro periódico publicado em Coimbra em 1808, no quadro da resistência aos invasores franceses. Foi afinal o primeiro jornal da nossa cidade!

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   Na sala seguinte, além de belas pinturas e azulejos, pudemos admirar um retábulo da autoria de João de Ruão, proveniente da antiga igreja da Misericórdia. Esta escultura mostra o conjunto da sociedade quinhentista sob a capa protetora de Nossa Senhora da Misericórdia. De um lado, os representantes do clero, com o papa, um cardeal e um bispo,  e, no outro lado, o rei e membros das nobreza. Por vezes, nestas representações da Nossa Senhora da Misericórdia, aparecem também representantes das classes populares. Essa antiga igreja, hoje desaparecida, situava-se por cima, autenticamente, da atual igreja de S. Tiago. Antes do restauro, promovido nos meados do séc. XX, existiam ali duas igrejas, uma em cima da outra! Pela Praça do Comércio entrava-se num dos templos e, pela rua Visconde da Luz, desnivelada em relação à Praça, acedia-se à igreja da Misericórdia!

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   Nesta sala, porém, o que mais impressionou os nossos jovens visitantes foi uma ambulância, se é que assim se pode designar, utilizada no século XIX para o transporte de doentes. Trata-se de uma padiola, equipada com uma cabine fechada, onde eram colocados os doentes, protegidos dos olhares exteriores por uma cortina. Dois homens, um de cada lado, pegavam na cadeira e levavam o enfermo até ao hospital.

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 O nosso percurso contiunuou até à capela da Misericórdia. É uma construção do século XVII, com uma única nave, construída ao gosto barroco. Destaca-se a abóbada de berço profusamente decorada com caixotões rendilhados. Mas, o que mais nos impressionou foi uma passagem secreta que, atrás do retábulo do altar-mor, dá acesso a um esconderijo!

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   Passando pela sacristia, revestida com azulejos seiscentistas. acedemos a um espaço onde se reconstitui um scriptorium medieval. Assim se tenta recriar o ambiente onde os monges copistas se dedicavam à arte da escrita, preparando as tintas e os suportes da escrita, como o pergaminho. Vimos como rasuravam os erros lixando o pergaminho com a pele de um peixe e ficamos a saber como preparavam as penas para escrever.

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   No andar superior, num pequeno patamar, vimos um presépio que foi oferecido por um amigo da Misericórdia. O Raúl contou-nos a história dos presépios. Gostámos particularmente da história dos Reis Magos, cada um representando um dos continente conhecidos à época, bem como o papel de S. Francisco de Assis na valorização destas representações. 

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   Para concluir a nossa visita, fomos desafiados a subir à Torre da Misericórdia, através de uma escada interior em caracol que dá acesso a um varandim, no topo da torre sineira, de onde se podem desfrutar umas vistas únicas sobre a cidade. É um bocado assustador para quem padece de vertigens, mas, com cuidado e sem correrias, não há qualquer risco. Vale a pena! Ora vejam lá as fotografias:

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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018

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   Na sequência do nosso passeio da semana passada ao Museu Machado de Castro, onde visitámos uma exposição sobre a escrita e a caligrafia chinesas na coleção do poeta Camilo Pessanha, decidimos, esta sexta-feira, complementar essa visita com uma outra ao Instituto Confúcio, onde frequentámos uma oficina de escrita chinesa.

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 Este instituto está instalado na ala nascente do antigo Colégio de Jesus, colado à Sé Nova, um edifício que não podia ter sido mais bem escolhido para acolher este departamento, pois foi aqui que se formaram, no séc. XVI, os missionários jesuítas que partiram para o Oriente, nomedamente para a China, protagonizando os primeiros contactos dessas civilizações com o Ocidente. As coleções dos museus da Universidade conservam, por isso e ainda hoje, uma grande quantidade de objetos e documentos de grande valor. Alguns estão aliás expostos numa vitrina colocada no interior deste Instituto. 

   O Instituto Confúcio, que tomou o nome do famoso sábio e filósofo chinês que viveu nos séculos VI e V a. C., foi inaugurado em julho de 2016, tendo como missão a divulgação da língua e cultura chinesas, bem como o ensino e reconhecimento da Medicina Tradicional Chinesa em Portugal, aprofundando as relações seculares entre Portugal e a China.

  Fomos logo simpaticamente acolhidos pelo Professor Doutor João Corrêa-Cardoso, docente da Faculdade de Letras e diretor deste Instituto, juntamente com a Dr.ª Wei Ming, a responsável chinesa. Ainda no exterior, o Professor João dirigiu-nos umas palavras de boas-vindas. Entrados no edifício, conhecemos a Dr.ª Maria José Margalho, técnica superior com quem agendámos este encontro e, já devidamente sentados, eis que chegou o professor Sūn Lǎo Shī. Ele seria o nosso professor de chinês!

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   O nosso jovem professor encontra-se em Portugal a estudar e, como voluntário, desenvolve estas ações de divulgação, uma vez que se especializou no ensino da língua chinesa a públicos infantis e juvenis. Estávamos na mão de um especialista! A sessão que viemos frequentar, com uma duração de aproximadamente 90 minutos, tinha um plano ambicioso e uma promessa: no fim ficaríamos a perceber um bocadinho mais de chinês! Bom, na verdade não era assim tão difícil, pois de chinês ninguém percebia nada!

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   Em primeiro lugar, há que saber o que é um caracter chinês. Trata-se de um ideograma, isto é, a partir de elementos naturais, como o Sol, a água, o cavalo, a árvore ou o pássaro, a civilização chinesa desenvolveu desenhos que, depois de estilizados e simplificados, constituem signos que se referem a essas realidades naturais que representam. O ponto de partida é assim muito diferente da nossa escrita fonética ocidental! Assistimos a um video que nos explicava esta origem da língua e da escrita chinesas.

 

   Depois, e após mais algumas explicações, ficámos a saber que os caracteres se organizam de uma forma especial, podendo distinguir-se duas partes, uma esquerda e outra à direita. De seguida, aprendemos concentrámo-nos no desenho de cada um dos traços, retendo algumas técnicas básicas, conforme o sentido e a direção do gesto. A folha que apresentamos abaixo mostra os gestos mais importantes. Nós, como somos apenas iniciados, ficámo-nos pelos cinco primeiros: dian, heng, shu, pie, na, ti.

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    Ensaiámos entusiasticamente, sempre com os braços no ar, os gestos correspondentes a cada um dos traços e, a pouco e pouco, não sem alguma estranheza, lá nos fomos familiarizando com algumas palavras que o professor Sūn desenhou no quadro. Ao mesmo tempo íamos pronunciando os sons correspondentes às palavras apresentadas. Se, de repente, um desavisado visitante nos ouvisse, até era capaz de pensar que éramos uma turma de chineses. Bom, talvez não tão disciplinados!

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   Chegados a esta fase, passámos à prática, desenhando os caracteres no quadro. Já mais confiantes, dividimos o grupo em duas equipas e realizámos uma pequena competição. O professor Sūn mostrou-nos, durante uns escassos minutos, quatro palavras escritas em chinês projetadas no projetor. A nossa missão era memorizá-las para, de seguida, tentar reconstitui-las, em conjunto. Não foi fácil! Parece fácil, mas não é, pois são muitos riscos e rabiscos muito diferentes da caligrafia a que stamos habituados. A verdade, porém, é que, com a ajuda de todos e após várias tentativas, fomos capazes de atingir o objetivo do jogo.

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   Por fim, confirmámos o que já sabíamos da visita da semana passada: a caligrafia chinesa é uma arte. Além da sua função utilitária, de comunicar por escrito, o desenho dos caracteres e das palavras, tradicionalmente em suportes delicados, a escrita chinesa reveste-se de um carácter quase sagrado, é um ritual de fixação e perpetuação das mensagens. Por isso, os autores chineses desenvolviam um estilo próprio, apuravam a sua técnica, sofisticando os gestos e os traços, conferindo aos seus textos uma dimensão artística que os tornava muito valiosos e apreciados.

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   O prof. Sūn ofereceu-nos uns blocos de apontamentos e umas cópias de uns manuscritos tradicionais chineses para comprovarmos exatamente o que ficou dito. As cores, a delicadeza dos traços, os alinhamentos dos caracteres, a preparação dos suportes, os desenhos e ilustrações, enfim, tudo se harmoniza de uma forma atraente e digna de admiração.

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   Aproximava-se a hora de irmos embora. Antes, contudo, ainda tivemos tempo para tirar uma fotografia de conjunto na escadaria exterior. Vale ainda lembrar que o Instituto Confúcio oferece, em regime de frequência livre, vários cursos de Língua e Cultura Chinesas. É uma oportunidade para os familiares e amigos mais velhos dos nossos sócios se iniciarem neste mundo fascinante da cultura chinesa. Para os alunos do nosso Agrupamento, levantamos um bocadinho a ponta de um véu: será que para o ano a nossa escola terá um Clube de Chinês? Talvez.... quem sabe....

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publicado por CP às 21:43
Sábado, 13 de Janeiro de 2018

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O Museu Machado de Castro exibe, até ao próximo dia 28, na sala de exposições temporárias, uma mostra dedicada ao poeta da Clepsidra intitulada Pintores Poetas. Pintura e Caligrafia na Doação de Camilo Pessanha. Organizada no âmbito das comemorações dos 150 anos do nascimento do poeta, a mostra apresenta peças doadas ao estado português, provenientes do sul da China.

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  Camilo Pessanha nasceu em Coimbra, em 1867, filho ilegítimo de um estudante de alta condição social e da sua empregada. Aqui se licenciou em Direito, passando depois a exercer atividade profissional em diferentes localidades do país, até rumar a Macau, pois desde cedo sentiu grande atração pela cultura oriental, nomeadamente chinesa. Ao longo da sua estada nesse território, colecionou vários objetos, reunindo cerca de 370 exemplares, entre porcelanas, metais, marfins, tecidos, madeiras e jades, incluindo pinturas e caligrafia, do séc. III a. C. até ao séc. XIX. Pouco antes de morrer, doou esse espólio ao Museu Nacional Machado de Castro, onde permanece, sendo que parte está depositado no Museu da Fundação Oriente, em Lisboa.

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   Um dos núcleos mais interessantes desse espólio é constituído por obras de pintura e caligrafia, produzidas por 36 artistas. Esta preferência prova que o poeta simbolista tinha um conhecimento profundo da cultura chinesa, nomeadamente da escrita. Na verdade, a escrita chinesa é ideográfica, quer dizer, os caracteres não reproduzem sons, mas referem-se a objetos, imagens ou conceitos, tal como os hieroglifos da antiga civilização egípcia. Isto faz com que a escrita seja muito mais complicada, pois os caracteres são imensos, pelo que nem todos dominam a arte da caligrafia. Os que dominavam o desenho das letras eram sábios muito respeitados e os rolos produzidos eram muito valiosos, sendo transmitidos de geração em geração.

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   Esses rolos podiam ser de mão (shoujuan), de pendurar (zhou) ou álbuns (ce). Estes álbuns reuniam pinturas de pequeno formato. Os rolos exibidos nesta exposição datam das dinastias Yuan (1260-1386), Ming (1386-1644) e Qing (1644-1911) e eram realizados sobre papel ou seda.

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   Alguns dos trabalhos copiam poemas, comentários e pensamentos de autores clássicos, legendando desenhos muito delicados de paisagens, com animais, árvores e florestas, montanhas e outros elementos da Natureza, relegando para um plano secundário a figura humana, que surge em cenas quotidianas, ou personagens mitológicas.

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   Numa vitrina lateral podemos ver dois acessórios para a produção de caligrafia e pintura. Trata-se de um godé utilizado para a lavagem de pincéis e mistura de tintas, feito em porcelana, e um porta-pincéis de porcelana alaranjada decorada com elementos paisagísticos muito pormenorizados.

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  Nos mostruários centrais podemos apreciar vários exemplares muito bem conservados de álbuns com caracteres desenhados sobre um fundo dourado. Em baixo mostramos duas folhas muito belas, onde se pode observar uma relação muito próxima entre o gesto e o traço, o que permitie identificar vários estilos, uma vez que cada artista possuía uma forma individualizada de riscar os caracteres, conforme os movimentos de pulso que apurava. O ideograma da esquerda representa a neve e o outro rio.

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   A este propósito vale a pena contar a história de Wang Xizhi, artista que viveu no séc. IV. Este desenhador é ainda hoje lembrado pelo seu passatempo favorito, a criação de gansos. Reza a lenda que Wang Xizhi aprendeu o segredo da sua arte de movimentar o pulso e assim criar o seu estilo caligráfico inconfundível, observando o modo como os gansos moviam o pescoço. Infelizmente, nenhum dos seus trabalhos chegou aos nossos dias, apenas cópias e a sua fama de artista inexcedível.

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   Duas das obras que mais admiração causaram foram dois rolos em papel folheado a ouro, representando um pássaro pousado num tronco  com bagas e uma belíssima garça. Ao lado, um outro rolo de pendurar de seda, representando uma corça e um gamo. esta pintura, abaixo reproduzida, foi executada pelo pintor Sun Kehong que se notabilizou pela pintura de pássaros e flores, bambus, rochas e paisagens. Além de pintor, Kehong era também poeta e calígrafo, tendo vivido entre 1533 e 1611, durante a Dinastia Ming.

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  Esta exposição ocupa apenas uma sala, parece pequena, contudo, a qualidade das peças e os pormenores que nos detêm em cada uma, obrigam o nosso olhar a uma atenção demorada, pelo que o tempo passa sem que o notemos. Apesar disso, ainda tivemos tempo para brincar e saltar no pátio exterior, e ler uns poemas do Camilo Pessanha que a professora Fernanda levou.

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publicado por CP às 13:55
Sábado, 16 de Dezembro de 2017

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   Após uma interrupção de duas semanas por causa dos feriados de 1 e 8 de Dezembro, regressámos aos nossos passeios, visitando o Colégio das Artes, onde está patente um dos núcleos da Anozero - Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, ainda que registando a ausência de muitos sócios, devido às férias antecipadas e às festividades que, um pouco por todas as escolas, assinalam o encerramento das atividades do 1º período. Já visitámos o núcleo mais importante deste evento, no mosteiro de Santa Clara-a Nova e, porque gostámos tanto, decidimos conhecer este pólo. Prometemos regressar brevemente por causa deste edifício, mas desta vez ocupámo-nos apenas da exposição.

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   Logo no átrio, uma estranha instalação chama a atenção de todos. Trata-se de uma obra do artista angolano Gustavo Sumpta, intitulada Levantar o Mundo. A partir de uma frase atribuída ao sábio da Antiguidade Arquimedes, Gustavo Sumpta concebeu este projeto que deveria ter sido cenário para uma performance. Um dia, Arquimedes terá dito que se lhe dessem um ponto de apoio ele seria capaz de levantar o Mundo, tentando demonstrar assim os princípios da Física através do uso de uma alavanca. Este projeto deste autor, nascido em 1970 em Luanda e residente em Berlim, foi adiado, pelo que os nossos leitores ainda podem assitir ao evento no Convento de S. Francisco, no próximo dia 17 de janeiro.

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   Depois, já no interior do Colégio das Artes, deparámo-nos com uma instalação da artista norte-americana Jill Magid, integrada numa série que designou Ex-Voto, onde pesquisa a vida e o legado de Luis Barragán. Este arquiteto nasceu no México em 1902, falecendo em 1988, tendo produzido uma obra muito marcada pela tradição mediterrânica, nomeadamente do sul de Espanha e do norte de África, por onde viajou. Barragán teve uma vida agitada, obtendo o reconhecimento mundial no fim da vida com a atribuição de importantes prémios. Os seus trabalhos como arquiteto paisagista e a sua relação com os cavalos são uma das marcas mais identificáveis das suas obras.

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   Os arquivos pessoais do arquiteto mexicano têm sido objeto de grande polémica e discussão, pois foram comprados por um empresário suiço que não faculta o acesso aos estudiosos na obra de Barragán. Por isso, Jill Magid concebeu esta instalação, onde um conjunto de miniaturas de cavalos colocados em vitrinas com bases coloridas chamam desde logo a atenção, numa evocação direta do trabalho de Barragán.

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   Na sala contígua, vimos um pequeno filme que regista a exumação das cinzas do arquiteto no cemitério de Jalisco, no México. Assistimos à recolha de algumas cinzas da urna onde foram depositados os restos mortais, sendo lá colocado um pequeno cavalinho prateado que, vemos depois, parece ter sido retirado de uma vitrina vazia que se encontra na sala. Esta cena tem uma relação direta com a discussão que decorre sobre a propriedade e acesso aos arquivos do mexicano.

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   Depois, passamos a uma série de projeções do artista francês de origem argelina Kader Attia. Este trabalho debruça-se sobre a forma como o modernismo artístico europeu se inspirou na arte indígena africana. A partir daqui, o artista estuda as relações entre colonizador e colonizado. Numa das paredes projetam-se diapositivos de revistas antigas, onde vemos ilustrações de missionários a evangelizar os territórios da África. Muitos desses missionários, tal como exploradores, cientistas e outros colonos, saquearam os objetos arísticos dos povos nativos, transportando-os para as coleções e museus da Europa, nomeadamente para o Museu do Vaticano. Deste modo, o artista franco-argelino mostra-nos objetos desinseridos do seu contexto cultural, deslocalizados e com o seu poder simbólico inutilizado.

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  Jonathan Uliel Saldanha é um artista que tem dividido a sua atividade pela música e pela produção de ambientes sonoros, bem como pela criação de imagens em movimento. Para esta bienal, o autor concebeu uma instalação video a partir de filmagens realizadas no Convento de São João Novo, no Porto, que albergou o Museu Etnográfico, dirigido, na última parte da sua existência, pelo artista e arquiteto portuense Fernando Lanhas.

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   Fernando Lanhas é o autor de um friso cronlógico sobre a evolução da Humanidade, que serve também de base para uma instalação de som e de luz de Saldanha. Este painel suscitou grande curiosidade entre os nossos sócios, porque permite estabelecer comparações surpreendentes entre a escala do tempo histórico e do tempo geológico, além de sugerir, no seguimento aliás da sala anterior, relações entre a estrutura neurológica do cérebro humano e as paisagens cósmicas.

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   Ernesto de Sousa (1921–1988) foi um dos mais importantes artistas plásticos portugueses do séc. XX em Portugal, com uma forte ligação à nossa cidade e ao Círculo de Artes Plásticas. Como o Estado Novo, na década de 40, procedia a uma recolha de artistas populares, com o objetivo de fundamentar nessa pretensa tradição uma mitificada identidade nacional, Ernesto de Sousa procedeu a uma recolha alternativo, dando a conhecer artesãos e temas que não se articulavam com essa manipulação ideológica promovida pela propaganda do Estado Novo, dando a conhecer uma outra tradição popular, mais pagã e profana. Com o material recolhido organizou uma exposição na Galeria Divulgação, em Lisboa, em 1964, que intitulou Barristas e Imaginários: quatro artistas populares do Norte. Aí incluiu obras da depois famosa artesã Rosa Ramalho, além de Franklin Vilas Boas. É deste artista popular, natural de Esposende, falecido em 1968, que agora vemos alguns trabalhos, juntamente com fotografias suas com objetos dos artistas por ele estudados.

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   Ernesto de Sousa procurava aproximar a arte erudita da arte popular, que foi alvo de um grande interesse em Portugal desde os últimos anos da década de 1950. Franklin, que era engraxador de profissão, não tinha qualquer formação académica e utilizava troncos e ramos de madeira com formas sugestivas, trabalhando-as depois, seguindo a sua imaginação e as sugestões das formas naturais que recolhia. Como resultado, esculpia figuras fantásticas, monstros estranhos, expressando um imaginário que tinha tanto de ingénuo, como de pagão. Foi essa ingenuidade e espontaneidade que os artistas modernos encararam como fonte de inspiração para a renovação da arte moderna.

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   Na última sala, vimos um trabalho do artista brasileiro Jonathas de Andrade. É um exercício a partir da destruição de uma casa modernista, documentada através de uma maquete e de imagens fotográficas. Esta obra é uma crítica dura às demolições causadas pela especulação imobiliária e aos efeitos da ânsia do lucro sobre o património arquitetónico. Saldanha inverte o sentido comum de uma maquete, pois esta é normalmente executada pelos arquitetos como projeto de futuro, isto é, antevisão de uma construção a realizar. Ora, aqui, Jonathas faz a maquete de uma casa destruída, sendo que, assim, o sentido da maquete já não é antever uma construção a realizar, mas o de preservar a memória de uma casa destruída.

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   Por fim, na mesma sala, vimos uma instalação do jovem artista português Henrique Pavão. Com ela nos despedimos, desafiando todos os nossos leitores a visitarem esta exposição, desejando ainda a todos um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

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Este texto foi redigido a partir do catálogo da Bienal Anozero e das informações da folha de sala.



publicado por CP às 19:09
Sábado, 25 de Novembro de 2017

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   Regressámos à Torre de Almedina, desta vez para visitar uma exposição sobre os forais da cidade de Coimbra. Recentemente, já tínhamos visitado esta mostra, pelo que convidamos os nossos leitores a relerem os relatos dessa visita, seguindo esta ligação. Na altura, até completámos a nossa visita com uma ida ao Arquivo Municipal, onde tivemos oportunidade de apreciar o foral manuelino [ver texto aqui].

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   A novidade desta vez foi a participação numa oficina dinamizada pela Andreia sobre as iluminuras. Os manuscritos medievais eram ilustrados desenhos pintados, às vezes recebendo mesmo aplicações de uma finíssima folha de ouro, que coloriam (iluminavam), os pergaminhos. As cores eram produzidas a partir de plantas, minerais, sangue e até insetos. Os pigmentos eram misturados com clara de ovo para poderem depois ser aplicados, utilizando penas de pato cortadas em bisel.

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   Claro que nós não somos copistas medievais. Por isso, utilizámos modernas canetas de feltro e lápis de cor que a Andreia nos emprestou. A partir de uma fotocópia colorida do frontispício do foral que o rei D. Manuel concedeu à cidade de Coimbra em 1516, apusemos uma folha de papel vegetal transparente para decalcar e colorir o desenho original.

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   Quanto aos resultados.... bom, deu para perceber que é uma tarefa muito demorada e minuciosa que exige muita, mas mesmo muita paciência. Além disso, não há margem para enganos, pois não se podia usar corretor, nem apagar com borracha. Qualquer erro seria irremediável! Apesar de tudo, os nossos trabalhos revelaram algum talento. Deixamos aqui umas fotografias:

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publicado por CP às 12:17
Domingo, 19 de Novembro de 2017

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   O Convento de Santa Clara-a-Nova é um dos melhores exemplos da arquitetura religiosa do período da Restauração. O projeto deste convento das Clarissas é atribuído ao matemático e engenheiro da Ordem de S. Bento Frei João Turriano (1610-1679). As paredes do começaram a ser lançadas em 1649 e têm uma espessura superior a 3 metros! O convento instalou-se em 1677, embora só ficasse concluído em 1696.

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   Situado no alto da colina de Santa Clara, na margem sul do rio Mondego, oposto à Alta da cidade, daí se podendo usufruir de umas vistas magníficas.

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   Em 1834, com a extinção das Ordens Religiosas, não foram admitidas mais noviças. Por isso, quando morreu a última freira, em 1886, as instalações ficaram desocupadas, sendo entregues ao cuidado da Confraria da Rainha Santa Isabel e a uma congregação religiosa que aqui pretendia instituir um colégio missionário.  

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   Em 1910, com a proclamação da República, algumas partes do complexo foram declaradas monumento nacional, enquanto as restantes dependências, nomeadamente na ala virada a norte, foram ocupadas pelo Exército - Batalhão de Serviços de Saúde - e pelo Museu Militar. Até há bem poucos anos, os mancebos da cidade e da região vinham aqui fazer as inspeções militares.

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   Em 2006, o Exército devolveu as instalações ao Estado, no decurso de uma reestruturação profunda. Desde então, esta Ala Norte tem estado ao abandono, pelo que o Estado manifestou recentemente a intenção de concessionar o edifício à iniciativa de privados. Muito se tem falado sobre a possibilidade de aqui se instalar uma unidade hoteleira, mas até agora nenhuma iniciativa se concretizou, pelo que o monumento se vai degradando a um ritmo acelerado.

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   Neste sentido, a curadoria da Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, decidiu criar aqui o núcleo mais importante da 2ª edição deste evento. Sob o tema geral Curar e Reparar, o curador-geral Delfim Sardo criou um percurso que partindo da Baixa até à Alta, atravessa depois o rio, revelando este Mosteiro de Santa Clara, tão desconhecido do público. No mesmo lance, oferece-se o usufruto de um novo olhar sobre Coimbra, reparando na cidade de um outro ângulo e numa outra distância.

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 AnoZero’17 é a continuação de uma aventura iniciada em 2015, sob a inspiração do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC). Pretende-se criar uma mostra de arte contemporânea na nossa cidade, numa relação com o património, a cidade construída e imaterial e os seus cidadãos. 

 

   Esta edição da Bienal distribui-se por uma série de espaços, que convidamos os nossos leitores a visitar. Além de Santa Clara-a-Nova, há exposições, conferências, eventos e outras manifestações artísticas, no Convento de S. Francisco, na Sala da Cidade, Colégio das Artes, Galeria de História Natural do Museu da Ciência, nas salas do CAPC, entre outros locais onde decorrem outros eventos numa programação convergente.   

 

   Neste núcleo que visitámos, o mais relevante desta edição, há instalações e obras de artistas nacionais e estrangeiros tão importantes como Louise Bourgeois, Jimmie Durham, Julião Sarmento ou Pedro Barateiro entre tantos outros. Como o nosso tempo era escasso e não podíamos visitar tudo, concebemos um percurso que contemplou alguns artistas apenas. Convidamos assim os nossos sócios a desafiarem os seus amigos a familiares a visitarem este núcleo da Bienal.

 

 

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   Iniciámos o nosso itinerário num enorme corredor do piso térreo. Aqui, confrontámo-nos com uma instalação de luz concebida por Julião Sarmento. À medida que avançamos, no meio de uma escuridão total, o nosso movimento vai despertando uma série de sensores que ativam luzes colocadas no teto. Ritmadamente, as luzes vão-se tornando cada vez mais intensas, até culminarem num clarão final, imediatamente antes de retormarmos a realidade no final do corredor, com a sua luminosidade natural. É como se fosse um percurso iniciático, gradual e progressivo, no termo do qual adquirimos um novo estatuto e se nos revela um mundo novo. É fácil e tentador estabelecer uma analogia com o percurso da nossa vida, desde a infância até à morte, mas isso fica para a imaginação de cada um.

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   Depois, já no exterior, deliciámo-nos com as vistas sobre a cidade, antes de entrarmos uma airosa capela exterior onde conhecemos uma pintura de um jovem artista brasileiro, Lucas Arruda, que apresenta ainda outros trabalhos neste pólo da Bienal.

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   Reentrando no Convento, subimos até ao corredor do piso superior e fomos deambulando pelo enormíssimo corredor – 200 metros! – entando e saindo das antigas celas das freiras, depois adaptadas a escritórios e camaratas militares antes de serem abandonadas, e onde agora se alojam as obras de arte dos artistas desta exposição.

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   São muitos os trabalhos expostos. Nós destacámos os trabalhos de José Maçãs de Carvalho. Trata-se de um artista da nossa cidade, docente na Universidade, que tem dedicado a sua carreira artística ao filme e à fotografia. O artista produziu uma série de fotografias, projetadas em diapositivos, onde nos mostra crianças a dormir cobertas por um lençol branco, intercaladas com imagens de uma selva vegetal. Segundo o catálogo da exposição, as imagens captadas no Jardim Infantil da Maternidade Bissaya Barreto pretendem observar «o processo do sono reparador das crianças e do seu acordar.»

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   No final, a marcar o termo do nosso passeio, subimos à sala do Torreão Sul onde assistimos a uma instalação de video e audio do consagrado artista sul-africano William Kentridge. Durante 15 minutos, um conjunto de 8 projetores e 4 megafones oferecem-nos um extraordinário filme. Trata-se de uma parada, ou uma procissão, que narra a história do continente africano a partir de silhuetas que desfilam ao som de uma fanfarra. Ficamos tão atraídos, quase hipnotizados, que, no final, apetece continuar a assistir ao filme, projetado continuamente. Mas não podia ser, estava na hora de partir!

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publicado por CP às 11:15
Sábado, 11 de Novembro de 2017

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   Fomos visitar a Torre de Almedina, onde fomos recebidos pelo Dr. Vasconcelos que nos deu uma lição sobre a cidade medieval, a partir de uma maqueta aí instalada, executada pelos professores do Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências. 

  A Porta de Almedina era a entrada principal da cidade e é provável que a sua edificação remonte a épocas anteriores à reconquista cristã. No entanto, foi após a tomada definitiva de Coimbra, em 1064, pelo rei Fernando Magno, que os trabalhos de construção deram a esta robusta torre o aspeto que ainda hoje conserva.

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   Ao longo dos tempos, e depois de a Torre ter perdido a sua função militar, aqui funcionaram a Casa da Vereação e o Tribunal da Relação, obrigando a obras de remodelação. Foi construída uma escadaria interior e, no cimo, foram alteados os muros, criando um novo salão onde se reunia o senado  municipal. A Torre de Almedina era então a sede do poder municipal, até que a Câmara se transferiu para o local onde ainda hoje se situa, num edifício anexo ao Mosteiro de Santa Cruz.

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    Depois disso, a Torre teve várias funções. Aqui funcionou a Escola Livre das Artes e do Desenho e o Arquivo Histórico Municipal, sendo atualmente um dos núcleos do Museu Municipal dedicado à Cidade Muralhada. Subindo ao cimo da Torre, onde se usufruem de umas magníficas vistas sobre a cidade, deparámo-nos com um sino e, claro, não resistimos ao apelo do badalo, desatando às marteladas! Os turistas e transeuntes, surpreendidos, olhavam para cima, intrigados com o que se estaria a passar!

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   Depois, mais calmos, lá ouvimos o Dr. Vasconcelos a explicar-nos que aquele sino era usado para emitir diversos alertas das autoridades municipais à população da Almedina e dos arrabaldes. Havia toques para as mais diversas situações, alertando para perigos diversos, ataques, celebrando ocasiões festivas, anunciando procissões, ou até para advertir para o surgimentos de casos de peste e outras doenças na cidade.

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   Concluída esta parte mais instrutiva da nossa visita, eis que chegou a ocasião para um momento de diversão. Fomos conduzidos para uma sala anexa à Torre, onde fomos recebidos pela Andreia. Ela tinha um jogo para nos propor: forneceu-nos catapultas em miniatura, feitas com elásticos, paus de gelado e rolhas de plástico, com as respetivas munições, projéteis feitos de folha de alumínio amassada!

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   Cada um recebeu a sua catapulta. Depois, organizámo-nos em grupos. Cada grupo tinha a sua torre, construída em cartolina. O objetivo era assaltar a torre, submetendo-a aos nossos tiros. Para isso, a Andreia concedeu-nos um breve período para treinarmos, afinal não estamos habituados a este tipo de armamento! E lá ficámos, disparando bolas prateadas com paus de gelado amarrados com elásticos, tentando acertar numa torre de cartolina!

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   Esgotado o período de treino, passámos à ofensiva. As regras eram claras: o grupo que conseguisse arremessar o maior número de projéteis para o interior da Torre seria o vencedor. Agora que a "guerra" era a sério, o nervosismo tomou conta dos assaltantes e o resultado não foi lá muito famoso! Foram poucos os que conseguiram acertar no alvo. Foi tão mau que se o D. Afonso Henriques, no seu tempo, se tivesse que defender do ataque de mouros como nós, com tão fraca pontaria, teria levado uma vida descansada! Temos que treinar mais!

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publicado por CP às 10:40
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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